Charles Sanders Peirce (1839 – 1914), linguista americano, contribuiu, com seus trabalhos nas áreas de lógica, matemática, filosofia, pragmatismo e, principalmente, semiótica, para um ambicioso aprofundamento do conhecimento em diversas áreas. Nesta última, em especial, propôs uma teoria dos signos de classificação tipológica ampla e detalhada, na qual estes são representados como ícones, índices e símbolos. Quando o ícone apresenta uma relação de similaridade física com o objeto, tal como uma fotografia, ele será classificado como uma imagem. Por sua vez, quando esse mesmo ícone representa, logicamente, as estruturas internas deste objeto, ainda que sem semelhança física, ele será classificado como um diagrama. 

 

A Cartossemiótica é o ramo de pesquisa que trata dos estudos dos mapas e da cartografia sob o ponto de vista das diferentes correntes semióticas. O primeiro pesquisador a desenvolver um estudo semió­tico dos mapas foi Jaques Bertin, influenciado pela corrente estruturalista, inaugurada por Saussure na França. Seu objetivo? Tratar o mapa apresentado aos nossos sentidos como fundamento do signo. Sendo o objeto a que ele se refere o território, o interpretante são as imagens mentais geradas a partir da leitura desse mapa. Tais imagens mentais se manifestam como outros signos, estimulando novas significações em cadeia, num processo conhecido como semiose. O poder narrativo dos mapas é explorado pela ficção não somente como instrumento de geolocalização de fatos narrativos, mas também como elemento principal da própria narrativa. 

 

Segundo pesquisadores, podemos identificar dois gran­des pontos de vista para estudar a cartografia nesse contex­to: os mapas como representação de estruturas espaciais de histórias (orais, literárias ou audiovisuais) e os processos de mapeamento. Outros estudos, por sua vez, debatem interseções da cartografia com a literatura, posicionando tais estudos em um contexto interdisciplinar maior denomi­nado geografia literária. O que afirmam? Que as diferentes representações de espaços da literatura dependem do grau de semelhança do universo criado pelo autor com o mundo real. Em outras palavras, de um lado, há obras que situam suas tramas narrativas em lugares, cidades ou países exis­tentes no planeta, em diferentes níveis de detalhamento e aproximação com territórios reais. De outro, há autores que criam verdadeiros mundos imaginários, reinos fantásticos e cidades inventadas. 

 

Franco Moretti, estudioso literário italiano, trabalhando a história do romance como uma “forma planetária”, propõe uma reflexão sobre as principais obras da literatura europeia do século XIX a partir da análise de mapas, entendidos como ferramentas analíticas dos elementos espaciais presentes nos textos. Distinguindo duas abordagens, a saber, o espaço na literatura, cujo enfoque é ficcional (a versão de Paris criada por Balzac, a Grã-Bretanha de Jane Austen ou a idealização do continente africano dos romances coloniais); e a literatura no espaço, com ênfase no espaço histórico (as bibliotecas circulantes britânicas e a expansão editorial de Dom Quixote na Europa), o autor oferece uma nova perspectiva cartográfica na literatura. Uma referência que construiu a partir disso? Seu “Atlas do romance europeu”. 

 

Moretti, estudando a geografia da economia literária, buscou investigar como e por que as traduções de romances se espalharam pela Europa, como a seleção de livros em bibliotecas de cidades pequenas difere da seleção de livros nas bibliotecas das grandes cidades, etc. Estu­dos, estes, que serão complementados pelos do estudioso francês Bertrand Westhpal (2011) e os da indiana Christina Ljungberg (2005, 2010). Westhpal discute os impactos da pós-modernidade na representação e na percepção do es­paço. “O autor dedica grande parte de sua análise às ques­tões ontológicas e fenomenológicas provocadas pelo debate sobre realidade e ficção na literatura. Ljungberg propõe uma reflexão sobre função icônica dos mapas e diagramas nos textos literários. A partir de uma perspectiva peirciana, Ljungberg explora o potencial diagramático dos mapas para representar relações estruturais presentes na literatura. Ou seja, como a incorporação de fotografias na narrativa permite aos autores realizar uma série de operações, entre as quais tematizar o papel do elemento visual como desencadeador de memó­rias e estabelecer ligações com o passado, além de fornecer um acesso especial a experiências ignoradas ou que podem ter sido esquecidas. 

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