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Ribeirão que trabalha de madrugada

Enquanto a maior parte da população dorme, trabalhadores de diferentes setores preparam a cidade para começar um novo dia

Enquanto a maior parte da população dorme, muita gente trabalha duro durante a madrugada para que Ribeirão Preto amanheça com tudo em ordem (Foto: Alfredo Risk)

Por: Adalberto Luque

Entre a meia-noite e as primeiras horas da manhã, Ribeirão Preto parece outra cidade. As ruas ficam mais vazias, o movimento diminui e grande parte das casas e apartamentos permanece às escuras. Para muita gente, é o período reservado ao sono e ao descanso.

Mas a cidade não para. Enquanto a maioria dorme, milhares de trabalhadores seguem em atividade para garantir que serviços essenciais continuem funcionando, produtos cheguem ao comércio, pacientes sejam atendidos, as ruas sejam cuidadas e, ao amanhecer, tudo esteja pronto para um novo dia.

São coletores de lixo, padeiros, motoristas, profissionais da saúde, policiais, vigias, operadores de centros de distribuição, agentes de trânsito, frentistas e trabalhadores de postos de combustíveis. Há também funcionários de farmácias, hospitais, unidades de pronto atendimento, lanchonetes, academias e delegacias que cumprem suas jornadas quando a maior parte da população já encerrou as atividades.

É um trabalho que muitas vezes acontece longe dos olhos de quem vai usufruir dele algumas horas depois. O pão que chega fresco às primeiras horas da manhã começou a ser preparado durante a madrugada. O lixo deixado na calçada antes de dormir pode ser recolhido enquanto a rua ainda está silenciosa. O medicamento comprado de madrugada só está disponível porque alguém permaneceu trabalhando.

A rotina da coleta

Um dos trabalhos realizados durante a madrugada que mais interfere na rotina dos moradores é a coleta de lixo. As equipes percorrem diferentes regiões de Ribeirão Preto enquanto as ruas ainda estão vazias.

O serviço começa quando boa parte da população já está dormindo e continua por várias horas. Os coletores descem dos caminhões, recolhem os sacos deixados nas lixeiras e seguem para os próximos endereços.

A supervisora Tatiane e o coordenador de manutenção Carlos Alberto Gonçalo atentos para evitar que problemas com coleta de lixo afetem o dia da cidade (Foto: Alfredo Risk)

Supervisora operacional da Estre Ambiental, empresa responsável pela coleta de lixo em Ribeirão Preto, Tatiane Melo acompanha equipes que trabalham praticamente 24 horas por dia. O serviço é dividido em três turnos e inclui coleta domiciliar, seletiva e recolhimento em caçambas.

A rotina começa quando grande parte dos moradores já encerrou o dia. Ela acompanha o trabalho das equipes e conhece de perto a importância de manter o serviço funcionando durante a madrugada para que a cidade possa amanhecer limpa e organizada.

Gosto pela madrugada

Para muitos, trabalhar de madrugada não ocorre por opção. No caso de trabalhadores da coleta de lixo, porém, a adaptação ao turno fez com que alguns passassem a preferir o horário.

Bruno José da Silva, 29 anos, trabalha há sete anos como coletor de lixo em Ribeirão Preto. Depois de um ano no período diurno, passou a trabalhar à noite e, há seis anos, mantém a rotina durante a madrugada. Para ele, o horário noturno é mais tranquilo, com menos movimento nas ruas e temperaturas mais amenas. “Para mim é ótimo. Já acostumei”, afirma.

A jornada também mudou seus horários de sono. Bruno chega em casa após o trabalho, come alguma coisa e costuma dormir por volta das 05h00 ou 06h00, acordando entre 14h30 e 15h30. Como mora sozinho, aproveita o restante do dia para cuidar da casa, preparar as refeições e organizar suas coisas antes de voltar ao trabalho.

Mesmo aos fins de semana, mantém praticamente os mesmos horários e diz que não gostaria de retornar ao período diurno, quando precisava dormir cedo e acordar por volta das 04h00 para pegar o ônibus.

A partir da esquerda, o motorista Marcos e os coletores Juciano, Bruno e Leandro dos Santos, todos trabalhando no turno da madrugada (Foto: Alfredo Risk)

Temperatura amena

Aos 26 anos, Juciano da Silva Oliveira está há quase seis anos na coleta de lixo e diz que já se adaptou à rotina de trabalhar durante a madrugada. Para ele, o horário é melhor principalmente por causa da temperatura mais amena. Enquanto a maior parte da cidade dorme, ele começa a jornada e costuma estar em casa por volta das 4h. “À noite é melhor”, resume.

