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Fim da escala 6×1

O desafio da implementação aos supermercados e garantia de abastecimento

Erlon Godoy Ortega *
@erlongodoyortega

A discussão sobre o fim da escala 6×1 envolve uma questão que vai além da jornada de trabalho: como garantir melhores condições para os trabalhadores sem comprometer a continuidade de serviços essenciais à população? Com a aprovação da mudança, esse debate entra em uma nova etapa. O desafio, agora, é encontrar caminhos para que sua implementação considere a realidade de cada setor, preserve empregos e mantenha a qualidade do atendimento.

No setor supermercadista, essa equação é especialmente complexa. Os supermercados funcionam sete dias por semana e têm a responsabilidade diária de garantir o abastecimento de milhões de famílias. Para isso, precisam manter equipes em diferentes áreas e horários, desde a reposição de mercadorias e a operação dos caixas até os setores de açougue, padaria e hortifrúti. Organizar as escalas nesse contexto exige planejamento e mão de obra disponível.

A dificuldade de contratação, porém, já é uma realidade. Em todo o Estado de São Paulo, o setor enfrenta cerca de 35 mil vagas em aberto. Na região de Ribeirão Preto, são 2.719 postos disponíveis. Ao mesmo tempo, o segmento mantém uma contribuição importante para a economia regional: são 52.213 trabalhadores formais e 2.467 estabelecimentos distribuídos por 81 municípios. Entre janeiro e julho de 2026, foram criados 407 novos postos de trabalho na região, dos quais 336 somente em julho.

Esses números mostram um setor que segue gerando oportunidades, mas que precisa superar desafios para preencher suas vagas e manter as operações. A projeção de crescimento de 2,4% para 2026 na região reforça a importância de construir condições para que essa atividade continue se desenvolvendo.

A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, também exige atenção aos efeitos sobre a organização das equipes. Nesse cenário, a estimativa da APAS é de um aumento de, no mínimo, 15% na folha de pagamento, considerando a necessidade de manter o volume de horas trabalhadas e o nível de serviço. Trata-se de uma projeção, cujo impacto efetivo depende das características de cada operação. Os pequenos e médios supermercados, que têm menor capacidade de absorver custos adicionais, podem enfrentar dificuldades ainda maiores.

É importante olhar para esse cenário sem presumir que a mudança levará necessariamente a aumentos de preços, redução de horários ou perda de empregos. O que precisamos é antecipar os desafios, discutir alternativas e criar condições para que as novas regras sejam aplicadas de forma sustentável. Afinal, o consumidor também precisa estar no centro dessa discussão: o abastecimento e a qualidade do atendimento devem continuar garantidos.

Nesse sentido, acreditamos que é possível avançar na busca por modelos de organização do trabalho mais flexíveis, que considerem tanto as necessidades dos profissionais quanto as particularidades das empresas. Uma das alternativas que defendemos é a possibilidade de contratação por hora, como complemento aos modelos existentes, com garantia dos direitos trabalhistas previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A proposta busca ampliar as possibilidades de composição das equipes e dar mais flexibilidade à organização das escalas. O objetivo é encontrar caminhos para viabilizar a nova jornada sem pressionar ainda mais os custos operacionais e, principalmente, evitar que esses custos sejam repassados ao consumidor, alterando o preço dos produtos no carrinho de compras. Uma medida não exclui a outra: a nova jornada e as alternativas para complementar as escalas precisam ser conciliadas na prática.

O futuro do trabalho precisa considerar as transformações no perfil dos profissionais, principalmente os jovens, que buscam conciliar emprego, estudos, família e outros projetos pessoais. Mais flexibilidade, com proteção e responsabilidade, pode contribuir para aproximar as necessidades dos trabalhadores das oportunidades oferecidas pelo setor formal. Essa discussão deve ocorrer com diálogo entre empresas, trabalhadores e poder público, respeitando os direitos e buscando soluções viáveis.

O setor supermercadista não pretende interromper sua trajetória de geração de empregos, investimentos e atendimento à sociedade. Queremos contribuir para que a mudança seja implementada de maneira responsável, conciliando qualidade de vida, manutenção dos postos de trabalho, sustentabilidade dos negócios e serviço ao consumidor.

A aprovação da nova jornada marca uma etapa importante, mas sua implementação exige atenção às diferentes realidades do País. Em regiões como Ribeirão Preto, onde os supermercados têm presença expressiva e seguem gerando empregos, encontrar soluções viáveis será fundamental para que trabalhadores, empresas e consumidores avancem juntos.

O objetivo deve ser claro: melhorar as condições de trabalho sem colocar em risco aquilo que a população precisa todos os dias — supermercados funcionando, equipes preparadas e abastecimento garantido.

* Presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas)

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