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A dura luta contra o tabagismo

No Brasil, o INCA relaciona o cigarro e seus derivados a 50 doenças, entre elas, vários tipos de câncer | Reprodução

Por: Adalberto Luque

 

Experimentar um cigarro pode parecer inofensivo, mas a nicotina causa forte dependência. O consumo repetido pode transformar a experiência em hábito difícil de abandonar. Os danos atingem vários órgãos e quem respira a fumaça sem fumar.

O tabagismo é uma doença crônica e uma das principais causas evitáveis de adoecimento e morte prematura. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco provoca mais de 7 milhões de mortes por ano no mundo, inclusive pelo fumo passivo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) relaciona os produtos derivados do tabaco a cerca de 50 doenças.

Começo

A iniciação costuma ocorrer na adolescência, por curiosidade, influência dos amigos, convivência com fumantes ou busca por aceitação. A ideia de que fumar relaxa também pode estimular o primeiro contato.

A nicotina chega rapidamente ao cérebro e interfere nos mecanismos de recompensa e prazer. Com o uso contínuo, o organismo se adapta e passa a exigir novas doses. O cigarro também se associa a rotinas, como tomar café, fazer pausas ou enfrentar tensão, e pode despertar a vontade mesmo após a decisão de parar.

Charutos, cigarrilhas, cachimbos, cigarros de palha, narguilés e cigarros eletrônicos também expõem o organismo a substâncias nocivas. Muitos vapes contêm nicotina e seus aerossóis podem apresentar compostos prejudiciais.

Doenças

A fumaça contém milhares de compostos químicos, incluindo substâncias tóxicas e cancerígenas que alcançam os pulmões e a circulação.

O tabagismo está relacionado à doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), que inclui bronquite crônica e enfisema. Essas condições comprometem a respiração e podem provocar tosse persistente, secreção e falta de ar.

O cigarro favorece a aterosclerose, acúmulo de placas nas artérias que eleva o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Também está associado a problemas de fertilidade, osteoporose e infecções respiratórias. Na gravidez, aumenta o risco de parto prematuro e baixo peso ao nascer. Não existe consumo seguro de tabaco.

Câncer

O câncer de pulmão é uma das doenças mais associadas ao tabagismo. Segundo o INCA, produtos derivados do tabaco estão relacionados a cerca de 90% das mortes por esse tumor. As substâncias cancerígenas da fumaça também podem danificar as células e contribuir para tumores em outros órgãos.

Também há associação com cânceres de boca, faringe, laringe, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rim, bexiga, colo do útero, cólon e reto, além de leucemia mieloide aguda. Tabaco e álcool juntos ampliam o risco de alguns desses tumores. Parar de fumar reduz os riscos, inclusive para quem já adoeceu.

Abstinência

A dependência física da nicotina e os hábitos associados ao cigarro dificultam a interrupção. A abstinência pode provocar irritabilidade, ansiedade, inquietação, dificuldade de concentração, alterações no sono, aumento do apetite e vontade intensa de fumar.

Os sintomas podem começar poucas horas após o último cigarro e ser mais fortes nos primeiros dias. A vontade pode voltar em situações de estresse ou encontros sociais. Recaídas podem ocorrer; identificar gatilhos, mudar rotinas e buscar acompanhamento ajuda.

Tratamento

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo. As unidades básicas de saúde (UBSs) podem informar como acessar o serviço no município.

A assistência avalia a dependência e pode incluir consultas ou grupos. Conforme o caso, profissionais podem indicar reposição de nicotina, por adesivos ou formas de uso oral, e medicamentos como a bupropiona. A escolha considera as condições de saúde e contraindicações. Esses recursos não devem ser usados por conta própria e podem ser associados ao acompanhamento comportamental.

A interrupção pode ser imediata ou gradual, com um plano e ajuda profissional quando necessário. Familiares e amigos podem apoiar sem cobranças ou julgamentos.

Fumo passivo

O fumo passivo ocorre quando alguém respira a fumaça da queima de cigarros e outros produtos de tabaco, em casa, no carro, no trabalho ou em outros ambientes compartilhados.

Segundo o INCA, essa exposição aumenta o risco de doenças cardiovasculares, câncer de pulmão e problemas respiratórios. Crianças expostas têm maior risco de infecções respiratórias, otites e crises de asma. Na gravidez, a fumaça também pode prejudicar a saúde materna e o desenvolvimento do bebê.