Antes de trabalhar na coleta, Juciano fazia jardinagem em Brasília (DF), em uma rotina que começava às 8h e terminava no fim da tarde. Hoje, prefere o trabalho noturno e afirma que consegue descansar normalmente durante o dia, permanecendo em casa à tarde.

Aos fins de semana, mantém a rotina de descanso e, quando pode, joga futebol. Para ele, a mudança de horário não representa dificuldade: “É normal. Tranquilo”.

Sempre preferi a noite

Marcos Teixeira de Souza, de 41 anos, trabalha há 17 anos na coleta de lixo. Começou como coletor e, depois, passou a motorista de caminhão. Durante todo esse período, manteve a rotina no turno da noite, uma escolha que, segundo ele, combina com seus hábitos. “Sempre preferi trabalhar à noite porque gosto mais de dormir durante o dia”, conta.

Acostumado à rotina invertida, Marcos diz que não estranha o fato de trabalhar enquanto a maior parte da cidade dorme. Nos dias de trabalho, busca a filha na escola às 11h00, descansa durante a tarde e sai de casa por volta das 17h00 para começar a jornada. “É uma rotina normal”, afirma.

Morador de Minas Gerais antes de se mudar para Ribeirão Preto, ele chegou à cidade em busca de trabalho e acabou permanecendo na mesma empresa até hoje. “Tudo que eu tenho é por aqui mesmo”, diz. Satisfeito com a profissão, Marcos pretende continuar trabalhando à noite até que a empresa diga que não precisa mais dele.

Agentes de trânsito estão prontos para intervir em caso de necessidade, evitando que problemas prejudiquem o fluxo de veículos durante o dia (Foto: Alfredo Risk)

Ruas com menos movimento

As ruas ficam mais vazias durante a madrugada, mas não ficam sem veículos. Motoristas continuam circulando, trabalhadores se deslocam para o emprego e veículos de emergência seguem atendendo ocorrências.

Agentes de trânsito da RP Mobi também passam a madrugada atentos. Acidentes ou outros problemas que possam prejudicar o fluxo de veículos são alvo de intervenção imediata, para que, ao amanhecer, a situação esteja resolvida e não provoque reflexos no trânsito durante o dia.

O trânsito não dorme

Souza não desgruda os olhos do sistema de monitoramento, nem do radiocomunicador: “A madrugada é o momento em que muitos estão vulneráveis e necessitam de apoio” (Foto: RP Mobi/Divulgação)

Wilson Messias de Souza, agente de trânsito da RP Mobi, trabalha no turno da madrugada desde a implantação do Centro de Controle Operacional (CCO), há cerca de dois anos. Com mais de 22 anos de atuação na área, acompanha ocorrências viárias de emergência, como derramamento de óleo na pista e acidentes envolvendo veículos e postes.

“Emergência é algo que ninguém escolhe passar. A madrugada é o momento em que muitos estão vulneráveis e necessitam de algum apoio”, afirma. Segundo Souza, a adaptação ao horário foi natural e a rotina continua depois que deixa o trabalho, às 7h.

Ao chegar em casa, ele cuida dos cachorros e, por volta das 8h, vai dormir. Acorda às 12h15, almoça e, em seguida, volta ao trabalho, desta vez como entregador em uma farmácia de manipulação, atividade que exerce há 14 anos. O segundo expediente termina por volta das 17h.

Falta da família

Motoristas de aplicativos, taxistas e outros profissionais continuam transportando passageiros. Caminhões circulam por Ribeirão Preto e pelas rodovias da região, levando mercadorias e cumprindo horários de entrega.

Há ainda trabalhadores que dependem desses serviços para chegar ao emprego. Funcionários de hospitais, policiais, seguranças e profissionais de estabelecimentos que funcionam à noite precisam se deslocar em horários nos quais o transporte disponível é menor.

Outro segmento que mantém pontos funcionando 24 horas por dia é o de postos de combustíveis. Na cidade, a maioria está instalada em avenidas de grande movimento ou de acesso às rodovias.

Carlos Eduardo, já adaptado ao turno da madrugada, admit5e que no começo foi cansativo (Foto: Arquivo Pessoal)

Em um desses locais, na zona Leste, trabalha Carlos Eduardo Alves Bastos, de 28 anos. Há um ano e meio como frentista no horário da madrugada, admite que, no início, foi bem cansativo.

Antes, era frentista no horário da tarde. Mas encontrou no turno da noite a possibilidade de aumentar a renda, não apenas com o adicional. Depois do turno da madrugada, ele vai para outra atividade remunerada.

“Trabalhar de madrugada é diferente, é um momento que poderia estar passando com a família. Passava bem mais tempo com minha filha”, lamenta. Mas é o trabalho que garante um padrão melhor de vida para sua família.

