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Psicologia & Neurociência (14): O Cérebro Preguiçoso

José Aparecido Da Silva*

 

O Cérebro não é preguiçoso, mas, sim, prudente. Imagine a manhã de domingo em Ribeirão Preto. O calor típico da nossa região começa a dar as caras pela janela, e você se vê diante de um clássico dilema dominical: levantar-se para ler aquele livro denso que está na cabeceira há semanas ou continuar navegando, quase sem rumo, pelos vídeos rápidos da tela do celular? Quase sempre, a gravidade invisível da conveniência nos puxa para a segunda opção. Julgamo-nos severamente por isso, rotulando essa inércia de pura preguiça. Mas, e se eu lhe disser que a ciência tem uma perspectiva muito mais generosa — e fascinante — sobre essa nossa aparente indolência?

O que chamamos de preguiça mental é, na verdade, uma das estratégias evolutivas mais refinadas que possuímos. Embora o cérebro humano represente míseros dois por cento do nosso peso corporal, ele é um verdadeiro sorvedouro de energia, consumindo cerca de vinte por cento de todo o oxigênio e glicose que o corpo utiliza. Manter essa máquina elétrica funcionando exige um esforço metabólico absurdo. Por isso, ao longo de milhões de anos de escassez de recursos, a evolução nos moldou para sermos avarentos cognitivos. Nosso sistema nervoso aprendeu a economizar energia preciosa automatizando rotinas do dia a dia — como escovar os dentes, digitar senhas ou fazer o caminho de volta para casa — para que o esforço consciente e deliberado só seja ativado em situações de real novidade ou desafio.

A ciência explica que funcionamos sob um modelo duplo de pensamento. Temos um sistema automático e intuitivo, que opera de forma rápida e quase sem esforço, e um sistema analítico e consciente, que é lento, deliberativo e extremamente caro em termos de energia. Como o pensamento reflexivo consome muito combustível biológico, o cérebro prefere, por padrão, tomar atalhos mentais. Na vida moderna, porém, essa economia prudente encontrou um aliado que pode ser perigoso: o descarregamento cognitivo. Ao delegarmos decisões simples, caminhos geográficos e até a escrita de textos para inteligências artificiais e aplicativos, nosso cérebro faz o que sabe fazer melhor: reduz o esforço e entra em modo de repouso.

Uma pesquisa pioneira do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) demonstrou de forma clara esse impacto. Estudantes que usaram ferramentas de inteligência artificial para redigir ensaios apresentaram uma queda brutal na atividade cerebral em áreas ligadas à atenção e à criação. O mais deprimente é que, mesmo após desligarem a tecnologia, eles continuaram exibindo um padrão de inércia cognitiva e não conseguiram reter as informações do próprio texto que haviam acabado de formatar. É o músculo do pensamento crítico atrofiando pela falta de exercício voluntário.

Mas a grande descoberta científica que serve de alento para este domingo é que nós não odiamos o esforço em si. Nós odiamos o esforço desperdiçado. A psicologia do desenvolvimento revela um paradoxo fascinante: bebês de apenas dez meses espontaneamente redobram suas tentativas de resolver um problema ao verem um adulto persistir em uma tarefa difícil. Além disso, crianças pequenas sorriem muito mais ao superarem um desafio complexo do que ao realizarem uma tarefa boba. Nós voluntariamente gastamos energia escalando montanhas, aprendendo um instrumento musical difícil ou mergulhando em profundas leituras. Fazemos isso porque o cérebro sente um prazer genuíno no desafio quando ele faz sentido e quando o resultado é percebido como útil e recompensador.

Portanto, caro leitor, neste domingo, não se culpe por buscar o merecido descanso. Quando paramos para fazer nada e deixar a mente vagar, nosso cérebro ativa a chamada rede de modo padrão, um sistema que consome energia para processar nossas emoções, consolidar memórias e planejar o futuro. O segredo não é fugir do repouso, mas sim escolher com sabedoria onde gastaremos nossa preciosa energia amanhã. Use a tecnologia para expandir seus horizontes, mas nunca para pensar por você. Que o seu domingo seja de descanso regenerador, preparando o cérebro para os belos desafios que a semana trará.

 

Professor Titular Sênior da USP-RP*

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