Até a formação dos dentes pode ser afetada. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, identificaram alterações no esmalte de filhotes de ratos expostos à fumaça nos primeiros dias de vida. O estudo, divulgado pela Agência FAPESP e publicado na revista Calcified Tissue International, apontou redução de fósforo e aumento de carbono.

O fósforo contribui para a dureza dos dentes. Não houve diferenças importantes na aparência a olho nu nem redução da dureza inicial do esmalte. Os resultados não comprovam o mesmo efeito em seres humanos; são necessárias novas pesquisas.

Não há nível seguro de exposição à fumaça do tabaco. Abrir janelas, usar ventiladores ou fumar em outro cômodo não elimina os riscos em ambientes fechados. A principal proteção é manter casas e veículos livres do tabaco.

Parar de fumar beneficia o fumante e quem convive com ele. Mesmo após anos de consumo, parar ajuda a reduzir riscos, com apoio profissional.

Resultados expressivos em Ribeirão Preto

A Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto tratou 543 pacientes em grupos de combate ao tabagismo em 2025. Desse total, 284 pararam de fumar durante o primeiro mês de acompanhamento, o equivalente a 52,3% dos participantes. Segundo os dados da pasta, o índice de sucesso a curto prazo ficou acima da média nacional.

No primeiro quadrimestre de 2026, outros 146 pacientes passaram pelo tratamento. Ainda não há dados consolidados sobre quantos conseguiram abandonar o cigarro nesse período.

Secretaria Municipal de Saúde de RP informou que o índice de sucesso a curto prazo no tratamento para deixar o tabagismo foi de 52,3%, acima da média nacional | Imagem gerada por IA

A abordagem começa nas unidades de saúde, onde os profissionais identificam os fumantes, avaliam o grau de dependência e verificam se há interesse em parar de fumar. Quem deseja abandonar o vício pode procurar diretamente uma das unidades que oferecem grupos de tratamento, sem necessidade de encaminhamento médico. Após a inscrição, o paciente entra em uma fila de espera.

O programa combina acompanhamento cognitivo, comportamental e medicamentoso para tratar os aspectos químicos, psicológicos e comportamentais da dependência. No primeiro mês, são realizados quatro encontros semanais. Depois, o acompanhamento continua com reuniões mensais durante um ano.

Onde buscar ajuda

Em Ribeirão Preto, o atendimento é oferecido em unidades de referência, com horários específicos para os grupos e para as inscrições.

– Ambulatório de Tabagismo do CSE Sumarezinho (Cuiabá):

Atendimento às terças-feiras, das 14h às 17h. Para se inscrever, é necessário procurar pessoalmente a equipe de enfermagem na sala 30.

– Ambulatório de Tabagismo do NGA-59:

Atendimento às quartas-feiras, das 8h às 12h. O agendamento deve ser feito presencialmente no balcão da Pneumologia, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.

– CEREST:

Atendimento às quartas-feiras, das 13h às 16h. As inscrições são realizadas pessoalmente na recepção, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.

– CAPS II Centro Sul Prof. Dr. Claudio Roberto Carvalho Rodrigues:

Atendimento às quartas-feiras, das 14h às 15h30. Para se inscrever, basta procurar a recepção, de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. A unidade fica na rua Paulo de Frontim, 1.850, Vila Guiomar.

– CRE – Central:

As inscrições devem ser feitas presencialmente na recepção, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. O atendimento é destinado aos usuários cadastrados na área de abrangência das seguintes unidades de saúde:

  • USF Cesar Augusto Arita – Jardim Paulo Gomes Romeo;
  • USF Enfª. Maria Teresa Romao Pratali – Núcleo 2;
  • USF Ernesto Che Guevara – Maria Casagrande;
  • USF Dr. Gilson de Cassia Marques de Carvalho – Núcleo 6;
  • USF Dr. Vinicio Plastino – Jardim Marchesi;
  • USF José Paulo Pimenta de Mello – Jardim Zara;
  • USF Profª. Drª. Vera Heloisa Pileggi Vinha – Núcleo 5;
  • UBS Dr. Álvaro de Oliveira Paiva – Jardim Paiva.

Amenizou a tristeza

A gráfica aposentada Dagmar Borges tinha 17 anos quando fumou pela primeira vez, em 1966. Casou-se aos 16 e ficou viúva apenas 17 dias após o nascimento da primeira filha. A perda do marido abalou seu emocional, e ela vivia chorando.

