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EXCLUSIVO: Clínica irregular é denunciada por família de interno

Secretaria de Saúde informou que clínica foi autuada e interditada; denúncia aponta ligação com unidade onde interno morreu em 2025

Segundo Secretaria Municipal de Saúde, clínica teria sito autuada e interditada no final de maio e não poderia estar funcionando (Foto: Google Street View/Reprodução)

| Por: Adalberto Luque |

Familiares de um dependente químico registraram, na tarde deste domingo (21), um boletim de ocorrência (BO) denunciando uma clínica de reabilitação por utilizar internos para realizar todos os serviços do local como mão de obra gratuita.

A clínica denunciada fica na rua Marques de Valença, 335, Alto da Boa Vista, zona Sul de Ribeirão Preto. Segundo a denúncia, ela pertence aos mesmos proprietários de outra clínica que foi fechada após um interno ter sido espancado e morto em dezembro do ano passado. De acordo com o BO, assim que tomaram conhecimento do ocorrido na outra unidade dos proprietários, os familiares foram até o local e retiraram o filho da internação.

Eles disseram ter pago R$ 2 mil pela estadia do rapaz, que durou apenas 11 dias. No momento da retirada, a clínica teria cobrado outros R$ 2 mil a título de multa, valor que não foi pago.

“Quando o trouxe de volta, meu filho relatou o que ocorria lá dentro e pude confirmar que vinha ao encontro do que haviam me relatado. Quando comecei a falar que, com uma semana de internação, ele já havia sido colocado na cozinha para fazer almoço para todos os internos, sem nenhum acompanhamento profissional, ela justificou que fazia parte da laborterapia”, consta no BO.

Os familiares questionaram a situação, pois na cozinha há facas e outros objetos potencialmente letais. Eles entendem que seria necessária uma avaliação de psiquiatra ou outro profissional habilitado para garantir que não houvesse riscos, o que, segundo afirmam, não ocorreu. Também alegam que não havia supervisão, apenas outros internos.

A família também solicitou o prontuário médico do filho para verificar se ele havia sido avaliado por um médico e estava apto a exercer a atividade. “Sei que nas clínicas todos fazem tarefas cotidianas, mas entendo que devem estar aptos e avaliados para tanto”, disse um familiar que não quis se identificar. Segundo a denúncia, o prontuário não foi fornecido.

Clínica foi interditada

A Secretaria Municipal de Saúde informou, por meio de nota, que a clínica está irregular e não poderia estar funcionando.

“A Secretaria Municipal da Saúde, por meio da Vigilância Sanitária, informa que a Clínica de Reabilitação A Renovare, localizada na Rua Marques de Valença, nº 335, no bairro Alto da Boa Vista, foi autuada e interditada em 28 de maio de 2026 após fiscalização que constatou o funcionamento irregular do estabelecimento, sem a devida licença. A interdição foi realizada com base na legislação vigente. A Vigilância também informa que o caso foi formalmente comunicado ao Ministério Público para as providências cabíveis”, diz a nota.

No site da Prefeitura, apenas cinco clínicas de reabilitação estão devidamente autorizadas a prestar serviços: Instituto Luz (Recreio das Acácias, zona Leste), Rarev (rodovia Abrão Assed, zona Leste), Viver Comunidade Terapêutica (zona rural, região do Complexo Ribeirão Verde), Associação Comunidade Terapêutica Luciana Penteado (Lagoinha, zona Leste) e Associação Assistencial Dona Nair Manoelita (Jardim Sumaré, zona Sul).

Outro lado

A direção da A Renovare, por meio de nota, rebateu as acusações. Segundo a instituição, todas as atividades realizadas estão em conformidade com a legislação vigente, especialmente com as diretrizes estabelecidas pela RDC nº 29/2011 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), além de outras normas aplicáveis às comunidades terapêuticas.

“A participação dos acolhidos nas atividades terapêuticas, educativas, ocupacionais e de laborterapia é incentivada como parte integrante do processo de recuperação e reinserção social. Essas atividades são sugeridas e estimuladas a todos os residentes, incluindo a participação em reuniões terapêuticas, atividades de organização dos ambientes e auxílio em tarefas rotineiras da instituição, sempre com finalidade terapêutica, educativa e de desenvolvimento de responsabilidade pessoal.”

Em relação ao rapaz retirado da clínica pelos familiares, os responsáveis pela A Renovare afirmam que ele jamais exerceu função de cozinheiro ou ocupou cargo fixo relacionado à preparação das refeições.

“Eventualmente, assim como ocorre com outros acolhidos, participou de atividades de apoio e colaboração dentro da proposta de laborterapia, incluindo auxílio em tarefas simples e supervisionadas no ambiente da cozinha, sem qualquer vínculo laboral, obrigação profissional ou responsabilidade exclusiva pela alimentação dos demais residentes”, informa a nota.

Sobre a retirada do acolhido, a clínica informou que isso ocorreu antes da conclusão do tratamento contratado.

“Em razão da interrupção antecipada do programa terapêutico, haveria a incidência das cláusulas contratuais previamente pactuadas entre as partes, incluindo as disposições referentes à rescisão antecipada.”

Encerrando a nota, os diretores afirmam possuir registros documentais, controles internos, relatórios de atividades, testemunhos e outros elementos que comprovariam a regularidade das atividades desenvolvidas. Também se colocam à disposição para prestar os esclarecimentos necessários. A nota, contudo, não aborda a autuação e a interdição realizadas pela Vigilância Sanitária.

Morte na clínica

A morte de Wildson Cardoso Felipini, de 30 anos, em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos na rua João Bim, no Jardim Paulistano, zona Leste de Ribeirão Preto, deixou de ser tratada como suspeita de mal súbito e passou a ser investigada como morte violenta.

Internado voluntariamente em 25 de dezembro de 2025, Wildson morreu dois dias depois. A família foi informada pela clínica de que ele havia sofrido uma parada cardíaca. A instituição afirmou ter prestado os primeiros socorros, acionado equipes de emergência e comunicado o caso às autoridades.

No entanto, durante o reconhecimento do corpo, familiares relataram ter encontrado marcas de agressão, principalmente na região da cabeça. A situação levantou dúvidas sobre a versão inicial apresentada pela clínica e levou a Polícia Civil a aprofundar as investigações.

O laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) concluiu que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico provocado por agente contundente, além de apontar a existência de múltiplas lesões pelo corpo. O resultado afastou a hipótese de morte natural.

As investigações passaram a apurar as circunstâncias das agressões, a possível participação de outros internos e eventual responsabilidade de funcionários e administradores da clínica. Também foram analisadas possíveis omissões relacionadas à segurança e ao atendimento prestado à vítima.

Com base em depoimentos, perícias e demais provas reunidas ao longo do inquérito, o caso avançou para a identificação dos envolvidos e para a apuração das responsabilidades criminais pela morte de Wildson dentro da unidade de reabilitação.

A clínica foi fechada, mas, segundo a denúncia, pertence aos mesmos proprietários da A Renovare. Inclusive, no CNPJ consta o mesmo endereço eletrônico da clínica do Jardim Paulistano.

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