Antonio Carlos Augusto Gama *
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O pior que pode acontecer para uma história (ou estória) é contá-la mal. Ela pode ser interessante, intrigante, exemplar, mas, se mal contada, é como uma refeição sem sabor, ainda que todos os ingredientes estejam ali. Faltam-lhe o tempero, o sal, a pimenta, o cozimento foi mal feito, e deixamos a mesa insatisfeitos. O mau narrador é como o mau cozinheiro: assa demais a carne, deixa entrar fumaça no feijão. E alguns perdem-se em requintes desprezíveis. Tem tudo à sua disposição: o fogão, o forno, as panelas, o óleo, a manteiga, e não soube deles se utilizar.
É preciso saber contar. Para tanto, é necessária a pausa, a introdução, o ritmo, a reticência, a insinuação, a surpresa, a atmosfera, e o desfecho, que se prolonga como uma ressonância. O narrador palavroso perde-se no caminho: quando devia parar, prossegue. Quer dizer tudo, e não diz nada. É preferível aquele que é breve, e acaba quando desejávamos que continuasse.
Imagino uma estória: o pai manda o filho, já moço, sempre apegado à casa, à família, às terras ao redor, a partir a cavalo, do fundo do sertão de Minas Gerais, para levar uma carta fechada a um velho amigo, na capital paulista. O filho reluta: mas se existe o Correio, na vila… O pai insiste, o moço é obediente, monta no cavalo, e segue viagem. Tudo o espera durante o longo percurso: o roubo, a morte, o amor, os rios que têm de transpor, os albergues, as tavernas, a chuva, a noite. Mas ele segue adiante. Afinal chega a São Paulo e entrega a carta ao destinatário. Este, abre o envelope, e acha apenas uma folha de papel em branco.
Toda narrativa é uma carta em branco dentro de um envelope fechado.
Não vivemos o momento adequado para os grandes romances. A vida, lá fora, está exigindo muito de nós. E perdemos a solidão para a compartilhar com os livros. No entanto, como se escreve! Não encontro explicação para isso. Seria a facilidade para se publicar, não obstante as queixas contra os editores?
Fazem-se feiras de livros, em toda parte. São espetáculos em que se exibem cantores, sanfoneiros, ídolos da televisão. Os livros são nelas apenas um pretexto. Enjoadamente, alguém os folheia nas bancas, e vai embora.
Um conhecido meu, numa entrevista a um jornal, declarou que tem cinco mil livros em sua casa. O entrevistador perguntou-lhe se lera todos eles. Claro!, foi a sua resposta. Não entra livro na minha casa, sem que o leia.
Duvido. Seria preciso ler um livro por dia, durante mais de dezesseis anos, sem botar os pés na rua.
Muitos livros se compõem de um texto de dez, quinze páginas, e o resto é o recheio insosso, parlapatice. Faz-se mister que o livro tenha duzentas, trezentas páginas, para que seja um volume que pare de pé. Prefiro as obrinhas breves, de cinquenta páginas. Ninguém tem muito o que dizer, ou escrever, o mais é repetição. A vida não oferece a todos (só a alguns raros) uma existência de grandes aventuras e experiência. Supre-se o mais com a imaginação, mas a imaginação desbragada é fatigante.
Numa lista de vinte, trinta livros indispensáveis (e fazem-se estas listas a cada mês), são quase os mesmos os livros tidos como memoráveis, obras-primas.
Tenho muita pena dos críticos profissionais que são obrigados a ler tudo o que aparece, para dar a sua opinião, a sua interpretação. Que tempo eles perdem com obras medíocres!
Todos querem escrever e publicar. Seria melhor que fossem plantar batatas.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

