Levantamento do Instituto Update sobre as propostas das candidaturas à Presidência da República para as mulheres mostra que o tema está presente em programas de diferentes campos político-ideológicos, principalmente nas áreas de violência, saúde e cuidado.
O estudo examinou 12 planos de governo. Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha recebido 13 pedidos de registro de candidaturas à Presidência, um dos programas não integrou o levantamento. O material divulgado pelo instituto não informa qual candidatura ficou fora nem a razão da exclusão.
Fundado em 2014, o Instituto Update é uma organização da sociedade civil que desenvolve pesquisas e projetos relacionados à democracia, à participação política e à representação na América Latina.
O estudo constatou que questões ligadas à participação política, à presença das mulheres nos espaços de poder e à segurança no ambiente público receberam pouca atenção nos planos de governo.
A análise considerou somente propostas explicitamente relacionadas às mulheres. Políticas universais de segurança, emprego, saúde, educação ou transporte não foram contabilizadas automaticamente como políticas para o público feminino.
Segundo o instituto, os programas apresentam as mulheres com mais frequência como destinatárias de políticas públicas do que como participantes dos espaços de poder e decisão.
Apenas uma candidatura apresentou proposta específica sobre participação político-eleitoral feminina, incluindo o combate à violência política de gênero, a formação de candidatas e lideranças e regras relacionadas ao financiamento partidário.
Quando o critério é ampliado para a presença feminina em espaços de liderança e decisão, uma segunda candidatura passa a integrar o grupo. O programa apresenta propostas de incentivo à liderança feminina e o compromisso de indicar mulheres para vagas disponíveis no Supremo Tribunal Federal (STF).
“Os programas dos candidatos reconhecem problemas que afetam diretamente as mulheres, mas avançam menos quando se trata de incorporá-las como sujeitos de decisão e de pensar sua experiência cotidiana de forma mais ampla”, afirma Carolina Althaller, diretora-executiva do Instituto Update.
O levantamento também diferenciou a simples menção a determinado tema de uma proposta efetivamente estruturada. Segundo Althaller, vários programas apresentam referências consideradas relevantes, mas oferecem pouco detalhamento sobre formas de implementação, metas, instrumentos ou articulação com políticas públicas existentes.
A diretora cita como exemplo a pesquisa Mulheres, Polícia e Facções, realizada em 2026 pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado. O levantamento mostrou que 70% das entrevistadas concordam total ou parcialmente que as mulheres têm melhores ideias e soluções para a segurança pública.
“A segurança é um bom exemplo. Em uma recente pesquisa realizada este ano pelo Instituto Update e pelo Fogo Cruzado, 70% das mulheres concordam total ou parcialmente que mulheres têm melhores ideias e soluções para a segurança pública. O dado mostra que elas próprias reconhecem valor nas experiências e nas respostas formuladas por outras mulheres”, afirma Carolina.
Violência contra as mulheres
Nove dos 12 planos analisados, o equivalente a 75%, apresentam propostas explícitas sobre violência contra as mulheres, feminicídio ou proteção às vítimas. Se fossem consideradas todas as medidas relacionadas à violência doméstica, independentemente do recorte de gênero, seriam dez programas.
Segundo o Instituto Update, a violência contra as mulheres é a pauta mais disseminada entre as candidaturas, embora existam diferenças nas medidas propostas para enfrentar o problema.

Entre as iniciativas estão a ampliação das redes de proteção e das casas-abrigo, a integração entre segurança pública, Justiça, saúde e assistência social, o monitoramento eletrônico de agressores, o fortalecimento das medidas protetivas e o endurecimento das penas.
Na avaliação do instituto, os programas reconhecem amplamente as mulheres como vítimas da violência, mas ainda consideram pouco a insegurança que restringe sua circulação e o uso dos espaços públicos.
Somente uma candidatura relaciona explicitamente a segurança das mulheres à mobilidade e ao transporte urbano.
Saúde das mulheres
A saúde das mulheres aparece em sete dos 12 planos analisados, o equivalente a 58%. Para chegar ao resultado, o instituto contabilizou somente medidas que mencionam expressamente o atendimento ao público feminino.
