Rosemary Conceição dos Santos*
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por déficits na comunicação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento. Na prática clínica, indivíduos com TEA frequentemente emitem comportamentos problemáticos persistentes que, mesmo quando reduzidos por intervenções comportamentais, tendem a reaparecer após a descontinuação do tratamento, fenômeno denominado ressurgência. Esse padrão de recaída representa um dos principais obstáculos à durabilidade dos efeitos terapêuticos nessa população.
Neste contexto, sendo multifatorial o estudo dedicado a descobrir a causa ou a origem desse fenômeno, envolvendo tanto fatores genéticos quanto ambientais, pesquisas destacaram que foi associado à exposição pré-natal ao ácido valproico (VPA), fármaco antiepiléptico e estabilizador de humor de uso gestacional, um aumento na incidência de TEA em crianças expostas de aproximadamente 0,9% para 6,3%. Entretanto, pesquisas também destacaram que essa associação não é determinística, ou seja, que a maioria das crianças expostas ao VPA não desenvolve TEA, o que indica que a exposição ao fármaco pode constituir um fator de risco que interage com predisposições genéticas individuais, por exemplo.
Uma vez que a etiologia comum entre a exposição ao VPA e o TEA torna esse fármaco um alvo relevante de investigação pré-clínica, o modelo de exposição pré-natal ao VPA em ratos tem sido amplamente utilizado na pesquisa sobre TEA. Embora as alterações produzidas por esse modelo ainda estejam sendo investigadas de forma rigorosa quanto à sua validade como análogos comportamentais tipo-autista, a etiologia compartilhada com casos humanos justifica a aplicação prática de descobertas científicas de laboratório sobre o mesmo em benefícios reais para a sociedade.
Uma tese de doutorado, em execução na Faculdade de Filosofia, Ciências de Letras da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto pela pesquisadora Ana Júlia de Oliveira Cerveira, sob a orientação do Prof. Dr. Fernando Eduardo Padovan Neto e a co-orientação da Profa. Dra. Andréia Schmidt, com o objetivo de avaliar se animais expostos ao VPA apresentam comportamentos resistentes à eliminação e susceptíveis à ressurgência em um contexto experimental e controlado de laboratório, busca replicar experimentalmente o padrão clínico de recaída observado em humanos com TEA.
Caso os resultados indiquem que esses animais exibam perfil de persistência e recaída comportamental compatível com o fenômeno clínico, o modelo poderá ser estabelecido como válido para o estudo experimental de comportamentos persistentes, subsidiando investigações futuras sobre os mecanismos neurobiológicos que favorecem esse fenômeno e o desenvolvimento de possíveis intervenções farmacológicas.
USP/FAPESP*




