André Luiz da Silva *
[email protected]
Tudo pronto para a grande festa anual da literatura. A 25ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (FIL 2026) tem abertura oficial hoje e segue até 5 de setembro, com um tema central inusitado e provocador: “X, Y, Z, Alpha, Beta – Gerações Literárias”.
Logo na cerimônia de lançamento,foi emocionante ver escritores quase centenários, como Camilo André Mércio Xavier e Rosa Maria de Brito Cosenza, interagindo e compartilhando experiências com representantes das outras gerações. Naquele encontro estava o verdadeiro significado da Feira: gerações diferentes reunidas em torno da palavra.
Quando Camilo e Rosa nasceram, o Brasil apresentava profundas desigualdades educacionais. Nas cidades mais ricas e capitais, os Grupos Escolares organizavam o ensino com classes estruturadas, uniformes, disciplina e métodos baseados na memorização. Em muitas regiões do interior, porém, predominavam escolas com salas multisseriadas, reunindo estudantes de diferentes idades e níveis de conhecimento sob a orientação de um único professor.
Nas décadas seguintes, novas concepções pedagógicas ganharam espaço. O Movimento da Escola Nova, fortalecido no Brasil a partir das décadas de 1920 e 1930, questionou o ensino centrado exclusivamente na memorização e na autoridade do professor. Cresceu também a luta pela democratização do acesso à educação, consolidada na Constituição de 1988, que estabeleceu a educação como direito de todos e dever do Estado e da família.
Os avanços são inegáveis, mas os desafios permanecem. Recursos públicos são indispensáveis, porém não garantem, sozinhos, qualidade. Formação e valorização dos professores, infraestrutura, gestão, políticas públicas contínuas e participação das famílias também são determinantes.
A família continua sendo o primeiro espaço de socialização e importante parceira da escola. Em algumas situações, porém, responsabilidades compartilhadas acabam transferidas quase integralmente para a escola. A descontinuidade das políticas educacionais também dificulta soluções duradouras.
Enquanto discutimos os limites para o uso das telas, ainda encontramos escolas que sequer dispõem de internet adequada. E, quando o assunto é leitura, o desafio é igualmente preocupante.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostra mudanças importantes nos hábitos de leitura. Ainda assim, uma constatação permanece: a escola é uma das principais portas de entrada para o livro e a formação de leitores.
Na realidade local das escolas públicas, encontramos professores abnegados e estudantes interessados na leitura, mas também unidades sem biblioteca ou sala de leitura, acervos fechados e espaços sem profissionais para a mediação. É uma contradição: justamente onde o livro pode transformar trajetórias, às vezes permanece inacessível.
Mais do que ensinar conteúdos, a escola precisa formar leitores capazes de interpretar o mundo. Não basta reproduzir discursos de autores, textos jornalísticos ou conteúdo das redes digitais. É necessário oferecer instrumentos para compreender, questionar, argumentar e construir ideias próprias. Um ensino limitado à reprodução de opiniões pode tornar-se terreno fértil para a manipulação. Educar é também ensinar a pensar.
É nesse ponto que o livro revela sua permanência. Em um século de profundas transformações, continuou instrumento de conhecimento, memória, imaginação e pensamento crítico. Mudaram os suportes, os hábitos e as linguagens, mas não sua capacidade de ampliar horizontes e formar cidadãos.
Por isso, a FIL 2026 representa muito mais do que uma celebração literária. Ao reunir gerações distintas, cria uma ponte entre memória e futuro, entre quem aprendeu a ler em outros tempos e quem hoje descobre o mundo em novas linguagens.
Talvez essa seja a mensagem da Feira: as gerações passam, as tecnologias se transformam e os costumes mudam. O livro permanece. E cada nova geração precisa aprender não apenas a ler o mundo, mas também a escrever a sua própria história.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