“Uma vez vi um homem fumando e pedi um cigarro. Ele me deu. Acendi e, por alguns instantes, esqueci a tristeza. A cada novo cigarro, menos eu chorava. E assim comecei”, lembra Dagmar.

A partir daí, o cigarro passou a fazer parte de sua vida e a causar problemas, além de tornar cada vez mais difícil abandonar o vício. Ela tentou parar algumas vezes, mas não conseguiu.

Dagmar descobriu que o cigarro diminuía sua tristeza por ter ficado viúva, mas rendeu cinco úlceras, um infarto e só parou quando foi detectada uma lesão pré-cancerígena | Foto: Arquivo Pessoal

Durante os quase 50 anos em que esteve presa ao tabaco, Dagmar enfrentou diversos problemas de saúde relacionados ao fumo. “Tive cinco úlceras, uma no estômago e quatro no duodeno. Vivia tomando leite gelado durante o dia para aliviar”, conta.

Sem conseguir abandonar o cigarro, os problemas se acumulavam. Até que, em julho de 2013, durante uma despedida de sua neta, que estava de partida para estudar na Argentina, ela passou muito mal.

“Família e amigos estávamos reunidos numa lanchonete. Desde antes eu não estava me sentindo bem. Cheguei a ficar quase duas horas no local, mas saí e fui para o hospital. Quando cheguei, estava infartando”, recorda Dagmar.

Ela foi direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital de seu convênio, onde permaneceu sob monitoramento por uma semana. Apesar da restrição a visitas, os médicos abriram uma exceção para a neta, que foi dar um beijo na avó antes de seguir para o aeroporto.

No ano seguinte, Dagmar descobriu uma lesão pré-cancerígena na garganta, após procurar atendimento por causa de alterações na voz, que ficava mais grave ao longo do dia. O médico recomendou uma cirurgia, mas os exames pré-operatórios indicaram que a anestesia poderia provocar outro infarto. Diante do risco, ela foi orientada a parar de fumar, pois havia a possibilidade de a lesão desaparecer. A informação também encontrada na internet a motivou a lutar contra a dependência.

Desde 2014, Dagmar não fuma mais. Foram 48 anos de dependência do tabaco. O período deixou algumas marcas, como falta de ar em determinados momentos do dia. Apesar disso, ela comemora a decisão de abandonar o cigarro e vive feliz por ter conseguido superar o vício.

Três gerações de fumantes

A dona de casa Angelica Simões nunca fumou, mas conviveu com o tabagismo durante toda a vida. Filha de um homem que fumou até ser internado, ela também viveu por anos com o marido fumante e acompanhou o filho adquirir o mesmo hábito. Apesar da exposição prolongada à fumaça, afirma que o cheiro do cigarro não a incomoda, exceto em ambientes totalmente fechados.

O pai desenvolveu câncer, doença que provocou sua morte. Angelica também se recorda de que ele tossia frequentemente, tinha pigarros e era nervoso. Para ela, o cigarro contribuiu para os problemas de saúde.

O marido já fumava quando se conheceram e mantinha o hábito dentro de casa, inclusive perto dos filhos, apesar dos pedidos para que evitasse expor as crianças à fumaça. A mudança veio espontaneamente, há cerca de oito anos, quando ele decidiu abandonar o cigarro sem medicamentos ou acompanhamento médico. Ao contrário do que ela imaginava, não apresentou crises de ansiedade nem ficou excessivamente nervoso.

“A qualidade de vida foi melhor, ficou melhor”, afirma Angelica, que percebe o marido mais tranquilo desde que deixou o tabagismo.

Fumante passiva, Angelica conviveu com o cigarro de seu pai durante a infância e juventude, do marido por vários anos e, quando este parou, passou a conviver com o filho | Foto: Arquivo Pessoal

Um dos filhos, porém, seguiu o caminho oposto. Ela acredita que ele possa ter começado a fumar por influência do pai, a quem admirava. Quando descobriu o hábito, o filho já estava dependente. Apesar das conversas desde a infância sobre os prejuízos do cigarro, não conseguiu convencê-lo a parar.

Angelica proibiu o consumo dentro de casa. O filho, que atualmente não mora com ela, respeita a regra quando a visita e fuma do lado de fora. A esperança é que também consiga abandonar o vício, como fez o pai.

