Edwaldo Arantes *
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Estava eu absorto, entregue aos devaneios e lembranças, quando um estridente ruído estragou os sonhos, advindo de uma parafernália que infesta o mundo, codinome zape, enviando mensagens ou imagens quase sempre inoportunas.
Irritado, li uma pequenina frase:
“Estou com vontade de comer aquele macarrão com sardinha e vinho amanhã”, na realidade, spaghetti con le sarde e vino.
Um sorriso brotou-me disfarçado, mirei novamente o visor relendo, pois existem mentiras denominadas “fakes”, traduzidas em claro português e profundo respeito ao léxico e à língua pátria, falso, farsante, espúrio, impostor.
Resguardada a veracidade, iniciei a lista dos ingredientes por escrito, a idade já começa a dar sinais de confusões e tropeços. Sardine Rizzoli Emanuelli, funghi, piselli, pomodori pelati, pomodori maturi, burro italiano Latteria Soresina, cipolle, basilico e alloro, parmigiano e pasta di sêmola di grano duro.
Abri meu fiel companheiro tinto seco português, apesar das abastadas taças, praticamente não adormeci, rolando na cama tal qual “pau de enchente”, levantei-me lá pelas quatro horas.
Com os componentes depositados sobre a mesa, iniciei o preparo do molho, a pasta, “La Molisana Spaghetti”, somente minutos antes.
O relógio junto à parede pareceu-me estagnado congelando o tempo, os segundos mais lentos da minha perene existência.
Passadas as agonias, surge a notificação, esta sim, exaustivamente aguardada:
“Estou chegando”.
Tremores, suores nas mãos e têmporas, em um lampejo abro bruscamente a porta, péssimos gestos de boas-vindas justificados pela ansiedade.
Portava aqueles olhos verdinhos apertados, um meio sorriso contido, charme, cheiro e a revelação da fêmea na acepção da palavra.
Pus-me a imaginar que olhos verdes sob o acanhamento se escondem como as lagartas em seus casulos, ficando pequenos, quase imperceptíveis.
Em um lapso o mistério se fez em presença, despido de palavras, um silêncio de quem sabe que o tempo finalmente se transforma em alvorada.
A segurança retorna dissipando a timidez, duas turmalinas abrem-se desabrochando, borboletas deixando casulos.
O verde que emana do olhar supera todas as nossas florestas, inclusive o Ipê verde plantado em nossa casa, na distante infância, na praça Comendador João Alves.
Descendo pelo rosto surgem traços de fazer inveja a Michelangelo e Da Vinci, curvas perfeitas que se abrem em um sorriso, contornos de linhas geométricas exatas, charme, fascínio, formosura, mistérios, enigmas, tal qual a Esfinge: “Decifra-me ou devoro-te”.
O queixo esculpido em pedra-sabão caminha rumo a um pescoço reservado pela natureza aos cisnes imperiais, deslizando sobre lagos límpidos ao entardecer.
Ombros fortes e elegantes, guardando e protegendo duas obras de arte esculpidas como peras amadurecendo no pé, rígidas flechas apontando para o azul do céu, um par de coxas imitando Buritis sob o céu azul do sertão mineiro.
Abri o tinto seco, desta vez italiano, o batom vermelho sorvia em lentos goles, de vez em quando a língua roçava os lábios como a aproveitar cada gota do néctar de Baco.
Abri o segundo Ricciadoro Sangiovese Puglia, depositei a pasta junto à água fervente, a mesa posta com dois pratos e talheres, tudo simples, repleto de ternura.
Com os lábios rubros pelo vinho, balbuciou em voz mansa de veludo: “Vamos comer no mesmo prato”, frente a frente, olhos nos olhos”.
Veio-me a cena de um filme visto repetidas vezes ao lado da filhota Marina, em que o Vagabundo empurra a última almôndega para a Dama, começam a mastigar o mesmo fio da pasta sem notar. Os focinhos se encontram no meio resultando em um beijo tímido.
Na nossa película não houve o beijo, apenas o alumbramento, levantou-se partindo, permaneci fitando aquele filamento dividido igualmente em dois, sentindo que a vida também se fragmenta feito um efêmero fio de massa, restando apenas lembranças, tal qual a fábula retratada em uma gastronomia, marcando nossos passos com temperos forjados nos caminhos onde teimamos em continuar.
* Professor, escritor e agente cultural

