André Luiz da Silva *
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Reta final de mais uma eleição histórica. Tenho evitado discutir política com amigos e familiares. Quem já definiu o voto parece não mudar diante de fatos ou argumentos. Muitas escolhas não nascem da convicção de que um candidato ou plano seja melhor, mas do ódio ao outro. A paixão política anda mais empenhada em rejeitar do que em escolher.
Ainda assim, a política aparece, convidada ou não.
Em plena festinha de aniversário infantil, uma pessoa querida começou a atacar o atual governo, dizendo que havia quebrado o país. Após trocar dados econômicos e comparar governos, percebi que ela não reconhecia avanços e conquistas, próprios ou do país, nem recordava o passado recente. Talvez a memória também escolha candidato.
No açougue, encontrei um conhecido discursando sobre fraudes nas urnas eletrônicas. Lembrei que ele é presidente de seção eleitoral e perguntei se já praticara ou testemunhara fraude. Respondeu que não, mas achava estranha a demora na totalização dos votos para presidente no primeiro turno. Ponderei que Nunes Marques e André Mendonça, presidente e vice do TSE, foram indicados pelo presidente que ele defende. Silêncio constrangedor: ele não sabia. A conversa terminou porque a fila era enorme e todos estavam empenhados em consumir muita proteína animal. A democracia pode esperar; o açougue, nem sempre.
Outro encontro inusitado foi com uma colega da faculdade de Direito. Disse que era preciso tirar “aquele velho”. Não tive coragem de lembrá-la da própria idade. Em seguida, atacou quem vota no candidato de quem ela não gosta, chamando-o de ladrão. Perguntei se conhecia o farto material probante contra seu candidato. Desconhecia. Logo afirmou que, nas penitenciárias, todos votaram no candidato que ela combate. Perguntei se, como bacharel em Direito e aposentada do Judiciário, sabia que presos com condenação definitiva não votam no Brasil. Outro silêncio constrangedor. Às vezes, o conhecimento jurídico também parece pedir aposentadoria.
No Facebook, vi a postagem de um amigo que, como eu, prestou serviço militar obrigatório, onde aprendemos a amar o Brasil e dar a vida por ele. Ele fazia apologia à intervenção estadunidense e curtia fotos de uma passeata em que pessoas de verde e amarelo carregavam um míssil inflável com a frase, em inglês: “Trump, ataque o Brasil com armas nucleares”. Resisti à vontade de publicar o verso de Geraldo Vandré sobre “viver sem razões”. Há ironias que, diante do absurdo, perdem a graça e ganham tristeza.
Também ouvi críticas ao SUS, sistema em que trabalho desde 1990. Conheço mazelas, progressos e sua importância para o povo. Promessas mirabolantes não resolvem seus problemas. Não achei ético lembrar à pessoa que alguns familiares seus só estavam vivos graças ao Sistema Único de Saúde. Há fatos que não precisam ser usados como argumento — embora às vezes mereçam ser lembrados.
Fechando a semana, um amigo querido reclamou da economia, depois de mostrar fotos da última viagem à Europa, contar que se mudou para um condomínio melhor e adquiriu um veículo que custa o preço de uma moradia popular. Preferi um abraço e votos sinceros de felicidade. Nem toda conversa precisa terminar em debate; algumas amizades merecem mais que uma planilha.
Passei apenas para desejar um ótimo final de semana e reiterar meu respeito a todas as opiniões, inclusive àquelas das quais divirjo frontalmente. A democracia não exige que pensemos igual, mas que convivamos com as diferenças. Talvez o desafio desta eleição seja menos escolher um presidente e mais reaprender a conversar com quem escolheu outro. E isso, convenhamos, tem se mostrado tarefa mais difícil do que apertar uma tecla na urna.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

