Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Jane era dona de casa, gostava de fazer compras e apertar botões. George era o marido, tinha um emprego de apertar botões e vivia estressado, com medo de ser mandado embora. Judy era a filha adolescente: seguia a moda, paquerava e se interessava por celebridades. Elroy era o caçula, inteligente e educado. Rosie era a robô-empregada: limpava, passava e cozinhava, apertando botões. Ah, não podia faltar um cachorro, o Astro. Todos praticamente não precisavam mover as pernas, porque as esteiras rolantes estavam por toda parte. Das esteiras, saltavam direto para os carros voadores. A casa era toda informatizada e a televisão era enorme, plana. As chamadas de vídeo faziam parte do dia a dia e podiam ser feitas em tablets ou relógios de pulso.
Em resumo: os Jetsons foram um spoiler da nossa época. Criado em 1962, o desenho representa uma família em 2062. Impressiona a similaridade com o que vivenciamos no primeiro quarto do século proposto pelos criadores do desenho animado, William Hanna e Joseph Barbera. Já estavam ali o estresse pela escassez de trabalho, a dependência das máquinas, o excesso de telas e câmeras. No entanto, era difícil prever que as modificações seriam tão rápidas.
Da família Doriana dos anos 1980 saltamos para pais e filhos fazendo as refeições sem desgrudar do celular.As filas nos bancos, substituídas por aplicativos, não deixaram saudades. Estudos e trabalhos corporativos podem ser feitos via internet. Filmes, séries e shows são facilmente acessados. Consultas médicas virtuais viraram rotina, enquanto crescem as intervenções feitas por robôs cirúrgicos. Documentos oficiais são gerados por aplicativos, que confirmam, reconfirmam, enviam código no celular, outro código via correio eletrônico, foto, imagem desfocada não reconhecida, fazer novo procedimento bipbipbip.
Vantagens há em muitos aspectos, mas o excesso tem gerado esgotamento físico e mental. Como reação, surgem movimentos que pregam a desconexão digital. Em Amsterdã, amigos deram início ao Offline Club, que recolhe o celular das pessoas no início do evento. As reuniões acontecem em bares, restaurantes, bibliotecas e têm formato democrático: cada um leva o seu livro, ou o seu desenho, ou o tricô, o crochê etc. A primeira hora é dedicada ao silêncio, para que cada um curta a atividade que escolheu. Na próxima 1h30 fica livre a conversa entre os participantes.
Para surpresa dos criadores, o número de participantes cresce a cada encontro e a experiência se espalhou para Paris, Berlim, Londres, Madri, Estocolmo, Zurique, Viena, Copenhague, Milão, Lisboa. Na esteira desse movimento, pessoas têm saído das conexões digitais e voltado para a vida social, essa em que as pessoas se olham nos olhos e compartilham dificuldades e ternuras.
Felizmente em São Paulo já há grupos atuando nessa proposta. Com a criatividade brasileira, é possível expandir os encontros para além dos clubes de leitura, e adotar música, jogos de tabuleiro, jogos de carta, danças, histórias vividas, piadas, viagens, receitas, autorias, produções literárias, qualquer motivação que agregue as pessoas. Dá para ir até onde a criatividade alcançar, inclusive aproveitando nosso sol e promovendo atividades ao ar livre em parques, praças, jardins.
Essa iniciativa precisa se expandir o mais rapidamente possível, antes que a atenção fragmentada, o isolamento social e o vício digital se estabeleçam em definitivo. Pesquisas mostram que os brasileiros passam mais tempo on-line do que dormindo. Portanto, o principal é fazer as pessoas perceberem que há muita vida fora das telas.Tenho a impressão de que é mais eficiente desenvolver atividades nas quais haja interação entre as pessoas, do que realizar palestras explicando por que o mundo digital é prejudicial. Aliás, não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de utilizá-la como benefício, e não como malefício. Como em outros tópicos da vida, equilíbrio é a medida certa.
Curiosidade: o excesso de automação dos Jetsons mostrava problemas quando o sistema simplesmente parava de funcionar. Além disso, tal como hoje, os personagens quase não tinham lazer, pois precisavam trabalhar ou estudar muito. O senso de humor também resistiu ao tempo, como no cardápio de filé de robô, feito pela Rosie. O melhor de tudo era que Elroy passava férias na lua, com os amiguinhos de escola. A lua era uma opção turística corriqueira, muito antes de o primeiro trilionário surgir – eca! É fantástica a genialidade dos criadores apresentando tal feito antes de a humanidade pisar na lua pela primeira vez, em 1969. A isso chama-se imaginação, criatividade, o que também perderemos se abrirmos mão dos estímulos da vida real.
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

