Taís Roxo Fonseca *
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Perder dói. Ainda mais quando a eliminação acontece antes do esperado. O futebol faz parte da identidade brasileira e desperta emoções profundas. Mas, por mais amarga que seja a derrota dentro do campo, existe uma derrota muito mais cruel: a de milhões de brasileiros que perdem oportunidades todos os dias por falta de educação de qualidade, saúde eficiente e condições dignas de trabalho.
Enquanto discutimos esquemas táticos e resultados esportivos, o Brasil continua convivendo com uma das maiores desigualdades sociais do planeta. A riqueza produzida pelo país não alcança todos de forma equilibrada. Em uma ponta estão os supersalários gerados pelos penduricalhos que excedem o teto constitucional e mesmo assim o STF acaba de autorizar, para parte da elite do serviço público e de setores privilegiados.
Na outra, famílias que enfrentam a insegurança alimentar, escolas precárias e jornadas de trabalho exaustivas, em escalas de seis dias para apenas um de descanso. A oportuna comparação com a Noruega provoca reflexões importantes. Trata-se de um pais muito menor, com uma economia infinitamente mais modesta que a brasileira mesmo assim, desenvolveu ao longo dos anos programas voltados à saúde, alfabetização, moradia popular e atendimento básico.
A Noruega protege seus cidadãos através de um forte estado de bem estar social. O governo usa o dinheiro do seu petróleo para garantir saúde e educação de excelente qualidade e ao mesmo tempo que consolidou uma aliança com os empresários, favorecendo ainda mais a distribuição de renda e políticas sociais.
O Brasil possui recursos naturais abundantes, um dos maiores mercados consumidores do mundo, universidades respeitadas, agricultura competitiva e enorme capacidade de inovação. Não lhe falta potencial. O verdadeiro aprendizado consiste em observar que nenhum país prospera de forma sustentável quando a renda permanece concentrada e quando parcelas significativas da população ficam privadas de educação , qualificação profissional e oportunidades essenciais à dignidade humana.
Talvez o maior placar que devesse indignar os brasileiros não seja o do futebol. O resultado realmente preocupante é aquele que coloca lado à lado privilégios incompatíveis com a realidade nacional e milhões de cidadãos vivendo na pobreza e ou na miséria.
Enquanto lamentamos noventa minutos de uma partida que por sinal, a derrota já estava previamente anunciada pela total falta de estrutura do time brasileiro nesse campeonato, jogadores patrocinados pelas bets, técnico que não fala o nosso idioma e em completa dissonância com o time, enquanto isso nossas crianças continuam sem acesso à educação de qualidade e nossos jovens sem acesso aos direitos trabalhistas jogados em jornadas sub-humanas, lutando para sobreviver com salários risíveis.
Ganhar uma copa traz alegria e orgulho nacional mas vencer a desigualdade e reduzir privilégios injustificáveis, investindo de forma consistente em educação , saúde e oportunidades, produziria uma conquista muito maior: um Brasil capaz de oferecer dignidade à todos os seus cidadãos, essa sim seria a maior vitória da nossa história. Não poderia deixar de falar de Cabo Verde, o país da minha amiga Fatu Antunes, coordenadora da Oficina Cultural Regional Candido Portinari.
Cabo Verde sim, perdeu a copa ganhando. Porque reconhecer que há derrotas que não diminuem ninguém, pelo contrário revelam o momento certo para transformações. O goleiro Vozinha da seleção de Cabo Verde, entrou para a história do futebol, um eletricista já em idade avançada para jogar futebol, que envia uma carta pedindo a vaga de goleiro da seleção .
A esperança é a verdadeira marca em Cabo Verde de Cessaria Évora,que em sua voz expressa a luta e a persistência da esperança fica assim o verbo repetido em seus versos na música Cabo Verde: kabuverdi, já N espera txeu-ma inda N tem fé i speranza (Cabo Verde, já esperei muito, mas ainda tenho fé e esperança). Diria o mesmo ao Brasil de hoje.
* Advogada

