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Futebol feminino amplia espaço e investimentos no Brasil

Ampliação do calendário e dos investimentos cria novas oportunidades para jogadoras no futebol brasileiro | Divulgação

Igor Ramos

O Brasil receberá, entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. O torneio, que reunirá as principais seleções do planeta, chega em um momento de ampliação do calendário, dos investimentos e do número de atletas profissionais no futebol brasileiro.

O crescimento ocorre depois de uma trajetória marcada por obstáculos. Entre 1941 e 1979, as mulheres foram impedidas por lei de praticar futebol no Brasil. Mesmo após o fim da proibição, jogadoras enfrentaram por décadas pouca estrutura, escassez de competições, preconceito e reduzida cobertura da imprensa.

Para o ciclo entre 2024 e 2029, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) projeta investir mais de R$ 685 milhões nas competições femininas. Segundo a entidade, as mudanças representam aumento de 41% nas datas do calendário e de 84% no número de partidas organizadas.

Outro dado apresentado pela CBF mostra que o número de jogadoras profissionais registradas passou de 214, em 2022, para 1.058 em 2026. O avanço indica maior formalização, embora a realidade ainda seja desigual entre clubes, divisões e regiões do país.

Mais clubes e partidas

O Campeonato Brasileiro Feminino A1 foi ampliado em 2026, passando de 16 para 18 equipes e de 134 para 167 partidas. A premiação chegou a R$ 2 milhões para o clube campeão e R$ 1 milhão para o vice. Cada participante da primeira fase recebeu R$ 720 mil, o dobro do valor pago no ano anterior, segundo a CBF.

A entidade também ampliou competições de base e retomou a Copa do Brasil Feminina. A intenção é criar uma trajetória mais contínua entre a iniciação esportiva, as categorias inferiores e as equipes profissionais.

O interesse não se limita ao Brasil. A Copa do Mundo de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia, alcançou mais de dois bilhões de pessoas em diferentes plataformas, segundo relatório da Fifa. A competição também registrou público acumulado próximo de dois milhões de torcedores nos estádios.

Apesar dos avanços, o crescimento exige continuidade. Formação de atletas, calendário estável, remuneração, instalações adequadas, equipes multidisciplinares e oportunidades para treinadoras e dirigentes ainda são desafios importantes. Levantamento da Fifa mostra, por exemplo, que as mulheres ocupam somente 22% dos cargos de treinadoras principais nas ligas femininas analisadas pela entidade.

Copa do Mundo no Brasil

A edição de 2027 será disputada em oito cidades: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Será a décima Copa do Mundo Feminina organizada pela Fifa.

Além das partidas, o torneio coloca em discussão o legado que permanecerá depois de 2027. O desafio será transformar o aumento momentâneo de visibilidade em mais oportunidades para meninas, fortalecimento dos campeonatos e melhores condições de trabalho para as atletas.

Estados Unidos receberão primeiro Mundial de Clubes feminino

A Fifa confirmou os Estados Unidos como sede da primeira Copa do Mundo de Clubes Feminina. A competição será disputada entre 5 e 30 de janeiro de 2028 e reunirá 19 equipes das seis confederações continentais.

O Corinthians está entre os sete clubes já classificados. Também estão garantidos Arsenal, da Inglaterra; Barcelona, da Espanha; América, do México; Gotham, dos Estados Unidos; Naegohyang, da Coreia do Norte; e Wuhan Jiangda, da China.

A Europa terá seis representantes. Conmebol, Concacaf, Ásia e África contarão com três vagas cada, enquanto a Oceania terá uma. Os critérios levam em consideração os campeões continentais entre 2024 e 2027 e rankings de clubes.

Como o Corinthians conquistou mais de uma edição da Libertadores dentro do período classificatório, as demais vagas sul-americanas dependerão dos resultados das próximas competições e do ranking que será desenvolvido em parceria entre a Fifa e a Conmebol. O modelo não estabelece limite de classificados por país para a América do Sul.

