José Moacir Marin *
Foi há mais de 20 anos (2004) que cientistas identificaram o papel da chamada proteína Spike, presente na superfície do vírus SARS-CoV. É ela quem permite ao vírus se ligar às células humanas e penetrar nelas, utilizando como “porta de entrada” um receptor bastante comum no organismo, conhecido como ACE2, encontrado em diversos tecidos.
Essa proteína rapidamente chamou atenção por dois motivos: sua alta capacidade de ativar o sistema imunológico e seu potencial de provocar inflamações intensas. Anos depois, em 2020 já durante a pandemia, verificou-se que o SARS-CoV-2, vírus responsável pela Covid-19, possui grande semelhança genética com o SARS-CoV, inclusive no funcionamento da proteína Spike.
Os efeitos da infecção pelo SARS-CoV-2 já são amplamente conhecidos. O que se observou ao longo do tempo é que a ação dessa proteína não se limita a um único órgão. Ela pode afetar diferentes sistemas do corpo, como o neurológico, cardíaco, respiratório, imunológico e renal.
A partir dessas constatações, passou-se a reconhecer uma condição chamada Covid longa, ou síndrome pós-Covid. Trata-se do quadro em que os sintomas persistem por mais de três meses após a infecção inicial. Entre os mais comuns estão fadiga intensa, dor de cabeça, dificuldade de concentração, perda de memória, falta de ar, tosse persistente, alterações cardíacas, distúrbios do sono e dores musculares.
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que, na Europa, cerca de uma em cada 30 pessoas desenvolveu essa condição. Estima-se que, globalmente, cerca de 400 milhões de indivíduos convivam com algum tipo de sequela da Covid-19, com mais de 200 sintomas já descritos.
Ainda não há consenso científico sobre as causas exatas da Covid longa. Entre as hipóteses estudadas estão a permanência do vírus ou da proteína Spike no organismo por períodos prolongados, especialmente no trato gastrointestinal, o que poderia manter o corpo em estado contínuo de inflamação.
Durante a pandemia, vacinas como as da Pfizer e da Moderna utilizaram a tecnologia de RNA mensageiro para produzir uma versão da proteina Spike modificada, introduzindo alterações que modificaram o tempo médio de transcrição do RNA de algumas horas para meses, o que lhe permite circular no corpo humano sendo confundida com uma proteina humana.Há também discussões em andamento na comunidade científica sobre possíveis efeitos dessa proteína no organismo, incluindo impactos em processos inflamatórios e na coagulação do sangue. Estudos investigam, por exemplo, a formação de microcoágulos em alguns pacientes e alterações em parâmetros sanguíneos.
Outro ponto em análise é a possibilidade de diferenciar, por meio de exames específicos, se a proteína Spike encontrada em tecidos é resultado de infecção natural ou foi introduzida pela vacinação. Essa reflexão imparcial sobre os efeitos de longo prazo da Covid-19, assim como das respostas do organismo ao vírus e às vacinas, continua em evolução. Novas evidências devem trazer mais clareza sobre essas questões nos próximos anos. Sem dúvidas, um tema que precisa seguir em debate, aos olhos de todos.
Mais detalhes sobre o que ainda é pouco conhecido da síndrome pós-vacina será tema da próxima parte deste artigo.
* Professor aposentado de Genética e Biologia Molecular da USP/ Campus Ribeirão Preto

