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Da máquina de escrever à inteligência artificial: o que continua sendo insubstituível na advocacia?

Por Evandro Grili

A proximidade do Dia do Advogado, celebrado em 11 de agosto, é um convite à reflexão sobre as transformações vividas pela profissão nas últimas décadas. Tomo como ponto de partida a minha própria trajetória: iniciei a carreira como advogado há 33 anos, depois de quatro anos de estágio no mesmo escritório em que permaneço até hoje e do qual atualmente sou sócio e diretor executivo.

Quando entrei no escritório a realidade era completamente diferente. Os processos eram de papel. As petições eram datilografadas em máquinas de escrever. Pesquisávamos jurisprudência em livros e revistas. Não havia internet, processo eletrônico, videoconferências ou inteligência artificial. O trabalho exigia mais tempo, consumia grande volume de papel, pilhas de processos e proporcionava muito aprendizado.

O escritório, que naquela época reunia cerca de 20 pessoas, hoje conta com aproximadamente 450 profissionais, atua em diferentes regiões do Brasil e mantém presença em Portugal desde 2018. Essa expansão também traduz uma mudança mais ampla: a advocacia deixou de operar apenas em contextos locais e mudou de dimensão. Era mais clássica, ficou mais moderna. Era também uma profissão predominantemente masculina e, felizmente, tornou-se cada vez mais feminina e diversa.

O Direito deixou de ser uma atividade local para atuar em um ambiente globalizado. Empresas investem além das fronteiras, pessoas vivem entre diferentes países e as relações jurídicas tornaram-se muito mais complexas. Ao mesmo tempo, a advocacia transformou-se em um setor altamente profissionalizado, que exige gestão, tecnologia, inovação e visão estratégica.

Agora vivemos uma nova revolução. Talvez a mais profunda de todas:a inteligência artificial já pesquisa precedentes, analisa contratos, resume documentos e produz textos em poucos segundos. Ferramentas que antes pareciam ficção científica passaram a fazer parte da rotina de muitos advogados. Diante dessa realidade, muitos perguntam: as máquinas substituirão homens e mulheres na advocacia?

Acredito que essa seja a pergunta errada.

A tecnologia certamente substituirá inúmeras tarefas. Reduzirá tempo, aumentará produtividade e automatizará atividades repetitivas. Isso já está acontecendo e tende a se intensificar. Resistir a essa transformação seria um erro.

Mas existe algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir integralmente: o discernimento humano. O advogado não é apenas alguém que conhece leis. É alguém que interpreta contextos, compreende pessoas, administra conflitos, constrói confiança, faz escolhas difíceis e assume responsabilidades. Julgamento, sensibilidade, ética e coragem continuam sendo atributos essencialmente humanos.

Por isso, se eu pudesse conversar hoje com o jovem que, há 37 anos, dava seus primeiros passos na advocacia, ou com você que está só começando a sua jornada no Direito, diria para estudar com dedicação, mas não apenas a ciência jurídica. Procure aprender também sobre negócios, tecnologia, economia, comunicação, marketing e comportamento humano. Aprenda a ouvir, preserve sua reputação e seja curioso. Nunca pare de aprender.

As ferramentas mudarão muitas vezes durante sua carreira. As leis também. O conhecimento técnico continuará indispensável, mas deixará de ser suficiente. O verdadeiro diferencial será a capacidade de transformar informação em sabedoria, tecnologia em soluções e conhecimento em confiança.

Da máquina de escrever à inteligência artificial, quase tudo mudou. E, talvez justamente por isso tenha ficado ainda mais claro aquilo que jamais poderá ser automatizado: a responsabilidade de defender pessoas, construir soluções e exercer a advocacia com ética, equilíbrio e humanidade.

Evandro Grili, advogado, sócio e diretor executivo de Brasil Salomão e Matthes Advocacia.

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