Da literatura para a medicina: The Lancet, Covid-19 e Saramago

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A revista The Lancet é um periódico cientí­fico semanal sobre medicina, com revisão por pares, isto é, publica apenas artigos que, anali­sados por especialistas por ocasião da submis­são à publicação, têm confirmados o valor da ciência neles relatada. Uma das mais antigas, conhecidas e prestigiadas revistas médicas do mundo, foi fundada em 1823 pelo cirurgião e membro do parlamento inglês Thomas Wa­kley (1795 – 1862), que manteve-se como edi­tor até à velhice, auxiliado e sucedido por um de seus filhos. Em sua edição de 20 de Junho deste ano, no volume 395, página 1899, trouxe a publicação de um texto intitulado, “Da literatura à medicina: vendo a covid-19 através do Ensaio sobre a cegueira de José Saramago”. Dada a importância do autor e do tema pandêmico, transcrevemos abaixo, tradução nossa, a aproximação textual proposta pelos autores Daniel Marchalik (Georgetown University School of Medicine, Washington) e Dmitriy Petrov (University of Pennsylvania, Philadelphia).

Cerca de 6 meses vivenciando a pandemia da covid-19, a devastação emocional, os impactos so­cioeconômicos e as pressões nos profissionais de saúde da linha de frente continuam a moldar o nosso mundo. Enquanto as palavras nem sempre podem fazer justiça à extensão do sofrimento mundial pro­vocado por esta doença. Porém, a ficção pode, às vezes, oferecer uma maneira de processar o momento presente, e isso parece particularmente verdadeiro para escritor português José Saramago e ao seu livro sobre a cegueira.

O romance narra uma epidemia sem precedentes de cegueira que varre um país sem nome. Abre com um homem no trânsito, o qual viu seu mundo se envolver, de repente, numa brancura leitosa. Ele é levado para um oftalmologista onde, após aguardar em uma movimentada sala de espera, sai dali, deixando todos infectados. O grupo contaminado é, então, colocado em quarentena em um antigo hospital pelo Ministério da Saúde. O médico e sua esposa, que milagrosamente mantêm a visão, são ali mantidos, também. Dentro do asilo, o pânico se espalha “Mais rápido que as pernas que o carregam”. A esposa do médico aprende rapidamente como o medo e a sensação de não ser visto – e, portanto, não ser julgado por sua ações, – pode levar à depravação moral, à qual ela e outros estão sujeitos: estupro, extorsão e assassinato de companheiros de ala.

Finalmente, quando toda a cidade fica cega e o grupo em quarentena emerge, eles encontram sua cidade em ruínas. Vagando pelas ruas abandonadas, eles se encontram em uma igreja onde estátuas sagradas têm seus olhos cobertos de pano branco e pinturas têm os olhos obscurecidos por tinta bran­ca. Este é um mundo que parece mudado para sempre. Nesse mundo, mesmo os santos não mereciam ver em meio ao sofrimento dos cegos. Então, tão rapidamente quanto veio, a cegueira recua. O mundo vibra com otimismo, como se acordasse de um pesadelo. Mas a esposa do médico – que viu as realida­des dentro das paredes do hospital – teme que o sofrimento tinha sido em vão. As pessoas da cidade, para ela, logo se esqueceriam daquilo, mesmo que ela não pudesse fazer o mesmo. Este é o sacrifício dela: testemunhar os horrores dos outros que poderiam ignorar e servir como o registro histórico para o que realmente aconteceu nas enfermarias.

Ela aprendeu o paradoxo dessa epidemia de cegueira que de mostrava mais iluminada do que obs­curecida. Em sua reflexão: “Eu não acho que ficamos cegos, acho que somos cegos, cegos que vendo, não veem.” Os cidadãos da cidade optaram por não ver a crueldade subjacente a si próprios e aos ou­tros. Foi necessário uma epidemia para lançar luz ofuscante a escuridão que sempre estava próxima de todos. O mesmo é verdadeiro para a pandemia da covid-19, que tem revelado muitas injustiças e desi­gualdades até então ignoradas. Colocando os sistemas de saúde e recursos aos seus limites em muitos países, essa pandemia global tem trazido à tona várias questões prementes como racismo sistêmico, segurança de redes sociais e variações de acesso aos cuidados de saúde. E, por curto tempo, perdemos nossa capacidade de olhar adiante, contando mortes e vendo vídeos de pacientes criticamente doentes em enfermarias de hospitais a invadirem nossa consciência.

Em alguns países, a desinformação sobre a covid-19 tem levado a protestos e revolta, exigindo o fim da quarentena fora dos muros do hospital; enquanto isso, por dentro, cuidadores de saúde fatiga­dos trabalham em unidades de terapia intensiva, fornecendo cuidados e apoio especiais para inúme­ros pacientes que estão com medo, gravemente doentes e sozinhos. Mais do que nunca, os registros contemporâneos de profissionais de saúde e das experiências de seus pacientes são necessárias para equilibrar as narrativas de alguns quadrantes que subestimam a extensão da pandemia. Um dia, a covid-19 também deverá passar. O que restará? Muitos irão lembrar a solidão da quarentena e sofrer com a recessão financeira que, é certo, virá; outros vão se lembrar da perda de um ente amado. Mas as memórias de sofrimento e sacrifícios dos profissionais de saúde e escritos de pacientes, mídias sociais postagens, podcasts e fotografias, testemunhando o que viram dentro das paredes do hospital, ajudarão aqueles do lado de fora a verem e resistir ao desejo de esquecer. Porque esquecer esse momento é algo nós não poderemos ter como luxo”.