Sérgio Roxo da Fonseca *
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Taís Roxo Fonseca *
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Numa noite carioca, um amigo sugeriu que fossemos até o Palácio Presidencial, que até então tinha sede no Rio de Janeiro, para que pudéssemos ouvir o canto do sapo tanoeiro.
A sua atividade profissional era policiar o palácio, num tempo em que era ocupado pelo mineiro Juscelino Kubitschek,que somente conseguia dormir ao som do canto do sapo tanoeiro. Segundo o conhecimento público, trouxeram alguns sapos de Minas Gerais que, com oseu canto, fazia dormiro nossoJK, o presidente bossa nova.
Tempos após, visitando uma cidade mineira, encontrei um estabelecimento que vendia sapo tanoeiro.Dois por cada vez, informou-me o vendedor. Como não conseguiria transportar os sapos nos bolsos da minha roupa,não consegui adquirir o casal de tanoeiros que teriam a responsabilidade de fazer dormir à todos que os ouvissem durante a noite. Tinham os sapos o extraordinário poder de adormecer as pessoas ao som de seus coaxos presidenciais, ou, ao contrário, a sua qualificação era definida pela respeitabilidade presidencial!
Verdadeiramente somos dotados para viver e conviver com os nossos sons nostálgicos, fixados em nossas mentes e que nos transportam a um tempo perdido.
Imediatamente os dias trouxeram aos meus ouvidos o som da máquina de costura que vivia sorrateiramente nas casas de família de Ribeirão Preto, passando a habitar os caminhos deixados talvez pelos sapos tanoeiros marcados pela responsabilidade de abrir o sono de um Presidente da República.
Mas a sonoplastia registrada na nossa memória depende muito mais do barulho ouvido do que a responsabilidade de registrar na memória o som dos carroceiros que habitavam as ruas da nossa infância do que o seu hipotético barulho registrado pelos ouvidos infantis!
A nossa memória guarda ainda o som dos tambores aplicados pelos tambores dos nossos soldados vindos gloriosamente do encerramento da segunda grande guerra mundial. Quantas vezes conseguimos ainda ouvi-los navegando pelas noites da vizinhança dos anos de 1945!
A palavra tanoeiro faz referência ao artesão que molda barris de madeira, pois seu coachar é bem martelado. A metáfora foi usada pelo poeta Manoel Bandeira visando lembrar o trabalho obsessivo da métrica parnasiana.
Talvez ainda fosse possível reconstituir o som dos sapos tanoeiros do palácio presidencial, iluminando os nossos passos em busca de um passado que levamos na memória.
* Advogado, professor livre docente aposentado da Unesp, doutor, procurador de Justiça aposentado, e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras
** Advogada

