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Aposta sob alerta

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Quatro em cada dez apostadores, ou 39,7%, se endividaram após o início do relacionamento com sites de jogos e apostas online, as chamadas bets

O endurecimento das regras de publicidade para as apostas esportivas é um reconhecimento tardio de que as bets deixaram de ser apenas uma modalidade de entretenimento para se tornar um problema de saúde pública, endividamento e proteção ao consumidor. A partir de julho, propagandas deverão exibir advertências como “apostar faz você perder dinheiro” e “aposta não é investimento”, além de serem proibidas de utilizar influenciadores, comentaristas e especialistas para induzir o público. As medidas chegam depois de anos de expansão acelerada de um setor que movimenta bilhões de reais e que se consolidou em um ambiente de baixa fiscalização e intensa exposição publicitária.

Os números ajudam a entender a dimensão do fenômeno. Segundo o Banco Central, os brasileiros chegaram a movimentar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas em 2024. Estudos do próprio governo apontam que milhões de pessoas de baixa renda passaram a destinar parte significativa de seus recursos às bets, inclusive beneficiários de programas sociais. O Supremo Tribunal Federal já determinou restrições ao acesso de beneficiários do Bolsa Família às plataformas, enquanto a Secretaria de Prêmios e Apostas informa que mais de 56 mil sites ilegais foram retirados do ar e cerca de mil perfis de influenciadores foram derrubados. Os dados demonstram que o problema não está apenas nas empresas regularizadas, mas principalmente na dimensão clandestina do mercado.

Há, porém, um debate mais profundo. A publicidade das apostas foi construída sobre uma narrativa de sucesso, facilidade e enriquecimento rápido, semelhante à utilizada em outros produtos de risco no passado. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) e órgãos de defesa do consumidor já vinham alertando para campanhas que associavam apostas a ascensão financeira, estilo de vida luxuoso e realização pessoal. Ao proibir esse tipo de mensagem, o governo corrige uma distorção, mas enfrenta um desafio enorme: a fiscalização. Quem monitorará milhares de conteúdos publicados diariamente nas redes sociais, em transmissões esportivas e por criadores de conteúdo? A experiência com outras restrições publicitárias mostra que a capacidade de fiscalização do Estado costuma ser inferior à velocidade de adaptação do mercado digital.

As novas regras representam um avanço, mas dificilmente serão suficientes por si só. O país precisará combinar regulação, fiscalização efetiva, educação financeira e políticas de prevenção ao jogo compulsivo. A indústria das apostas tornou-se parte da economia e do esporte brasileiro, patrocinando clubes, campeonatos e veículos de comunicação. O desafio, agora, é impedir que uma atividade legal continue sendo apresentada como atalho para prosperidade. Afinal, como a própria advertência oficial passará a lembrar, apostar não é investimento, é risco. E, em muitos casos, um risco alto demais para milhões de brasileiros.

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