Patrícia Casemiro *
Ribeirão Preto reúne todas as condições para se tornar uma referência em reciclagem no interior paulista. O potencial econômico, a força do setor industrial e de serviços, a presença de cooperativas e uma sociedade cada vez mais consciente criam um cenário amplamente favorável. Ainda assim, um dado chama atenção: embora cerca de 40% dos resíduos gerados diariamente na cidade possam ser reciclados, apenas aproximadamente 1,3% retornam efetivamente à cadeia produtiva, de acordo com dados da prefeitura referentes a 2025.
Esse número não é uma crítica. É um convite à reflexão, e principalmente um indicativo de quanto espaço existe para avançarmos. Municípios com perfil semelhante ao de Ribeirão Preto já demonstraram que é possível ampliar significativamente os índices de reciclagem quando há engajamento coletivo, políticas consistentes e investimento em educação ambiental. O caminho existe. O que está em construção são as pontes necessárias para percorrê-lo.
Reciclar não é apenas uma questão ambiental. Quando a reciclagem funciona de forma estruturada, ela reduz o volume de resíduos enviados a aterros sanitários, diminui a emissão de gases de efeito estufa e contribui para a preservação de recursos naturais. Mas seus efeitos vão além: a reciclagem gera trabalho e renda para cooperativas e agentes ambientais, movimenta uma cadeia produtiva local e fortalece a economia circular. Em Ribeirão Preto, cooperativas como a “Recicla Ribeirão MRM (CRRM)”e a “Cooperagir” vêm transformando materiais descartados em fonte de sustento para famílias e em insumos para a indústria — exemplo concreto de que reciclagem e desenvolvimento social caminham juntos.
Ampliar esse cenário não é responsabilidade de um único ator. É um processo que envolve a população, as empresas e o poder público — cada um com seu papel. Para o cidadão, o ponto de partida está dentro de casa: separar corretamente os materiais recicláveis antes do descarte já representa uma contribuição significativa para toda a cadeia. Pequenas mudanças de hábito, quando praticadas em escala, geram grandes resultados.
Para as empresas, a reciclagem é também uma agenda de valor e de responsabilidade. Existem mecanismos legais que permitem direcionar recursos do Imposto de Renda para projetos socioambientais locais sem custo adicional. A Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR) é um desses instrumentos: permite que pessoas jurídicas tributadas pelo Lucro Real e pessoas físicas com declaração completa, destinem parte do imposto que já seria pago para iniciativas voltadas à reciclagem, educação ambiental e inclusão produtiva, fortalecendo a cadeia localmente e gerando impacto direto na cidade.
Mais do que infraestrutura, o que sustenta um sistema de reciclagem eficiente é a cultura. Isso exige educação ambiental contínua — em escolas, condomínios, empresas e espaços públicos. Não como campanha pontual, mas como processo permanente de conscientização e engajamento. É nesse caminho que organizações locais têm atuado, promovendo coleta seletiva estruturada, treinamentos, parcerias com agentes ambientais e cooperativas, e ações de sensibilização junto à comunidade. Ações que mostram, na prática, que é possível fazer mais e que os resultados aparecem quando há comprometimento e continuidade.
Ribeirão Preto tem tamanho, estrutura e protagonismo para liderar esse movimento no interior paulista. A cidade já conta com atores engajados, cooperativas ativas e uma parcela crescente da sociedade disposta a contribuir. O que o momento pede é a soma de esforços: do cidadão que separa o lixo em casa, da empresa que aproveita os mecanismos disponíveis, do poder público que estrutura e amplia os sistemas de coleta, e das organizações que constroem a ponte entre intenção e impacto real. O potencial existe e todos conhecemos. Agora, mais do que nunca, é o momento de aproveitá-lo.
* Responsável por parcerias e soluções ESG no Instituto Recicla+ Ribeirão Preto

