Tribuna Ribeirão
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O embaixador da vida

Antonio Carlos A. Gama *
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“Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinícius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!”

Assim se apresentava Vinicius de Moraes (que ontem, dia 19, nascia), numa das partes faladas do celebrado “Samba da Benção”, fruto da profícua parceria com Baden Powell, (depois ele adaptaria os versos para “Poeta e ex-diplomata”).

Mas já naquela época sua carreira diplomática de mais de 20 anos estava próxima de ser interrompida abrupta e arbitrariamente a mando do ditador de plantão Costa e Silva, que teria enviado uma recomendação por escrito, curta e incisiva, ao então chanceler Magalhães Pinto: “Demita-se esse vagabundo.”

Antes ainda do AI-5, decretado pelo mesmo Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, Vinicius sabia que o governo militar não suportava a sua vida binária como diplomata e artista, que ele se recusava a abandonar. Era o tempo de caça às bruxas, em que os milicos se aproveitaram para afastar, além de adversários políticos, os servidores tidos como subversivos, alcoólatras, boêmios (como era classificado Vinicius), corruptos e homossexuais.

Apesar de considerado funcionário exemplar pelo Itamaraty, Vinicius sofreu uma longa e dolorida perseguição. Ignorado e deixado sem designação para funções diplomáticas, ficou no ostracismo, até que finalmente em maio de 1969 foi-lhe comunicada a aposentadoria compulsória, sem nenhuma diplomacia, por uma carta-telegrama!

A gota d’água pode ter sido a sua reação ao próprio AI-5, de que tomou conhecimento quando se encontrava em Lisboa, realizando algumas apresentações com Baden Powell e a cantora Márcia.

Na mesma noite, ao término do show que deveria terminar com o “Canto de Ossanha”, Vinicius abandona o roteiro e diz: “Eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. No meu país foi instaurado, hoje, o Ato Institucional nº 5. Pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. Por isso, quero ler um poema.” E enquanto Baden começa a dedilhar o Hino Nacional brasileiro, Vinicius lê o magnífico “Pátria minha”:

“A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.”
(…)

Esse é o homem que os militares e seus acólitos não podiam suportar e escorraçaram do Itamaraty.

Deixou a carreira diplomática amargurado, mas se tornou embaixador da poesia, da música brasileira, da celebração da vida, do amor, da gentileza e da ternura, peregrinando por todo o Brasil e pelo exterior para levar o seu canto e sobreviver (enfrentava com frequência dificuldades financeiras.). Dele, diria o introvertido e gauche Carlos Drummond de Andrade mais tarde: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural’, confessando ainda: “Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.

Somente trinta anos depois sua morte, e mais de quarenta da sua aposentadoria compulsória, o diplomata Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes (que trocou seu pomposo nome tão ao gosto do Itamaraty para Vinicius de Moraes ou simplesmente “Poetinha”) foi reintegrado e promovido em 2010 ao cargo de ministro de primeira classe ou embaixador.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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