Edwaldo Arantes *
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O Rio de Janeiro sempre foi uma paixão antiga e avassaladora, mesmo em meus acidentes, percalços e tropeços.
Exercia funções durante o maravilhoso e solidário governo do Presidente Lula, nos escritórios da Biblioteca Nacional, situados no majestoso “Palácio Gustavo Capanema”, um marco e ícone da arquitetura moderna.
Obra dos geniais, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos e Jorge Machado Moreira, com a consultoria do arquiteto franco-suiço, Le Corbusier.
Em uma sala no 11º andar rodeado pelas paredes em vidro, admirava perplexo o céu azul sobre a Baía de Guanabara, onde mirava deslumbrado a Igreja de Santa Luzia, 1752.
O monarca, Dom João VI, em 1817 ordenou a abertura da atual Rua Santa Luzia, no intuito de chegar a bordo de sua majestosa carruagem, à capela, quitando suas promessas reais.
Atravessando a Rua da Imprensa, chegar ao Capanema era divino, em seu vão livre a livraria Mário de Andrade maravilhavam, enchendo de júbilo os olhares do mineiro, sozinho, entregue à própria sorte, na cidade maravilhosa.
No primeiro andar a Sala Sidney Miller, com espetáculos teatrais e musicais, auditório Gilberto Freyre, salão de exposições com acesso aos Jardins Suspensos, idealizados pelo gênio de Roberto Burle Marx, marcando o paisagismo no Brasil com uma configuração inédita no mundo.
Caminhava atônito perdendo o horário, entre bromélias, quaresmeiras, paineiras, lírios e dezenas de plantas tropicais, guaimbês, camarás e trapoerabas.
No segundo andar, um marcante e belíssimo painel de Cândido Portinari, trabalhou no palácio entre 1938 e 1945 desenvolvendo um grupo de doze pinturas, representando o trabalho simples e o labor sofrido do povo brasileiro.
Nos mais escondidos e perdidos cantos, remetem aos sonhos e a trajetória rica e real da nossa história, despertando a certeza, um local onde ditadores, golpistas e genocidas, nunca devem habitar.
Flanar pelo Centro, olhos abertos, coração pulsando, percorrendo becos e vielas, vez ou outra, os cerrava, imaginando ouvir os cascos dos cavalos estalando, puxando carruagens, retirando faíscas das pedras, assistindo mudas, o correr dos séculos.
Cada esquina é um convite ao deslumbre, um passaporte carimbado de lembranças, lugares e passados, biografia eterna de uma constelação de reminiscências. “Tão Rio antigo, tão brasileiro”, na canção de Toquinho e Vinícius.
Igreja da Candelária, ao chão, um monumento que retrata a barbárie, assassinato de crianças e jovens em uma madrugada, dormindo sob a soleira, cobertos pelos mantos estrelares, brutalmente assassinados pela corrupta força pública fluminense.
Continuo avançando, dissipando a tristeza, atônito, visito nomes eternos, Ouvidor, Alfândega, Gamboa, Uruguaiana, Rosário, Riachuelo, Lavradio, Gonçalves Dias, Arcos da Lapa, Confeitaria Colombo, Circo Voador, Escadaria Selarón, Cais do Valongo, Largo da Carioca, Porto Maravilha, Museu do Amanhã, Angu do Gomes, sob as bênçãos da Catedral Metropolitana de São Sebastião, guiados pelo bondinho de Santa Tereza.
O silêncio, penumbra e mistérios das suas igrejas erguidas durante séculos, postas em crenças e orações desde o Império, onde seus bancos acolhem os desesperados, desamparados, abandonados, indefesos e desvalidos.
Ao adentrar o “Real Gabinete Português de Leitura imagino, entrando no céu, sem anjos, terços, rezas, cornetas, harpas e santos, acolhido por Carlos Drummond de Andrade”, sem rosários, apenas poesia, às mãos.
Mesas no Amarelinho embalaram minhas noites, vejo triste o Palácio Pedro Ernesto, onde atuou e lutou, Marielle Franco, brutalmente assassinada por déspotas e milicianos.
Cinelândia, palco da cultura e da resistência, onde muitos passos foram aniquilados pela sanguinária e nefasta ditadura militar.
O Rio e o sorriso da filhota Marina, pititinha, milho verde cheio de areia, às mãos, amigos que nunca mais verei como o Gustavo Roxo, sentados no “Alla Zingara”, coração de Copacabana, madrugadas, pimentas-malaguetas, bolinhos de bacalhau e cachaças Lua Nova e Havana.
Noites inacabáveis de amizade, sintonia e ternura, incrustadas nas saudades.
“Foi um Rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”. Paulinho da Viola.
Edwaldo Arantes, professor, escritor e agente cultural.
* Professor, escritor e agente cultural