Propostas universais para o Sistema Único de Saúde (SUS), ainda que possam beneficiar as mulheres, não foram incluídas automaticamente nessa categoria quando não apresentavam um recorte específico de gênero.
O levantamento divulgado pelo instituto não detalha, individualmente, o grau de desenvolvimento, as metas ou as formas de implementação das propostas de saúde apresentadas por cada candidatura.
Autonomia econômica
A autonomia econômica aparece em mais da metade dos programas, mas não tem o mesmo significado em todos eles. Sete dos 12 planos, ou 58%, apresentam propostas específicas relacionadas a trabalho, renda, crédito, empreendedorismo ou independência econômica das mulheres.
Em cinco programas também aparecem medidas relacionadas à igualdade salarial ou remuneratória entre homens e mulheres.
O tema encontra respaldo entre as próprias mulheres. Segundo a pesquisa Mulheres em Diálogo, realizada pelo Instituto Update em 2025, 94% das entrevistadas defendem que homens e mulheres recebam o mesmo salário quando exercem cargos equivalentes.
A mesma pesquisa indicou que 72% concordam plenamente com o aumento da presença feminina em espaços políticos e de tomada de decisão. Considerados os diferentes níveis de concordância, o instituto informa que o apoio à ampliação da participação política das mulheres chega a 85%.
Os planos de governo, no entanto, apresentam diferentes formas de compreender a autonomia econômica. Em alguns programas, ela está associada a salário, direitos trabalhistas, proteção social, creches e políticas públicas.
Em outros, recebem maior destaque o acesso ao crédito, a educação financeira, o empreendedorismo e a construção de patrimônio.
O Instituto Update conclui que existe convergência em torno da importância da autonomia econômica das mulheres, mas há diferenças sobre os caminhos para alcançá-la.
Políticas de cuidado
O levantamento mostra ainda que sete dos 12 planos, ou 58%, relacionam explicitamente creches ou políticas de cuidado à vida econômica e social das mulheres.
Em alguns programas, o cuidado é tratado como uma infraestrutura pública capaz de liberar o tempo das mulheres, ampliar sua participação no mercado de trabalho e reduzir desigualdades.
Em outros, aparece mais associado à maternidade, à proteção da família ou ao apoio às responsabilidades familiares. Há ainda programas que propõem ampliar os serviços públicos de cuidado para reduzir a sobrecarga doméstica das mulheres.
De acordo com o instituto, o ponto de convergência é o reconhecimento de que o cuidado interfere diretamente na autonomia feminina.
“A diferença está em quem deve assumir essa responsabilidade e qual deve ser o papel do Estado. Essa disputa de significado também ajuda a compreender por que uma mesma palavra pode aparecer em projetos políticos bastante distintos”, avalia o Instituto Update.
Dárcy Vera foi a única mulher de Ribeirão eleita à Alesp
A participação das mulheres de Ribeirão Preto no cenário político-eleitoral, como deputadas estaduais ou federais, é muito pequena. Levantamento do Tribuna Ribeirão revela que, ao longo da história, a cidade elegeu somente uma mulher para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp): Dárcy Vera.
Ela foi eleita deputada estadual em 2006 pelo Partido da Frente Liberal (PFL), que passou a se chamar Democratas (DEM) em 2007.
Dárcy ingressou na Câmara Municipal em 1995 como suplente, depois que o vereador Fernando Chiarelli teve o mandato cassado. Posteriormente, foi eleita vereadora por três mandatos consecutivos, correspondentes aos períodos de 1997 a 2000, 2001 a 2004 e 2005 a 2008.
Dois anos depois de chegar à Alesp, venceu a eleição municipal de 2008. Deixou o cargo de deputada estadual para assumir, em janeiro de 2009, como a primeira mulher eleita prefeita de Ribeirão Preto.
Foi reeleita em 2012 para o segundo mandato no Executivo municipal. Foi afastada do cargo em 2016, no contexto das investigações da Operação Sevandija.