A dona de casa recorda que, na década de 1970, fumar era um comportamento socialmente aceito, inclusive em ambientes fechados. Com o avanço das restrições, os espaços para fumantes diminuíram. Ela relata que já precisou esperar do lado de fora de restaurantes ou enfrentar o frio por estar acompanhada de um fumante.

Embora diga estar acostumada ao cheiro, reconhece o desconforto de respirar a fumaça e as limitações impostas pela convivência com quem fuma. Nunca teve vontade de experimentar o cigarro e afirma que não pretende fazê-lo.

Do fumo eventual ao hábito diário

A gerente de negócios Carla Regina dos Reis demorou a se reconhecer como fumante. Há cerca de 20 anos, o cigarro fazia parte apenas de ocasiões específicas, como festas e encontros com amigos, principalmente quando consumia bebidas alcoólicas. Com o passar do tempo, porém, o que era eventual se tornou cada vez mais frequente, até fazer parte de sua rotina diária.

Durante vários anos, o cigarro foi uma “distração” eventual na vida de Carla, que hoje consome um maço por dia e sonha em parar | Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Carla admite que é fumante e consome aproximadamente um maço de cigarros a cada 24 horas. A mudança de comportamento ocorreu gradualmente, com períodos em que conseguia parar de fumar, mas acabava retomando o hábito pouco a pouco, até aumentar novamente a frequência.

Apesar de nunca ter apresentado complicações de saúde que atribua ao cigarro, ela reconhece a necessidade de abandonar o tabagismo e afirma que pensa constantemente em parar. Já comprou chicletes de nicotina para auxiliar nesse processo e considera recorrer também aos adesivos, na tentativa de conseguir deixar o cigarro o quanto antes.

Para Carla, entretanto, abandonar o hábito não significa apenas interromper o consumo de nicotina. O cigarro também está associado à sensação de tranquilidade e a momentos específicos do dia, nos quais a vontade de fumar se manifesta. “O cigarro me transmite uma tranquilidade, é como se fosse uma muleta e é um hábito também”, afirma.

Ela explica que existem horários em que sente necessidade de fumar, o que evidencia como o cigarro passou a ocupar espaço em sua rotina. A experiência de Carla mostra como um consumo inicialmente esporádico pode aumentar gradualmente, até que a própria pessoa passe a se reconhecer como fumante e considere necessário buscar alternativas para abandonar a dependência.

Mais da metade da vida fumando

Aos 34 anos, o jornalista e guitarrista Renato Luque fuma há duas décadas. “Mais da metade da minha vida, loucura, né?”, indaga. O hábito começou na juventude, influenciado pela convivência com amigos mais velhos e pela aparência que atribuía ao cigarro. Primeiro, experimentou os cigarros de sabor, até passar aos convencionais.

Há cerca de oito anos, tentou parar. Conseguiu reduzir o consumo e ficar alguns dias sem fumar, mas voltou ao hábito. “A vontade às vezes acaba vencendo a gente”, admite. Hoje, diz ter dificuldade para imaginar a rotina sem o cigarro.

O guitarrista e jornalista Renato associa o cigarro a vários momentos de seu dia-a-dia e para acompanhar os jogos do Santos, seu time de coração | Foto: Arquivo Pessoal

O consumo está associado a diferentes situações do cotidiano. Café, refeições e cerveja costumam ser acompanhados por um cigarro. O estresse profissional, a ansiedade e os momentos em que fica sozinho também despertam a vontade de fumar. Até depois de praticar exercícios físicos, quando costumava correr, o ritual incluía banho, café e cigarro.

Renato afirma nunca ter enfrentado um problema grave de saúde que atribuísse diretamente ao tabagismo. No entanto, reconhece que demora mais para se recuperar de gripes e resfriados, além de conviver com tosse e rouquidão.

Durante boa parte desses 20 anos, manteve o consumo em torno de meio maço por dia. Com as dificuldades pessoais recentes, incluindo o divórcio, passou a fumar aproximadamente um maço diário, o dobro da quantidade habitual.

Na apuração das eleições presidenciais fumou bastante. Nos jogos do Santos, seu time do coração, também não economiza. Tudo na busca pela calma. “São várias situações que estão enraizadas, que trazem a vontade de fumar um cigarro.”

Ele reconhece os riscos do aumento e sabe que o cigarro pode trazer consequências à saúde, mas admite que, neste momento, não consegue reduzir o consumo. Embora já tenha tentado controlar o hábito, ainda não conseguiu abandoná-lo.

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