Tribuna Ribeirão
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República 

Rui Flávio Chúfalo Guião * 
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No dia 15 de novembro de 1889, o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, adoentado, levantou da cama, vestiu o uniforme, montou seu cavalo e foi proclamar a República, no Campo de Santana, Rio de Janeiro, capital do Império. 
 
Deodoro queria mesmo era destituir o Gabinete Ouro Preto, que infligira várias restrições aos militares, depois da custosa Guerra do Paraguai, vencida às duras penas, que se estendera de 1864 a 1870.Admirava o velho Imperador, que sofria de diabetes, numa época em que não havia insulina e não se compreendia bem a fisiologia da doença. 
 
Mas, as agitações da Escola Militar, as atividades de Benjamim Constant e a iniciativa da Câmara dos Vereadores do Rio conduziram o velho militar ao inevitável. E a República estava proclamada. 
 
Era paradoxal o sentimento da elite e do povo: admiravam o Imperador, mas detestavam o Império. 
 
D. Pedro II era um intelectual de primeira grandeza, conhecedor de ciência e literatura. Convivia com os maiores escritores do seu tempo e se interessava pelas novidades do progresso científico. Entretanto, não havia conseguido ver que era preciso mudar o destino da nação, de um país eminentemente agrícola para outro que acolhesse o progresso da Revolução Industrial Inglesa. 
 
Quando da Independência, em 1822, Brasil e Estados Unidos eram semelhantes. Entretanto, enquanto os estados do norte daquele país desenvolviam uma forte indústria, nós permanecíamos uma grande fazenda, tocada pelos escravos. 
 
Para as elites, trabalhar era ofensa, pois só os povos inferiores, como os negros, deveriam assim fazer. Tão arraigada estava esta ideia que mesmo os pretos, quando alforriados e tinham algumas posses, tratavam de arranjar escravos para fazerem os serviços braçais. 
 
Por outro lado, existia a sucessão dinástica. D. Pedro II só tinha filhas, a mais velha delas, a Princesa Isabel, casada com o francês Conde d’Eu, neto do rei da França, malvisto pelos brasileiros. Ouvia mal, falava com forte sotaque e explorava os mais necessitados alugando-lhes cortiços no Rio de Janeiro.Será que ele seria o verdadeiro governante, quando Isabel ascendesse ao Trono ?Além disto, a Princesa era extremamente carola. Consta que teria dito que, se necessário, seguiria as leis da Igreja, antes de seguir as leis do Império. 
 
Em 1870, o centro da nação havia se mudado do Nordeste para o Sudeste. São Paulo, que 
era a sua província mais importante, liderava a grande insatisfação, lançando  o Manifesto Republicano, que pregava abertamente a queda da Monarquia.
 
 
A economia do Império baseava-se na mão-de-obra escrava e as sucessivas leis, que afrouxavam a instituição vil, culminaram com a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão, sem que o governo indenizasse os proprietários de escravizados. 
 
Formou-se, então um caldo revolucionário, que culminou com a Proclamação da República. O Estado passou a ser laico,  instituíram-se a educação geral, o sufrágio universal e o sistema federativo. Mas, os dois primeiros presidentes foram, na realidade, ditadores, que, com mão de ferro, implantaram o novo regime. 
 
A elite civil assumiu o poder coma eleição de Prudente de Moraes, dando início à República Velha, que durou até 1930, com a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder, onde ficou, como ditador, até 1945. 
 
Restabelecida a democracia, tivemos o funcionamento regular da República até a Revolução de 1964, que deu aos militares a condução do país. Em 1988,o Congresso Constituinte aprovou a Constituição atual, que vigora até hoje, um período de 35 anos de estabilidade democrática. 
 
Entretanto, apesar dos avanços que tivemos no modelo constitucional vigente, o Brasil  criou uma Corte, integrada por membros dos três poderes, que o sufoca e que permite a mudança de tudo, desde que tudo fique igual ao que está. Nosso povo a tudo suporta, sem reações. 
 
* Advogado, empresário, presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras 

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