André Luiz da Silva *
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No fim de junho, a norte-americana Martha Ann Lillard morreu aos 78 anos, encerrando um dos capítulos mais emblemáticos da história da medicina. Considerada a última pessoa nos Estados Unidos a depender de um pulmão de aço para respirar, ela viveu mais de sete décadas ligada ao equipamento após contrair poliomielite aos cinco anos de idade, em 1953, quando ainda não existia vacina capaz de impedir que a doença transformasse vidas em histórias de sofrimento.
A poliomielite comprometeu os músculos responsáveis pela respiração e tornou indispensável o uso da enorme máquina metálica que, por meio de variações de pressão, mantinha seus pulmões funcionando. Durante anos, Martha passou praticamente todos os dias dentro daquele cilindro. Recuperou parte dos movimentos, conseguiu permanecer algumas horas fora do equipamento e, mesmo com o avanço dos ventiladores mecânicos, preferiu continuar utilizando a tecnologia que lhe garantira a sobrevivência.
Seria fácil resumir sua trajetória à limitação física. Mas Martha escolheu outro caminho. Pintava, escrevia poesias, compunha músicas para piano e dedicava parte da vida ao voluntariado em defesa dos animais e da comunidade. Somente nos últimos anos, após complicações provocadas pela covid longa e pela síndrome pós-pólio, voltou a depender integralmente do pulmão de aço.
Sua morte representa o fim de uma era, mas também lança um alerta. O pulmão de aço tornou-se peça de museu porque a ciência venceu uma batalha que parecia impossível. A vacinação em massa reduziu drasticamente a circulação do vírus e impediu que milhões de crianças tivessem o mesmo destino de Martha. Sua história nos lembra que, por trás de cada dose aplicada, existem vidas preservadas, sonhos realizados e sofrimentos evitados.
É justamente nesse ponto que a trajetória de Martha se encontra com a do Rotary. Também no final de junho ocorreu a transição de lideranças da organização, que passa do lema “Unidos para fazer o bem” para “Crie impactos duradouros”. Desde 1979, quando iniciou a campanha para imunizar seis milhões de crianças nas Filipinas, o Rotary transformou o combate à poliomielite em uma das maiores mobilizações humanitárias da história. Em parceria com governos e organizações internacionais, ajudou a vacinar mais de três bilhões de crianças e contribuiu para reduzir em 99,9% os casos da doença no mundo.
O desafio, porém, ainda não terminou. Se no passado o maior inimigo era a ausência de tecnologia, hoje convivemos com a desinformação, os movimentos antivacina, conflitos armados, crises políticas e a redução de investimentos em saúde. Enquanto esses obstáculos persistirem, a pólio continuará representando uma ameaça e histórias como a de Martha poderão se repetir.
Neste novo ano rotário, o presidente do Rotary International, o nigeriano OlayinkaHakeem Babalola, lidera uma rede de aproximadamente 1,2 milhão de voluntários distribuídos em mais de 37 mil clubes, presentes em cerca de 200 países e regiões. Além de manter o compromisso de erradicar definitivamente a poliomielite, esses homens e mulheres atuam diariamente na promoção da paz, prevenção de doenças, acesso à água e saneamento, saúde materno-infantil, educação, desenvolvimento econômico e proteção ao meio ambiente.
A história de Martha Ann Lillard nos emociona porque revela o preço pago quando uma doença vence. A história do Rotary inspira porque demonstra o que acontece quando pessoas comuns decidem agir coletivamente para que esse sofrimento não se repita. Todos podem fazer parte dessa transformação. Há sempre um clube rotário de portas abertas para quem deseja colocar seus talentos a serviço da comunidade e ajudar a criar impactos verdadeiramente duradouros.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

