O álbum da Copa do Mundo continua sendo um dos fenômenos culturais mais fortes do Brasil. Ele mobiliza crianças, jovens e adultos, cria encontros presenciais e mantém viva uma tradição rara em tempos de relações cada vez mais digitais. As trocas de figurinhas seguem funcionando como espaços espontâneos de convivência, conversa e interação social. Em um cenário marcado por isolamento, excesso de telas e dificuldades de socialização, especialmente entre crianças e adolescentes, o álbum ainda consegue produzir algo valioso: conexão humana real.
Mas a edição de 2026 também escancara outra realidade, a transformação da paixão popular em um mercado extremamente lucrativo e cada vez menos acessível. O álbum oficial possui 980 figurinhas e pacotes vendidos a cerca de R$ 7. Na prática, completar a coleção pode custar milhares de reais por causa das repetidas, segundo estimativas matemáticas divulgadas por especialistas e veículos do setor. O que antes era uma brincadeira relativamente simples passou a representar um consumo pesado para muitas famílias brasileiras, justamente em um período de inflação persistente, crédito caro e aumento do endividamento da população.
A lógica comercial do álbum explora mecanismos conhecidos do comportamento humano: raridade, repetição, recompensa emocional e desejo de completar coleções. É uma dinâmica semelhante à utilizada em jogos digitais, loot boxes e plataformas de engajamento contínuo. A diferença é que agora ela está incorporada a uma tradição afetiva ligada ao futebol e à infância. O resultado é um consumo emocionalmente impulsionado, onde o limite entre entretenimento e exploração comercial se torna cada vez mais tênue.
Ao mesmo tempo, o crescimento da febre das figurinhas trouxe também uma explosão de problemas para consumidores. Dados do Procon-SP apontam aumento de 220% nas reclamações relacionadas ao álbum da Copa entre abril e maio. Cresceram os casos de golpes em redes sociais, anúncios falsos, vendas enganosas, produtos não entregues e comercialização de itens sem garantia de procedência. O ambiente digital ampliou o acesso aos colecionáveis, mas também reduziu a fiscalização e abriu espaço para práticas oportunistas que se aproveitam da empolgação dos consumidores.
O álbum da Copa segue sendo símbolo de memória afetiva, pertencimento e convivência coletiva. Mas também se tornou reflexo das contradições contemporâneas: uma experiência capaz de aproximar pessoas enquanto alimenta um mercado altamente agressivo, caro e vulnerável a fraudes. A paixão pelo futebol continua mobilizando multidões. A diferença é que, hoje, ela movimenta também uma engrenagem comercial que transforma nostalgia, emoção e pertencimento em produtos de alto valor e risco crescente para o consumidor.

