Por Evaristo de Miranda, pesquisador aposentado da Embrapa e doutor em Ecologia
Lá vem o Brasil. Descendo a ladeira.
Na bola, no samba. Na sola, no salto.
Lá vem o Brasil. Descendo a ladeira.
(Moraes Moreira)
Em 2025, a economia brasileira registrou uma desaceleração de 3,4% em relação a 2024. O PIB cresceu 2,3%, o menor avanço desde 2020, na pandemia. Alcançou R$ 12,7 trilhões em valores correntes e caiu para o 11º lugar entre as economias do mundo. Abandonou o clube das 10 maiores. O resultado reflete o desequilíbrio fiscal, a alta carga tributária e o impacto dos juros elevados. Esse contexto é um freio à atividade econômica. Teria sido pior, não fosse o recorde do agro com crescimento de 11,7% em 2025.
O Brasil caiu para o 30º lugar em ranking do crescimento de PIB em 2025 entre 55 economias com resultados divulgados. Em 2024, ficara no top 20. Na América Latina, a economia brasileira teve desempenho inferior ao da Costa Rica (4,6%), Peru (3,4%) e Colômbia (2,6%). O maior crescimento está quase todo na Ásia. Taiwan lidera, com alta de 8,7%, seguida pelo Vietnã (8%). Os piores desempenhos ficaram na Europa, inferiores a 1%.
A agropecuária foi o grande motor do crescimento da economia em 2025. Cresceu 11,7% e representou 32,8%, um terço de todo o aumento do PIB. O agronegócio teve papel essencial no abastecimento em alimentos, fibras e agroenergia do mercado interno e externo. As exportações fecharam com recorde de US$ 169,2 bilhões, aumento de 3,0% em relação a 2024. O agronegócio representou 48,5% de toda exportação do Brasil.
No mercado interno, a alta produção de grãos e proteínas animais garantiu o abastecimento a custos mais baixos, ajudou a controlar a inflação de alimentos, contida em 4,4%, e impulsionou o consumo das famílias no PIB. Ótimo para você e toda a população urbana brasileira.
A indústria apresentou crescimento moderado de 1,4%. O setor de serviços, o maior, cresceu 1,8% em 2025. Sem o forte desempenho da agropecuária (11,7%), o crescimento do PIB de 2,3% teria sido muito menor.
O resultado da agropecuária foi impelido por safras recordes, sobretudo de milho (+23,6%) e soja (+14,6%), e pelo crescimento na produção, exportação e consumo per capita de carne bovina, suína, de frango e ovos.
Em 2025, o Brasil se consolidou como o maior produtor e exportador de carne bovina. Superou os EUA, ao produzir 12,4 milhões de toneladas. As exportações tiveram novo recorde: 3,5 milhões de toneladas, aumento de 20,9% em relação a 2024. O faturamento atingiu US$ 18 bilhões, um salto de 40% comparado a 2024, dada a valorização de preços e novos mercados.
A China manteve-se como o maior destino, responsável por 47% a 50% da carga de carne bovina enviada ao exterior em 2025. O Brasil exportou mais de 1,6 milhão de toneladas de carne bovina para a China e faturou cerca de US 8,9 bilhões. Para 2026, a China estabeleceu uma cota de 1,1 milhão de toneladas ao Brasil. Volumes acima desse limite podem enfrentar tarifa de importação de 55%. O governo propôs controles de embarques para evitar sobretaxas. A indústria da carne busca diversificar mercados (Vietnã, Japão, Coreia do Sul e outros) para depender menos da China.
A produção de carnes de frango, suínos e ovos, baseado em pequenos agricultores integrados, mostrou-se robusta, compensou ciclos de menor intensidade no boi e garantiu o abastecimento doméstico e a exportação.
No frango, a produção alcançou 15,4 milhões de toneladas (+3%). O consumo interno subiu para 47,8 kg por habitante. O Brasil segue o maior exportador: 5,324 milhões de toneladas, um aumento de 0,6% em relação a 2024, apesar do episódio de gripe aviária, em maio de 2025.
O consumo de ovos passou de 269 unidades por habitante em 2024 para 287 em 2025 (+6,7%). Chegará a 307 em 2026 (+7%). A produção de carne suína superou 5,5 milhões de toneladas (+2,7%) em 2025 e registrou recorde de exportação: 1,51 milhão de toneladas (+11,6%).
A agropecuária foi o pilar do crescimento econômico em 2025, sustentada pela altíssima produtividade de soja, milho e recordes nas exportações de carne bovina, suína e de frango. Ainda assim enfrenta grandes desafios. Parte da “esquerda” ideológica e setores do Governo Federal seguem cegos à realidade do agronegócio, sem proposta estratégica sobre a agropecuária num projeto de país. E tratam o agronegócio de ogronegócio, como a Ministra Marina Silva, um inimigo a ser combatido e abatido.
