O Dia do Cliente será celebrado nesta terça-feira (15) em um cenário de orçamento apertado, crédito caro e elevado nível de inadimplência. A data, incorporada ao calendário comercial brasileiro em 2003, costuma ser marcada por descontos, condições especiais de pagamento e ações de relacionamento entre empresas e consumidores.
Os números, no entanto, recomendam cautela. Dados do Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas chegou a 29,3% em março de 2026, próximo do maior patamar da série histórica, de 29,6%.
O indicador estima quanto da renda mensal é destinada ao pagamento de parcelas e juros. Ele não deve ser confundido com o endividamento das famílias, que considera o saldo das dívidas em relação à renda acumulada em 12 meses e alcançou 49,8%.
A inadimplência é outro indicador. Ela ocorre quando as contas deixam de ser pagas no prazo. Segundo levantamento da Serasa, o país chegou a 83,9 milhões de consumidores inadimplentes em julho, o maior número da série da instituição. As dívidas em atraso somavam aproximadamente R$ 586 bilhões.
A professora de Economia Daniela Monteiro explica que o pagamento de compromissos anteriores reduz o dinheiro disponível para despesas essenciais e novas compras. “Ao subtrair o custo com juros e parcelas anteriores, resta uma margem financeira reduzida para despesas essenciais e compras do dia a dia”, afirma.
O quadro é agravado pelo custo do crédito. A taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano. Embora ela não seja a taxa cobrada diretamente dos consumidores, influencia os juros de empréstimos, financiamentos e outras operações bancárias.
A inflação oficial acumulada em 12 meses até julho ficou em 4,44%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta dos preços também limita o poder de compra, mesmo quando o consumidor não possui contas em atraso.
Parcelas escondem o custo total
A multiplicação das formas de pagamento ampliou o acesso ao consumo, mas também exige atenção. Cartão de crédito, crediário digital e modalidades de parcelamento podem diluir o preço em prestações menores, criando a impressão de que a compra terá pouco impacto no orçamento.
O problema surge quando diferentes parcelas se acumulam. Antes de contratar uma compra a prazo, a recomendação é somar os compromissos já assumidos e verificar quanto restará da renda para moradia, alimentação, transporte, saúde e outras despesas essenciais.
Também é necessário comparar o preço à vista com o valor total financiado. Uma parcela aparentemente pequena pode esconder juros e elevar de maneira significativa o custo final do produto.
Experiência também pesa na escolha
Preço e condições de pagamento não são os únicos fatores considerados pelos consumidores. Atendimento, confiança, solução de problemas e qualidade da experiência também influenciam a decisão de retornar a um estabelecimento.
Uma pesquisa da consultoria Galunion, divulgada em agosto de 2025, apontou que 46% dos entrevistados consideravam uma experiência amigável e de qualidade uma das principais razões para consumir comida fora de casa. O encontro com amigos e familiares foi mencionado por aproximadamente metade dos participantes.
No setor de restaurantes, o crescimento do delivery aumentou a importância da experiência presencial. Ambiente, atendimento e hospitalidade passaram a diferenciar o estabelecimento da refeição entregue em casa.
A fidelização, porém, não depende apenas de programas de pontos ou descontos. Uma promoção pode estimular uma compra, mas a continuidade da relação está ligada ao cumprimento da oferta, à transparência e à capacidade de resolver eventuais problemas.
Para o consumidor, a orientação é aproveitar as promoções sem perder de vista a necessidade real da compra, o preço total e o impacto das parcelas futuras. Para as empresas, o Dia do Cliente também serve como teste de qualidade do atendimento e de respeito aos direitos de quem compra.