Na esfera federal, o levantamento do Tribuna Ribeirão não identificou nenhuma mulher com carreira política construída em Ribeirão Preto que tenha sido eleita para o Congresso Nacional.
Nascida na cidade, Carla Zambelli construiu sua trajetória política na capital paulista. Foi eleita deputada federal em 2018 e reeleita em 2022 pelo Partido Liberal (PL).
Em 2025, perdeu o mandato depois de ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a dez anos de prisão pela invasão dos sistemas e pela adulteração de documentos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Depois de deixar o Brasil, passou pelos Estados Unidos e seguiu para a Itália, onde foi presa em julho de 2025. Em maio de 2026, a Suprema Corte de Cassação italiana determinou sua libertação ao rejeitar um dos pedidos de extradição. Em julho, a mesma corte anulou outra decisão favorável à extradição e determinou que o processo fosse novamente julgado por uma instância inferior. Carla Zambelli não permanece presa, mas continua na Itália enquanto os processos relacionados à extradição seguem em andamento.
No recorte regional adotado pelo Tribuna, que abrange o nordeste paulista e inclui as regiões de Ribeirão Preto e Franca, a atual legislatura da Alesp tem duas mulheres eleitas: Fabiana Barroso (PL), de Barrinha, e Delegada Graciela (PL), de Franca.
Baixa presença feminina também marca a Câmara
Dados do Portal da Câmara Municipal de Ribeirão Preto mostram que, nas 20 legislaturas realizadas desde 1948, somente 11 mulheres conseguiram se eleger até a eleição municipal de 2024.
Não entraram nessa relação algumas suplentes que assumiram o cargo por períodos curtos em razão do afastamento dos titulares, como Ana Augusta Rodrigues França (PDC), em 1957, e Ângela Maria Roberto (PT), em 2003.
Outro dado que demonstra a baixa representatividade é o longo período em que a Câmara não teve nenhuma mulher entre seus integrantes.
A primeira vereadora da cidade foi Evangelina de Carvalho Passig, do então Partido Trabalhista Nacional (PTN), eleita em 1951 para o mandato de 1952 a 1955.
Em 2015, com a inauguração do Terminal Urbano do Transporte Coletivo, ao lado da Estação Rodoviária, no centro de Ribeirão Preto, Evangelina foi homenageada e passou a dar nome ao equipamento público.
Após o fim de seu mandato, em 1955, Ribeirão Preto ficou quase quatro décadas sem eleger uma mulher para a Câmara.
A representação feminina voltou em 1993, com Delvita Pereira Alves (PSDB) e Joana Leal Garcia (PT). Dárcy Vera, que havia concorrido em 1992 e ficou como suplente, assumiu uma cadeira em 1995, após a cassação do mandato de Fernando Chiarelli.
Na atual legislatura, as mulheres ocupam três das 22 cadeiras da Câmara de Ribeirão Preto, o equivalente a 13,6% do total.
As mulheres na Câmara de Ribeirão
1952 a 1955
Evangelina de Carvalho Passig, PTN
1993 a 1996
Delvita Pereira Alves, PSDB
Joana Leal Garcia, PT
Dárcy Vera, PDS, suplente que assumiu em 1995 após a cassação de Fernando Chiarelli
1997 a 2000
Dárcy Vera, PFL
Joana Leal Garcia, PT
Silvana Resende, PSDB
2001 a 2004
Dárcy Vera, PFL
Joana Leal Garcia, PT
Silvana Resende, PSDB
2005 a 2008
Dárcy Vera, PFL, eleita deputada estadual em 2006
Fátima Rosa, PT
Silvana Resende, PSDB
2009 a 2012
Gláucia Berenice, PSDB
Silvana Resende, PSDB
2013 a 2016
Gláucia Berenice, PSDB
Viviane Alexandre, PPS
2017 a 2020
Gláucia Berenice, PSDB
2021 a 2024
Gláucia Berenice, PSDB
Judeti Zilli (Coletivo Popular), PT
Duda Hidalgo, PT
2025 a 2028
Duda Hidalgo, PT
Judeti Zilli (Coletivo Popular), PT
Perla Muller, PT

