Por Lavínia Kaucz e Gabriel Sousa (AE)
Ao anunciar um pacote de R$ 2,2 bilhões para ampliar o tratamento do câncer via Sistema Único de Saúde (SUS), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez referência a movimentações financeiras que teriam sido feitas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e que são investigadas pela Polícia Federal.
“Nós, seres humanos, temos que tratar as pessoas com sentimento, com solidariedade. Temos que falar com o coração. Somos 80% emoção e apenas 20% razão. Esse país precisa voltar a ser humano. É preciso extirpar o ódio. Nesse hospital aqui não tem dinheiro do Vorcaro”, disse nesta sexta-feira, 15 de maio, durante visita ao Hospital do Amor, em Barretos, na macrorregião de Ribeirão Preto.
As declarações foram feitas em meio à repercussão do pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao banqueiro Daniel Vorcaro de um financiamento de R$ 134 milhões para bancar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Flávio, que é pré-candidato à Presidência da República, tem justificado que se tratava de “dinheiro privado”.
O montante de R$ 2,2 bilhões, segundo o governo federal, é o maior já registrado na rede pública de saúde. Entre as principais inovações anunciadas estão a criação da nova tabela de financiamento do SUS para a oferta de 23 medicamentos oncológicos de alto custo, a criação do financiamento de cirurgias robóticas oncológicas na rede pública e a ampliação do acesso à cirurgia de reconstrução mamária.
Compõem a lista dez medicamentos que serão adquiridos diretamente pelo Ministério da Saúde e distribuídos aos estados, enquanto os demais serão ofertados por meio da Autorização de Procedimento Ambulatorial (Apac), quando a compra é realizada pelos centros habilitados no país, com financiamento federal, e Ata de Negociação Nacional.
Os medicamentos, segundo a Presidência da República, contemplam 18 tipos de câncer, incluindo mama, pulmão, leucemia, ovário e estômago. A depender do tipo de tratamento, o paciente pode economizar até R$ 630 mil, caso fizesse o mesmo tratamento na rede privada, informou o governo federal.
O presidente também disse que não tem “nada contra pessoas que ganharam dinheiro trabalhando”, mas que os mais ricos “não precisam muito do Estado”. “Tem muita gente que acha que o Lula só se preocupa com os pobres. Eu não tenho nada contra as pessoas que ganharam dinheiro trabalhando. A única coisa que eu tenho é que o Estado tem a função de fazer justiça e dar oportunidade de igualdade a todas as pessoas”, afirmou.
Lula também disse que o Estado existe “exatamente para não permitir que apenas quem tem dinheiro possa ter as coisas”. O presidente afirmou que, nos governos anteriores, os pobres eram tratados como invisíveis. “O Brasil entrou numa rota de civilidade. O pobre não será mais tratado como invisível, ele existe e é real”.
O presidente aproveitou o discurso para defender uma restrição ainda mais dura sobre o uso de inteligência artificial (IA) nas eleições. Ele comentava a resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proíbe a publicação de conteúdos feitos com IA sobre candidatos nas 72 horas antes e nas 24 horas depois do pleito.
“O presidente do TSE disse que, nos dois dias antes das eleições, não vai ter inteligência artificial. Mas não pode ter nunca na eleição. Porque governar não é artificial, governar é real. Você não pode acreditar em ficção”, afirmou em evento em Barretos. Na quinta-feira (14), Lula disse que, ao ouvir sobre a nova regra, achou “maravilhoso”.
Durante a visita, que contou também com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e do vice-presidente Geraldo Alckmin, o petista anunciou ações de estímulo à realização de cirurgias robóticas pelo SUS.
Também foi anunciada a construção do novo Centro de Pesquisa Clínica e Cirurgia Robótica do Hospital e do Instituto de Treinamento em Cirurgias Minimamente Invasivas (Icard).
O projeto pretende acelerar o acesso de pacientes oncológicos a terapias e procedimentos de alta complexidade, além de ampliar a capacidade da instituição em combinar inovação médica, escala assistencial e eficiência de custos.

