Jornal Tribuna Ribeirão

Está difícil ser herói por aqui

professor

Além da permanente relação com o divino, o ser humano neces­sita de heróis reais ou super-heróis fictícios. São seres mais rápidos, mais fortes, mais inteligentes e, às vezes, dotados de poderes sobre­naturais que têm a missão de colocar ordem no caos mundano. Ge­ralmente suas identidades são protegidas por máscaras, capacetes, capas e acessórios variados. Nossa relação com esses personagens nasce na infância e se prolonga no tempo, os crescentes sucessos de bilheteria são provas contundentes.

Quando surgiu a pandemia de covid, muitos buscaram a explicação e a cura nas religiões, outros na ciência. Iniciou-se a procura de culpa­dos e aos poucos também foram surgindo heróis em diversas categorias profissionais. O reconhecimento e, quase unanimidade, caiu sobre os profissionais da saúde, homenageados com músicas, poesias, cartas, cartões, especiais de televisão, apresentações de orquestras, sessões solenes em Câmaras Municipais e até nome em viaduto.

Existem especialistas em estudar a vida dos heróis históricos e dos super-heróis da ficção, eles conhecem o caráter, perfil psicológico, pode­res e até os pontos fracos. Assim sabemos que o Super-Homem sucum­be diante da Kriptonita; a Mulher-Maravilha se tiver as mãos amarradas por um homem; Thor ao ficar sem o martelo por 60 segundos; Shazam se falar seu próprio nome; Demolidor diante de ruídos altos e odores fortes e os Lanternas Verdes frente à luz e a cor amarela. No mundo real pesquisadores foram identificar o que fragiliza os heróis da saúde.
Vivenciamos uma fase onde as síndromes gripais se alinharam às variantes do coronavírus.

Com as Unidades de Saúde lotadas a contaminação cruzada é um risco real, além disso pacientes que procuram os serviços com outros problemas, acabam sendo contaminados. Para complicar as equipes de saúde estão esgotadas e desesperançosas com os rumos da pandemia e por comportamentos imprudentes da população em geral e de determinadas autoridades em especial. Outra agravante é a necessidade de complementar ren­da com segundo ou terceiro vínculo de trabalho. Trabalhando cada vez mais e com apoio cada vez menor, um dos reflexos é a amplia­ção do número de profissionais afastados por problemas de saúde.

Soluções imediatas devem ser adotadas como a contratação de mais trabalhadores, utilização de escolas, igrejas e centros de compras para ampliação dos locais para realização de testes, desafogando as Unidades de Pronto Atendimento, os Centros de Saúde e as Unidades Básicas. A retomada das campanhas de esclarecimento quanto aos protocolos sanitários, novas medidas de distanciamento e até mesmo o reforço na segurança são necessários. Outra providência fundamental é garantir suporte psicológico e emocional aos trabalhadores da saúde.

Quando questionados, os trabalhadores da linha de frente aler­tam para as precárias condições de saúde física e mental e a sensa­ção de falta de apoio e até abandono, se definindo como ‘soldados largados na frente da batalha’. A mesma sensação é manifestada pelos profissionais da atenção primária.

O Orçamento federal aprovado em dezembro prevê reajuste salarial superior para as forças de segurança em detrimento aos guerreiros da saúde; nos governos estaduais, surgem iniciativas como a de Santa Catarina objetivando a valorização dos profissio­nais da saúde, enquanto em alguns municípios os servidores do SUS já estão há três anos sem recomposição salarial.

Nas histórias de quadrinhos os super-heróis se unem para vencer os inimigos que ameaçam a vida humana. No mundo real in­felizmente encontramos até autoridades e seguidores que fortalecem o inimigo disseminando informações falsas e adotando posturas que favorecem a disseminação do vírus e enfraquecem o Sistema de Saúde. Com as tropas desvalorizadas, esgotadas, fragilizadas e desesperançosas, parece que a guerra está longe de terminar e está cada vez mais difícil ser herói por aqui.

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