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Minha porção melhor é a porção mulher!

Elson de Paula *

“Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
que me faz viver…”

Gilberto Gil (da canção Super-homem)

Desde a juventude, a canção Super-homem de Gilberto Gil me intrigou, até que um dia, maduro, pude compreendê-la melhor, e entender o que esse grande compositor baiano propôs em sua letra, que na verdade é um poema dos mais belos que já conheci.

A canção Super-homem é a terceira faixa do lado A do vinil Realce, lançado por Gil em 1979.

Não vejo a letra de Super-homem com o uma ode à androginia ou à homossexualidade como já quiseram classificá-la, o que não seria nenhum problema, mas estes versos são um chamado do autor para a necessidade de mudar as visões do “mundo masculino”, entendendo-o como constituído no diálogo com o feminino, com firmeza talvez, mas essencialmente, com delicadeza.

Inclusive, o poema-canção de Gil vai, metafórica e filosoficamente, bem além desse chamado, em um mundo em que grande parte da violência — física e simbólica — contra a mulher decorre do comportamento machista e misógino, propondo aceitar em nós homens a nossa “porção mulher”, que ao contrário do ideal do “homem forte”, frio, autoritário e autossuficiente, que é um mito que produz sofrimento, sobretudo para as mulheres que são vítimas dessa “masculinidade nefasta”, o homem moderno pode e deve ser tão sensível e amável quanto elas, sem medo de ser feliz permitindo que essa porção melhor lhe tome a razão.

Quando Gil canta “quem dera, pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera, ser o verão o apogeu da primavera, e só por ela ser…”, ele faz um apelo à mulher mais importante de sua vida, sua mãe, para iluminar todos os homens, para que compreendam a necessidade de assumir sua “porção melhor”.

E quando ele canta “o super-homem venha nos restituir a glória por causa da mulher”, afirma que a humanidade só alcançará grandeza quando houver respeito, igualdade, equilíbrio e justiça entre os gêneros. Lembrando que a citação do super herói se deve à cena do filme Super-Homem de 1978, em que o protagonista voa na velocidade da luz, no sentido contrário da rotação da terra, para salvar sua amada Lois Lane, morta num terremoto minutos antes.

Ficção à parte, essa obra de Gilberto Gil é um apelo para que todo homem se coloque no lugar delas, e trate todas as mulheres com respeito, com dignidade, com igualdade, sem atitudes machistas, covardes e crueis, sem violência, sem violação de seus direitos, e isso vale para toda a sociedade.

Temos hoje o Pacto Nacional Contra o Feminicídio lançado pelo Governo Federal, no qual se faz um apelo para que os homens sejam agentes no combate a violência contra a mulheres em todo o território brasileiro, e para que todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) se dediquem nessa luta.

Mas é pouco, precisamos mudar comportamentos, principalmente nós, homens brasileiros, principais responsáveis pelo altíssimo índice de mortes e de sofrimento das mulheres brasileiras, vítimas do machismo e da crueldade masculina.

Que possamos sem nenhum receio, todos nós homens, assumir nossa melhor porção, nossa porção mulher, respeitando-as, protegendo-as, e permitindo que sejam como desejam ser, melhor que nós se assim o desejarem, pois são capazes disso, e como são.

Quem sabe assim, poderemos festejar no futuro um Feliz Dia Internacional da Mulher, sem que haja o medo de alguma delas sofrer qualquer tipo de violência, de violações de direitos, vivendo sua vida de forma plena.

Enfim, esse é o meu desejo para todas as mulheres, as de minha família, minha filha, minhas amigas, todas as mães, as que vivem em comunidades e ocupações, nas periferias, em situação de rua, as meninas e as jovens, as adultas e as idosas, as mulheres negras, de todas as raças, as mulheres trans, as mulheres lésbicas, e toda forma de ser mulher.

Pensemos nisso!

* Jornalista, representante técnico do Movimento Nacional de Luta na Defesa da População em Situação de Rua( MNLDPSR) cofundador do Fórum de Defesa da População em Situação de Rua de Ribeirão Preto e vice-presidente do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS)

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