Quem cedo madruga

Motorista por aplicativo há muitos anos, depois de migrar do táxi, Henrique Gouveia começa sua jornada todos os dias às 04h00. Nas duas primeiras horas, procura ficar próximo a regiões onde funcionam bares e boates.

“Sempre tem alguém indo para casa. Seja quem estava no bar ou quem trabalha, como garçom, por exemplo. Em determinados dias, tem pessoas que até já se tornaram clientes. Depois, quando amanhece, muda o perfil”, explica.

Depois que amanhece, o perfil do passageiro é outro. São pessoas indo para o trabalho, consultas médicas ou viagens. Neste último caso, porém, Gouveia também faz muitas corridas durante a madrugada até o Aeroporto Leite Lopes, para passageiros que vão embarcar nos primeiros voos, geralmente entre 04h00 e 06h00.

Segundo o motorista por aplicativo, nunca falta passageiro durante a madrugada. Mas ele trabalha em regiões específicas para reduzir o risco de roubos. “Há anos trabalho dessa forma”, garante.

Plantão policial

Nas delegacias, policiais civis trabalham durante a madrugada no registro de ocorrências e no atendimento de pessoas que precisam procurar a polícia naquele horário. Nas ruas, policiais militares e guardas civis metropolitanos continuam realizando patrulhamento e atendendo chamados.

A investigadora aposentada Fátima Aparecida Silva trabalhou por cerca de 11 anos em escalas no Plantão Policial, incluindo madrugadas, finais de semana, feriados e datas festivas. Antes, havia atuado por aproximadamente 11 anos na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), principalmente durante o dia.

vestigadora Fátima passou não apenas noites e madrugadas distantes da família, mas também datas festivas como aniversários, Natal e Ano Novo (Foto: Arquivo Pessoal)

A adaptação ao trabalho noturno exigiu disciplina para reorganizar os horários de descanso e conciliar a rotina profissional com a família. “Enquanto a maioria das pessoas descansava, nós estávamos trabalhando para garantir a segurança e atender quem precisava da Polícia Civil”, afirma.

Segundo Fátima, cada plantão tinha uma dinâmica diferente. Havia noites tranquilas, mas também ocorrências graves e inesperadas que exigiam rapidez, atenção e equilíbrio emocional. O trabalho em datas comemorativas era um dos momentos mais difíceis, principalmente pela distância da família.

Mesmo com o cansaço e a dificuldade de dormir durante o dia, ela conseguiu se adaptar à rotina e conciliar os plantões com a vida pessoal.

Hoje aposentada e após encerrar sua gestão na presidência do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), se sente realizada, mesmo diante das dificuldades. “Foram muitos plantões, noites, madrugadas, finais de semana e datas festivas longe da família, mas também foram muitos anos de dedicação ao serviço público e à população”, conclui Fátima.

Dentro do hospital

Nos hospitais, não existe horário para o atendimento. Pacientes chegam durante a noite, procedimentos precisam ser realizados e as equipes permanecem em atividade durante toda a madrugada.

Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, recepcionistas, profissionais da limpeza, segurança e trabalhadores de diferentes setores fazem parte da estrutura necessária para manter uma unidade hospitalar funcionando.

Hospitais funcionam ininterruptamente com equipes sempre prontas para atender todo o tipo de emergência (Foto: Alfredo Risk)

Entre eles estão os profissionais das farmácias hospitalares. Os medicamentos precisam estar disponíveis para pacientes e equipes médicas independentemente do horário. Por isso, enquanto a maior parte das farmácias da cidade está fechada, a farmácia hospitalar continua funcionando.

Glauco Bezerra Gonçalves trabalha há dez anos na farmácia de um hospital particular e, há cinco, atua no período noturno, quando foi convidado para a tarefa. Antes, trabalhava durante o dia em jornada de seis horas.

Aceitou trabalhar à noite, inclusive por ter um adicional ao salário. Em uma jornada das 18h30 às 06h30, é responsável por separar as prescrições dos pacientes de acordo com os horários dos medicamentos.

Glauco (com a filha Maria Clara e a esposa Milena) trabalha na farmácia de um hospital particular durante a madrugada e é responsável por separar prescrição dos pacientes (Foto: Arquivo Pessoal)

A adaptação ao trabalho durante a madrugada aconteceu com o tempo, mas a rotina ainda interfere no sono e nos hábitos familiares. “No começo é estranho você sair para trabalhar quando todos estão dormindo. Mas depois acaba acostumando”, afirma.

