Tribuna Ribeirão
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Nostalgia de quê?

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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A hidroginástica é animada. A música empolga os alunos, e a professora tem pique para acender a energia dos idosos. Elevação de joelhos, agachamentos, remadas, todos aproveitam os exercícios aquáticos para tonificar os músculos. Na saída, escuto um comentário:

– Ah, bom mesmo era quando a gente era jovem, né?

A cena é recorrente. Na hidro, na musculação, no pilates – dá-lhe nostalgia.Fico pensando que tipo de juventude foi essa, que só teve bônus.

Em qualquer época, ser jovem tem um bocado de ônus. Primeiramente o jovem tem que achar uma turma, o que só ocorre depois de muita tentativa e erro. Após desentendimentos que a imaturidade exacerba, à custa de muito sofrimento ele vai se achando no mundo. Os relacionamentos afetivos, então, costumam vir cheios de nós, entremeados com as ilusões ensinadas pelo amor cortês, que ainda hoje é divulgado nas telenovelas e continua a fazer estragos com promessas irrealizáveis. Os desejos, a sexualidade, tudo misturado à libido ainda não decifrada.

O início da vida profissional, por sua vez,acontece como um tiro no escuro: só com muita sorte se pode acertar a escolha da profissão quando ainda mal se sabe quem é.Não bastassem as ansiedades inerentes a essa fase, o dinheiro é sempre escasso. Pais bem-intencionados criam os filhos para o mundo e por isso não dão o peixe, mas ensinam a pescar: a mesada, se existe, tem que ser conquistada.

Os desafios são muitos. Dá-lhe aventuras e tudo o que se tem que experimentar num mundo, vasto mundo ainda a explorar, embalado pela ideia de imortalidade. Pelo menos para os babyboomers, os nascidos no otimismo do fim da 2ª Guerra Mundial, entre 1946 e 1964, ser jovem era desbravar as novidades e curtir os festivais de música, o movimento hippie, o avanço do audiovisual, tudo nos extremos.

Na realidade atual, a adoração à juventude é um contrassenso. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que desde 2023 os idosos deixaram de ser o menor grupo na população brasileira. Ignorá-los é uma postura desatualizada e fora de propósito, já que a transição demográfica é uma realidade incontornável: em 2030 haverá mais idosos do que crianças no Brasil.

Há muitos prejuízos no culto à juventude, como a invisibilidade imposta aos idosos. A indústria cultural é especialista em propagar corpos esguios e vigorosos, belos e amados, ao mesmo tempo em que reserva posições coadjuvantes para os idosos. Esse cenário está mudando, mas o mais nefasto e mais resistente é a rejeição ao envelhecimento pelos próprios idosos. No entanto, a autoestima do idoso é fundamental para reverter o etarismo.

A maneira mais poderosa de combater a discriminação etária é não aceitar o rótulo de incapaz. Como? Sentir-se e mostrar-se feliz com a idade. Apreciar as experiências vividas, os caminhos percorridos. Valorizar a vida como algo precioso, único e raro.  Desfrutar do autocuidado físico e mental. Ter a consciência de que viver é estar no tempo presente. Compreender que toda idade tem ganhos e perdas. Aliás, esta é uma das facetas encantadoras no envelhecimento: fisicamente não aguentar mais ir à balada e emocionalmente não querer mais ir.

O envelhecimento pode ser mais calmo, menos ruidoso, mais introspectivo, menos ansioso do que outras fases da vida. Sem a idealização do passado, pode surgir uma coerência física e mental para quem vive bem as fases da vida, e isso aparece expresso na fisionomia das pessoas ao envelhecer, nas rugas, nas manchas cheias de história.

Para terminar, uma hipótese: quem exalta a juventude não a viveu em sua plenitude e desconsidera que a memória é sempre reconstrução. Vive uma nostalgia vazia. Valoriza a juventude porque também não sabe viver a velhice. Ou seja: coloca a felicidade sempre em um outro momento. É saudosista de qualquer coisa que não esteja no aqui e agora.

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

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