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“Sim, eu escrevo seu livro pra você…”



Conceição Lima *

A frase soa como uma provocação, principalmente quando vem não de um ghostwriter, aquele antigo “escritor fantasma” de memórias, autobiografias e até romances, mas de uma máquina que se diz inteligente. E o “absurdo” realmente acontece! Por meros cem reais (ou até metade disso), fornecendo apenas uns poucos subsídios do tipo “O que você quer contar?”,

“Tem algum tipo preferido de personagem?” “Qual o cenário e o tempo da história” ou até mesmo nada disso, em cerca de 30 minutos você tem em mãos uma narrativa entre 100 e 200 páginas prontinha para imprimir ou ir online. E, se encomendar um “pacote”, terá um desconto considerável na “produção”.

Não se trata de nenhuma obra prima, evidentemente. Mas se a ferramenta for das boas, o texto costuma ser bem estruturado, coerente e sem erros gramaticais. Muito melhor do que a maioria de nós conseguimos fazer, sem a menor dúvida!

Pois é! A Inteligência Artificial tem a “desfaçatez” de se apresentar como “autora”, como voz que ocupa o espaço antes reservado ao humano. A ascensão da IA como escritora é vertiginosa. Ferramentas capazes de produzir romances, poemas e ensaios em minutos desafiam a lentidão da criação humana.

Não há bloqueio, não há hesitação: apenas algoritmos que combinam estilos, referências e padrões. Autor já não é mais quem nasceu com o “dom”, mas quem tem acesso à tecnologia. O poder da escrita desloca-se do indivíduo para o sistema.

O paradigma muda radicalmente e o impacto dessa mudança é imediato, indescritível! Perguntas inevitáveis começam a surgir e as respostas ainda nem existem ou são desencontradas, polêmicas. As primeiras delas talvez fossem:

“A literatura pode ser dissociada da ‘voz’ do autor, de sua maneira singular de dizer o mundo? ”Todavia, outras perguntas poderiam se contrapor: “Mas… a literatura perde mesmo sua essência se não for fruto da experiência humana? Afinal, o valor da obra está no texto em si ou na pessoa que o escreve?

Vale lembrar que a “questão autoral” não é propriamente nova. Roland Barthes, em 1967 e Michel Foucault, em 1969, já a haviam aventado a “morte do autor”. Barthes repassava parte dessa “autoria” para o protagonismo do leitor e Foucault, indo mais longe, passou a considerá-la apenas comouma função dentro do discurso.

Outro dilema: “A IA não possui experiência humana, não conhece dor, alegria ou memória. Ela imita estilos, reproduz cadências, mas não sente”.E o contraponto: “Afinal de contas, autoria é apenas assinatura ou é vivência? Na ficção, o humano que a escreve realmente vivenciou, ele próprio, todas as emoções e situações de sua criação literária?”

O “encomendador” da tarefa fica realmente na berlinda. Embora lhe sejam pedidas pela IA sugestões iniciais e apesar de ele poder ainda modificar o texto após concluído, sempre fica no ar a questão da verdadeira autoria e autenticidade.“O que significa, então, chamar-se ‘autor’ quando não se escreve o próprio livro?Autor é quem tem a ideia ou quem a executa? É possível um livro ser ‘verdadeiro’, se não foi escrito pela própria voz do autor?”

As consequências para a literatura são ambíguas. Sempre haverá argumentos a favor e contra,todos eles igualmente válidos em si mesmos. Os “democratas”, por exemplo, podem alegar a evidente popularização da escrita, o acesso ampliado à publicação. Pessoas que nunca ousariam escrever podem agora ver suas ideias transformadas em livros, multiplicando-se vozes e histórias que talvez nunca pudessem ser registradas sem a IA.

De outro lado, há o questionamento da originalidade. “Afinal, se a IA é que escreve, quem é o verdadeiro autor?”Isso para não falar numa provável homogeneização dos estilos, já que todos recorrem às mesmas ferramentas. Além de que se pode pressupor uma provável superficialidade dos textos criados por máquinas insensíveis, que carecem de profundidade emocional genuína. Talvez o mais preocupante seja a extrema mercantilização da literatura, visto que o livro passa a ser encarado como “produto” e não como “arte”.

A questão é espinhosa,mas a realidade é incontestável: o mercado livreiro já se acha inundado por livros produzidos por ferramentas de IA. A literatura já se tornou um campo de tensão entre autenticidade e eficiência, entre singularidade e repetição. Quem quiser que continue ignorando ou torcendo o nariz para a questão, mas o dilema existe e parece que não vai retroceder.

A abordagem ética vai ficar (ou já está) mesmo tremendamente abalada. No fim, resta-nos, como autores ou leitores, algumas perguntas decisivas: “Se é uma máquina que escreve, isto pode continuar a ser chamado de literatura? Será que a literatura precisa ser escrita mesmo por humanos, para continuar sendo literatura?Afinal, o que importa mais: quem escreve ou o que é escrito.A afirmação inicialmente proposta (‘Sim, eu escrevo o seu livro para você’) pode ser vista como uma ameaça… ou como libertação?”

* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

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