As kombis estão se tornando Cults - Foto: penatabua_com

Veículo é um dos dez mais colecionáveis no mundo. Preço no Brasil chega a mais de R$ 100 mil, dependendo de ano, modelo e estado de conservação

Ela já foi um dos principais veículos utilitários do Brasil tanto no transporte de cargas como de passageiros. As kombis, que eram antes vistas em grande proporção nas ruas, estradas e avenidas, deixaram de ser fabricadas pela Volkswagen no país em 2013, e hoje, apesar de continuarem bem populares, ocupam um espaço ‘cult’ ou de colecionadores e chegam a custar mais de R$ 100 mil, dependendo do modelo, ano e estado de conservação.

Em um dos clubes de carros antigos em Ribeirão Preto, o Califórnia Volks, que conta com proprietários de fuscas e carros derivados a ar, é possível encontrar colecionadores de kombis. “Nosso maior número é de Fuscas, mas temos alguns proprietários de kombis. Tem aumentando a procura por kombis dentro do clube, de associados querendo comprar. A Kombi depois que saiu de linha passou a ser um dos dez carros mais colecionáveis do mundo e virou uma febre de exportação de kombis no Brasil. Muita gente mandando kombis para a Europa, Ásia e Estados Unidos”, explica Rodrigo Roberto Reis, presidente do Califórnia Volks. O clube realiza seu encontro anual em Ribeirão Preto no próximo final de semana (ver no Caderno de Cultura).

Tiago Songa é apaixonado por carros antigos. Mais ainda por kombis. Ele é jornalista especializado em história do automóvel, organizador de eventos de carros antigos, e ‘kombeiro’ desde 2001. Songa explica porque o utilitário teve tanto sucesso no Brasil. “Uma pessoa procura uma kombi por vários motivos. Ou porque a empresa atual começou com uma kombi, ou porque é um carro grande de mecânica simples, ou mesmo para coleção considerando a busca de modelos mais raros. Depois de 2013 (com o fim da produção) houve um novo tipo de procura: a do investidor”, diz.


Tiago Songa é jornalista especializado em história do automóvel, organizador de eventos de carros antigos, e ‘kombeiro’ desde 2001

Songa acrescenta que a kombi foi o veículo que por mais tempo se produziu no mundo, quando noticiaram o seu fim em 2013. “Até então, desde 1950 a kombi foi produzida sem parar. Foram 63 anos de produção de um carro e isso foi um recorde na época”, ressalta. “O Brasil era o único país do mundo que produzia o modelo, então, quando foi anunciada a despedida, e imprensa do mundo todo veio para o Brasil para fazer matérias sobre o fim do carro que mais tempo se produziu”, acrescenta. O especialista crê que com a repercussão de “vai deixar saudade”, o utilitário saiu do aspecto carro de serviço e se transformou em cult.

Mercado investidor em kombis

Após a transformação em veículo cult, investidores, segundo Songa, apareceram no mercado. “A Europa começou a querer kombis antigas para coleção e o Brasil tinha muitas. O preço subiu, mas subiu muito. O europeu procurava um importador, que achava a kombi no Brasil de um negociante, que intermediava o negócio com um vendedor que, no final comprava a kombi do proprietário. Isso fez com que um carro que custava R$ 5.000, passasse por tanto intermediário, que chegava no preço final de R$ 30 mil. E o europeu pagava! Porque era barato”, salienta.

Hoje o kombeiro aponta que o mercado esfriou, mas aposta que Kombi ainda é um bom negócio “porque muita gente saiu comprando com a ideia de ganhar uma grana está reformando. O mercado de peças de reposição melhorou com muita gente fabricando peças. De um modo geral, no universo dos carros antigos da VW com motor traseiro refrigerado a ar, o Fusca sempre foi o principal personagem do movimento, mas depois de 2013, ter uma kombi fabricada até 1975 virou obsessão”.

Mas porque até 75? Songa diz que é por conta que até esse ano as kombis brasileiras ainda têm a frente antiga, com vidro da frente dividido, ou seja, o modelo que os europeus queriam, por ser muito parecido com os modelos fabricados na Alemanha. Mas os alemães fabricaram o veículo até 1967.

As mais procuradas

Tiago Songa elenca os modelos de kombis mais procurados no mercado. As fabricadas até 1975 são as mais procuradas, elas são conhecidas como ‘Corujinha’. Séries limitadas são outras que atraem os compradores e colecionadores, como as de 2013, quando a VW lançou a Last Edition, com apenas 1200 unidades. Ou as ’50 Anos’, de 2007, quando foram lançadas somente 50 unidades em comemoração ao aniversário de cinco décadas. E também as ‘Série Prata’, lançadas em 2006 na despedida do motor a ar, com 200 unidades.


Há no Brasil eventos exclusivos para kombis e ‘kombeiros’. Um dos maiores é o Pé na Tábua/King-Kombi que acontece em Barra Bonita (SP) em julho – Crédito penatabua.com

Rodrigo Roberto Reis, presidente do Califórnia Volks: Kombi está entre os dez carros mais colecionáveis no mundo

O sustento e o xodó da família

O motorista Carlos Ferreira trabalha com sua Kombi em uma empresa de embalagem. Dos nove entregadores da empresa, oito usam Kombi. Para ele, mais que ferramenta para o sustento da família, a Kombi virou um xodó.


Carlos Ferreira utiliza sua Kombi diariamente como ferramenta de trabalho

Carlos diz não pensar em trocar o veículo, adquirido há seis anos. “Ela atende minhas necessidades no trabalho e com ela o custo é baixo com relação a outros modelos”, diz. Ele fala que o veículo não dá muita mão de obra. “Conserto, mão de obra e peças são mais em conta dos modelos do segmento de transporte”.B

Kombi, paixão de família

Quem passa à noite no cruzamento das ruas Marcondes Salgado e Florêncio de Abreu, no Centro, vai notar duas paixões do designer gráfico Rogério Geraldo da Silva: Kombi e gastronomia.

No cruzamento está o bar de Rogério, o Hocus Porcus e em frente uma Kombi customizada por ele, que se tornou atração. O bar é especialista em servir carne de porco. A Kombi, que antes era o palco dos shows musicais. “Os shows foram suspensos temporariamente. Estamos resolvendo algumas questões na Prefeitura, mas a Kombi continua sendo uma atração, além da comida”, diz.

“Meu pai era verdureiro antes de também ser dono de bar. Então eu andei muito de Kombi e adoro. Aquela Kombi que está no bar chama muito atenção, acho que ela é um dos diferenciais do bar”, diz Rogério, que além do estabelecimento ‘garimpa’ kombis pela cidade para trabalhar no designer gráfico. “Mas só as abaixo de 1975, as Corujinhas”, finaliza.

Kombi customizada é uma das atrações no Hocus Porcus, no Centro de Ribeirão Preto

Certificado de originalidade Pela legislação brasileira qualquer veículo com mais de 30 anos que estiver com suas características originais, pode ser vistoriado para pedir um certificado de originalidade e receber uma placa de outra cor, conhecida como ‘Placa Preta’ que o define como veículos de coleção.

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