A Amazônia é o pior exemplo de como parte do governo federal combate, com uma política agrária de insegurança jurídica, a atividade agropecuária. Há um milhão de produtores rurais só no bioma Amazônia. O INCRA assentou 510 mil famílias, em 2.406 projetos agrários. Colonos sem-terra deixaram o Sul e Sudeste e instalaram-se em estradas como Belém-Brasília, Transamazônica e BR 364, entre 1970 e 1990, em locais indicados pelo INCRA. Construíram pequenas propriedades. Aguardam até hoje sua regularização fundiária, paralisada na atual administração federal.
A regularização fundiária é a mãe de todas as batalhas agrárias. Não há segurança jurídica para a agricultura no país. Agora, situações consolidadas são ilegalizadas por invasões e novas medidas administrativas em favor de áreas protegidas, ampliações de terras indígenas contra proprietários rurais estabelecidos, sem considerar o histórico de cada situação.
O eugenismo ambientalista (Revista Oeste, Ed. 277 )atingiu intensidade nunca vista sobretudo no Acre, Rondônia, Amazonas, Pará e Mato Grosso. Nessa política do atraso, o governo federal revogou o decreto 12.600 para a concessão de hidrovias na Amazônia. Ocupação de instalações portuárias da Cargill em Santarém por indígenas e revogação do decreto levaram a multinacional a desistir de investir cerca de R$ 1,2 bilhão em um projeto de cultivo e beneficiamento industrial de cacau no oeste do Pará. A iniciativa foi transferida ao Equador. Quem festeja ou lamenta essa decisão no Pará?
No Pará, cacaueiros são cortados na base por motosserras de agentes ambientais. Casas e currais demolidos. Agricultores e mães amamentando deixados no meio da mata. Pais de famílias rurais se suicidaram. Esse desrespeito aos direitos humanos evoca o verdadeiro ecocídio: o crime cometido contra humanos em nome do meio ambiente e não o contrário.
Agricultores, sem direito de defesa, são vitimados por embargos remotos, decretados com erros, a partir de imagens de satélite, em todo o país. São notificados no Diário Oficial da União, de leitura não obrigatória, por dedução remota de crime ambiental. São milhares de agricultores, inviabilizados por embargos remotos, sem poder vender colheitas, nem ter onde estocar. Eis o eugenismo ambientalista e tribalista em ação.
Se há ilegalidades, ao invés de retirar a laranja podre do cesto, agentes do IBAMA, FUNAI e ICMBio preferem descartar todas as frutas, como pregava o genocida Khmer Vermelho no Camboja. E queimar o cesto. Bovinos confiscados, sem indenizar, são abatidos. Na cidade, alguém pode ser despejado, ter a casa destruída e o carro vendido, sem ressarcimento?
Hoje, o crime é o principal empregador na Amazônia. Operações de guerra do Governo Federal visam produtores rurais, não o narcotráfico. Uma organização criminosa soltou animais confiscados pelo ICMBio no Acre. Quando criminosos agem teoricamente em favor de produtores, cabe se interrogar sobre o real papel do Estado.
O futuro da agricultura não pode ficar apenas nas mãos do Ministério do Meio Ambiente, ongs e seu diktat. Pequenos e médios agricultores seguem ignorados por movimentos sociais e organizações partidárias. Nos anos de 1970 eram a base da linha revolucionária. Muitos cultivam o resgate da memória dos camponeses mortos na guerrilha e esquecem os vivos.
No Rio Grande do Sul, agricultores enfrentam uma crise econômica, financeira e social profunda, após cinco anos de eventos climáticos (secas e inundação) e políticas desfavoráveis. O agro impacta cerca de 40% do PIB estadual. Responde por grande parte das exportações. O produtor rural está abandonado. A agricultura gaúcha necessita de um Plano Marshall com investimentos estruturantes, programas e projetos, numa ampla parceria entre setores público e privado, para superar a crise, retornar à normalidade e ao crescimento. Isso não passa nem perto das atuais ações eleitoreiras (Revista Oeste, Ed. 312).
Na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, Lula vetou a garantia e a incontingenciabilidade de recursos para seguro rural e pesquisa. Esse ato obscurantista atinge o presente e o futuro da agropecuária: sem seguro para hoje, nem ciência para amanhã. Qual a prioridade para a ciência e o agro? Em 2026, o orçamento das universidades federais será de R$ 7,85 bilhões, queda de 45% em relação a 2014, e houve aumento de 59 instituições para 69. A Embrapa, comprometida, enfrenta uma enorme crise orçamentária (Revista Oeste, Ed. 309.
Assim avança o agro. Desconhecido no mundo urbano. Sem assistência técnica, crédito ou seguro rural, nem programas de desenvolvimento e extensão adequados. Vítimas de narrativas e abandonados pela esquerda identitária, os pequenos e médios produtores rurais, em particular, são uma espécie ameaçada de extinção, apesar de todo seu peso na economia.
Em 2026, o agro não repetirá o PIB de 2025. No curto e médio prazo, sem infraestrutura logística adequada, nem segurança jurídica, sem lugar num inexistente projeto nacional, na descida de ladeira do Brasil, com sobrecarga tributária e ambiental, o agronegócio (galinha dos ovos de ouro) acabará por não se sustentar, nem sustentar – com seu suor, produção e impostos – o PIB e a festança alheia.
Publicado originalmente na Revista Oeste Ed. 313.

