Senador acusa, sem provas, o Supremo Tribunal Federal (STF), em conluio com o PT, de ter promovido uma fraude eleitoral
Naomi Matsui (AE)
O candidato à Presidência da República derrotado Flávio Bolsonaro (PL) divulgou nesta quarta-feira, 28 de outubro, uma carta em se autoproclama o “presidente eleito do Brasil”. A declaração foi compartilhada pelo influenciador digital Paulo Figueiredo.
A reportagem entrou em contato com a assessoria de Flávio e com seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL), mas não obteve resposta sobre a veracidade do documento, cuja postagem foi apagada logo após a publicação.
Flávio desembarcou na manhã de ontem em Miami, na Flórida, Estados Unidos, com a esposa Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as filhas Carolina Figueira Bolsonaro e Luiza Figueira Bolsonaro.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, diz o documento na abertura. Em sua primeira versão divulgada, a carta trazia um brasão escrito “Estados Unidos do Brazil”, nome adotado após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Depois, Figueiredo enviou outra versão, com o brasão que dizia “República Federativa do Brasil”, nome atual do Brasil.
Flávio acusa, sem provas, o Supremo Tribunal Federal (STF), em conluio com o PT, de ter promovido uma fraude eleitoral, sob o argumento de que a votação continuou mesmo com parte das urnas lacradas.
“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, disse.
Ele não cita, porém, que sua campanha também entrou com um pedido para prorrogar o horário de votação em 17 cidades, alegando que chuvas teriam atrapalhado o deslocamento de eleitores.
Flávio se descreve como perseguido político e vítima de uma caça às bruxas e comenta o fato de ter fugido do Brasil. “Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime”.
O candidato do PL se compara a nomes como Rui Barbosa, Charles de Gaulle, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado e diz que liderará a oposição dos Estados Unidos.
“Liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr … Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil”, continuou.
Ele ainda agradece aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump, pela ajuda – Flávio se deslocou para a Argentina para, de lá, partir para solo norte-americano. O senador também se referiu a Rogério Marinho (PL-RN) como seu “candidato à Presidência do Senado”.
No domingo (25), Flávio Bolsonaro afirmou ser impossível reconhecer o resultado do segundo turno e que pediria anulação do pleito. No dia seguinte, após conversa com sua equipe jurídica, no entanto, sua campanha afirmou que ele havia desistido de sustentar essa tese. Na terça-feira (27), Flávio fugiu do país, apesar da intimação da Polícia Federal para que não deixasse o Brasil.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito ao derrotar o senador no segundo turno da eleição presidencial por numa diferença de 4.430.191 votos. O petista teve 64.256.232 votos, ou seja, 51,79% dos válidos, enquanto o fugitivo teve 59.826.041 votos, 48,21%.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF pelo pai de Flávio, o ex-presidente condenado Jair Bolsonaro (PL), foram registrados 34.393 votos após as 17 horas no segundo turno das eleições. Lula venceu por uma diferença de votos superior a quatro milhões.
TSE – O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, declarou nesta quarta-feira que as eleições deste ano transcorreram dentro da normalidade. A manifestação do ministro foi divulgada após Flávio Bolsonaro divulgar uma carta na qual diz que o pleito foi “fraudado”.
“Com empenho de servidores públicos de todo o país, dos mesários, das forças de segurança e dos demais atores envolvidos, as Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”, afirmou o presidente do TSE.
A situação ganha um novo contorno com a proximidade do fim de seu mandato, em 31 de janeiro de 2027, quando Flávio ficará sem cargo eletivo pela primeira vez em 24 anos e perderá as prerrogativas parlamentares. Uma das investigações já levou à imposição de medidas cautelares contra o senador.
A investigação sobre lavagem de dinheiro teve origem em uma apuração da Polícia Federal sobre plataformas de apostas e pagamentos digitais e envolve o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, também investigado por suspeita de irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Os recursos destinados à produção foram negociados pelo senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O inquérito, relatado pelo ministro André Mendonça, apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas aos repasses para a produção. Flávio nega os crimes.