O Mundial será realizado a cada quatro anos. Nos intervalos, a Fifa promoverá a Copa das Campeãs Feminina, disputada pelos vencedores das competições continentais.

Família muda de cidade pelo sonho de Sarinha

Sarah Coelho, conhecida como Sarinha, integra a seleção brasileira que disputa a Copa do Mundo Feminina Sub-17 no Marrocos. A volante do São Paulo chegou ao principal torneio internacional da categoria depois de uma temporada com convocações e a conquista do Sul-Americano Sub-17.

Sarah Coelho, a Sarinha, integra a seleção brasileira que disputa a Copa do Mundo Feminina Sub-17 no Marrocos | Crédito: CBF

Natural de Cuiabá, a jogadora começou a praticar futebol na rua, ao lado do pai e de meninos da vizinhança. Desde os primeiros contatos com a bola, segundo contou em entrevista à CBF, dizia à família que queria ser jogadora.

As dificuldades começaram ainda nas escolinhas, onde havia resistência à participação de meninas. Quando Sarinha tinha oito anos, a mãe passou a procurar oportunidades fora de Mato Grosso. Ela participou de uma avaliação no Centro Olímpico, em São Paulo, e avançou para a segunda etapa.

Depois de atuar no projeto Meninas em Campo, recebeu a oportunidade de treinar no São Paulo. Inicialmente, viajava periodicamente de Cuiabá à capital paulista, até que a rotina se tornou inviável. A mãe mudou-se com os filhos, enquanto o pai permaneceu por um período em Mato Grosso para sustentar a família. Posteriormente, ele também se transferiu para São Paulo.

“Minha família toda se mudou por um sonho”, resumiu a jogadora à CBF. Sarinha chegou à seleção brasileira sub-15 em 2025 e avançou até a categoria sub-17. Agora, aos 16 anos, disputa sua primeira Copa do Mundo.

A trajetória mostra como o desenvolvimento da modalidade depende não apenas do talento das atletas, mas também do apoio familiar e da existência de clubes, projetos e competições capazes de receber meninas desde as categorias iniciais.

Cinco nomes que marcaram o futebol feminino

Pia Sundhage

A sueca construiu uma carreira importante como jogadora antes da profissionalização da modalidade. Disputou duas Copas do Mundo e conquistou a primeira edição da Eurocopa feminina, em 1984. Como treinadora, levou os Estados Unidos a dois ouros olímpicos, comandou a Suécia na prata dos Jogos do Rio de Janeiro e dirigiu a seleção brasileira entre 2019 e 2023.

Crédito da foto: CBF
Megan Rapinoe

A norte-americana encerrou a carreira em 2023 depois de conquistar as Copas do Mundo de 2015 e 2019 e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Também ganhou projeção pela defesa da igualdade salarial e dos direitos das atletas.

Crédito da foto: Franck Fife/AFP
Birgit Prinz

Considerada uma das principais jogadoras da história da Alemanha, Birgit Prinz conquistou as Copas do Mundo de 2003 e 2007 e foi eleita três vezes consecutivas a melhor jogadora do mundo pela Fifa, entre 2003 e 2005.

Reprodução
Mia Hamm

Mariel Margaret Hamm foi uma das responsáveis pela popularização do futebol feminino nos Estados Unidos. Marcou 158 gols pela seleção, conquistou as Copas do Mundo de 1991 e 1999 e ganhou duas medalhas olímpicas de ouro, em 1996 e 2004.

Reprodução
Marta

Eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo pela Fifa, Marta é considerada uma das maiores atletas da história da modalidade. A brasileira marcou 17 gols em Copas do Mundo, recorde entre homens e mulheres, e conquistou três medalhas olímpicas de prata, em 2004, 2008 e 2024.

Crédito da foto: @martavsilva10 / Instagram
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