Segundo Glauco, o principal desafio começa após o fim do expediente. Como precisa conciliar o descanso com tarefas domésticas e compromissos familiares, nem sempre consegue dormir durante toda a manhã. Em alguns dias, o sono é interrompido ou ocorre apenas à tarde.

“Não fico relaxado porque tenho horário para acordar, fazer o almoço ou buscar minha filha”, relata. Para ele, essa alternância torna difícil manter uma rotina regular de descanso.

A escala é de 12 horas de trabalho por 36 de descanso. Glauco tem duas folgas por mês com preferência por um fim de semana, definido antecipadamente junto à gestão da farmácia.

“Já estou adaptado ao horário, até demais, porque nas minhas férias eu costumo levar quase duas semanas pra voltar no horário normal, de dormir com a minha família normalmente”, conclui Glauco.

O mesmo ocorre nas unidades de pronto atendimento. A procura pode diminuir em determinados momentos da noite, mas o serviço permanece disponível para quem precisar.

Logística e alimentos

Em centros de distribuição, funcionários recebem, conferem e organizam mercadorias que serão encaminhadas para diferentes estabelecimentos. Parte dessas operações ocorre durante a noite para que os produtos estejam nos destinos no início ou ao longo do dia seguinte.

O mesmo acontece com os alimentos. Nas padarias, o trabalho começa horas antes da abertura. A massa precisa ser preparada, os pães são produzidos e assados e os produtos são organizados para os primeiros clientes.

Ribeirão Preto já conta com cinco academias que estão abertas durante a madrugada para treinos físicos (Foto: Alfredo Risk)

Quem compra pão logo cedo provavelmente não acompanha essa parte do processo. Quando chega à padaria, encontra o produto pronto.

Os motoristas responsáveis pelo transporte de cargas também estão nas ruas nesse período. Alguns fazem viagens longas; outros cumprem rotas de entrega ou movimentam mercadorias entre diferentes pontos.

Comércio depois da meia-noite

Ribeirão Preto também tem estabelecimentos que continuam funcionando quando boa parte do comércio já fechou. Farmácias atendem pessoas que precisam de medicamentos durante a noite. Lanchonetes recebem clientes que estão trabalhando, viajando ou circulando pela cidade. Postos de combustíveis permanecem abertos para atender motoristas.

Algumas academias também estendem o horário para atender quem prefere treinar mais tarde ou não consegue frequentar o estabelecimento durante o dia. Ribeirão Preto já tem várias academias 24 horas.

Em cada um desses locais há funcionários trabalhando, fazendo atendimento, preparando produtos, organizando o espaço e realizando tarefas que precisam ser cumpridas independentemente do horário.
Não é apenas o consumidor que está acordado. Para que um estabelecimento possa funcionar de madrugada, alguém precisa estar trabalhando.

Uma rotina diferente

Trabalhar durante a madrugada interfere diretamente na rotina pessoal. O horário de dormir muda, assim como os períodos de descanso, alimentação e convivência com familiares.

Quem trabalha à noite muitas vezes dorme durante o dia, justamente quando a casa está em movimento e a cidade funcionando normalmente.

Há profissionais que passam anos nesse tipo de escala. Outros trabalham à noite por determinado período e depois retornam a horários convencionais. As razões variam: características da profissão, escala de serviço, oportunidade de emprego ou necessidade de complementar a renda.

Enquanto amigos e familiares estão acordados, o trabalhador noturno pode estar descansando. Quando a maioria vai dormir, ele está se preparando para sair de casa.]

A CPJ, onde funciona o plantão de polícia, está com as portas abertas 24 horas por dia para atender ocorrências policiais (Foto: Alfredo Risk)

Antes das 05h00

Entre meia-noite e 05h00, Ribeirão Preto tem uma movimentação que não aparece para a maior parte da população. Não é o horário de maior circulação, nem de comércio cheio ou de avenidas congestionadas. Ainda assim, há veículos nas ruas, trabalhadores cumprindo suas funções e serviços funcionando normalmente.

O caminhão de lixo passa pelos bairros. O policial registra ocorrências. A farmácia hospitalar atende às necessidades da unidade. Frentistas permanecem nos postos. Outros trabalhadores estão em padarias, lanchonetes, centros de distribuição, hospitais e empresas.

Pouco antes do amanhecer, começam a aparecer os primeiros sinais de mudança. Trabalhadores encerram seus turnos e retornam para casa, enquanto outros começam a sair para o expediente.

As padarias abrem. O comércio começa a receber funcionários. O trânsito aumenta. Os ônibus passam a transportar mais passageiros. Para quem está começando o dia, aquela é apenas mais uma manhã. Para quem trabalhou durante a madrugada, é o fim de mais uma jornada.

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