Tribuna Ribeirão
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O Estado desfeito

Antonio Carlos A. Gama *
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Os homens de letras, que são também muitas vezes homens de tretas, podem ser classificados em autores e atores, e nesta última categoria inclui-se boa maioria deles, nada havendo de desprezível nisso.

Verdadeiramente, há autores que são também prestigiados atores, enquanto só alguns são apenas autores. Distingui-los, num caso ou no outro, nem sempre é fácil. 

Alguns autores são eleitos para as academias e agremiações congêneres, mas estas acolhem antes os atores, que estes é que lhes dão vida e graça.

As artes do palco exigem habilidades e amabilidades que os autores não têm. Certo é que tudo é palco e cenário, e o resto é feito pelos holofotes e pela publicidade. Os prêmios são também medalhas que sobretudo se pregam na lapela dos atores.

Mestres e discípulos. Criadores, renovadores, e seguidores. Em cada movimento literário surgem alguns mestres, e atrás deles está a turbamulta efervescente dos discípulos. E há quem navegue a vida toda pelos mares, sem chegar a capitão do navio, relegado apenas a contramestre, ou suboficial. Quando muito, fazem navegação de cabotagem.

Uma história da literatura, se é uma história dos autores e dos seus livros, é ainda uma história dos atores, muito mais abundantes e prolíficos.

Já se disse que a glória é o sol dos mortos, e também que a ela é feita dos mal-entendidos em torno de um homem. Porque muitos são os chamados, e pouco os escolhidos.

Uma análise de diversas histórias da literatura, da nossa e de outras nações, é surpreendente. Nelas encontraremos algumas centenas de autores, e milhares de atores. Sem contar que, sucedendo-se elas no tempo, às vezes tiram do túmulo alguns autores que estavam enterrados, e sepultam outros que pareciam gozar de boa saúde.

Seria duvidoso, portanto, o que sustentam esses autores e atores: se eu não escrevo, me arrebento. Essa necessidade incoercível de criar, de escrever, que pretendem ser tão irreprimível como as dores da mulher no parto.

Muitos vão para o jornalismo, no qual saciam a suposta fome de escrever. E alegam: o jornal matou-me. Outros mais dedicam-se a ser professores, ainda que mal remunerados. E raros, muito raros, como José Paulo Paes, aposentam-se como bancários para poder escrever.

Acontece ainda que esta febre de escrever, de poetar, não passa às vezes de uma doença da primeira idade, ou da juventude. É a acne da puberdade. O rapazinho, cujo buço mal se esfuma, ferve de paixão literária.

Mas há também os velhos que afinal acham absolutamente necessário dar o seu testemunho de uma vida toda de experiência. E tornam-se então memorialistas irreprimíveis, a deitar no papel a mediocridade de uma existência como todas as outras. 

A vida literária dá mais para a comédia do que para a tragédia. 

E bem colheu a disputa de vaidades dessa gente de prol, o poeta Carlos Drummond de Andrade, que também soube se fazer de ator, num filmezinho em que se escondia e deixava se ver atrás das pilastras de um edifício, antes de perseguir com passos miúdos as sereias de Copacabana:

“O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.”

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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