“Histórias de quem gosta de ensinar” apagando incêndios

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Já nem peço mais permissão a Rubem Alves para usar de um dos seus títulos e continuar falando, aqui, das histórias de quem passou mais de trinta anos ensinando por este mundão de Deus. Hoje, retorno ao tema para falar de como a educa­ção escolar sempre foi marcada pela desigualdade em vários níveis, não somente entre as redes pública e privada. Até mesmo entre escolas da rede pública, ouvia referências mar­cadas pelo preconceito e discriminação. Uma das expressões, que nunca ouvira antes de chegar em Ribeirão é que essa ou aquela escola era o “pau do urubu”. Pois, um dia, fui parar em uma delas. Por escolha pessoal e consciente.

Já lecionava nas redes municipal e estadual de ensino, quando fiz um concurso público para diretor de escola do Estado. Fui aprovado e logo fui convocado para assumir. Antes da atribuição, quando eu tinha de escolher a unidade, visitei a escola, me reuni com os professores, muitos já meus conhecidos, tomei pé da situação. Não faltaram sugestões para desistir. O que me esperava era todo um conjunto de fatores adversos “insuperáveis”. Havia até risco de seguran­ça. Mas havia também aqueles que me esperavam como tábua de salvação. E eu acreditava naquela oportunidade como uma missão.

Era uma escola onde parecia que tudo estava fora do lugar. De construção antiga, própria somente para os anos iniciais do fundamental, foi recebendo puxadinhos e já abrigava mais de mil alunos, de todo ensino fundamental e médio em três turnos. Em uma das alas, já havia até três exemplares das famosas “salas de lata”, uma das maiores irresponsabilidades da gestão da educação pública do Estado. Agora chegava um novo diretor, concursado, substituindo outros que passaram por lá como interinos por vários anos. Logo percebi que a mi­nha chegada era vista por alguns como uma ameaça! Alguma coisa poderia sair do lugar e isso não era bom…

Os primeiros tempos foram muito difíceis. Era uma escola que chegou a ter grades de ferro nas portas das salas de aula. A impressão que se tinha é que as salas de aula haviam se transformado em celas de uma prisão. A violência, o medo e o vandalismo estavam estampados em cada canto. Lembro­-me bem que na primeira semana, amanhecemos um dia com todas as lâmpadas quebradas. No primeiro mês, um aluno pôs fogo na manta de espuma, altamente inflamável, do teto das salas de lata. Lembro-me bem da cena dramática de vá­rios de nós correndo com latas d’água para apagar o incêndio.

Havia uma cadeia de relações misteriosas e intocáveis, inclusive com grupos de fora da escola, ligados ao tráfico de drogas. À boca pequena, falavam de PCC… Algumas vezes, fomos fortemente impactados pelo assassinato de alunos e alunas nos acertos de contas e por outras razões nos bairros do entorno. Outras vezes, desavenças iniciadas dentro da escola terminavam lá fora em quase tragédias. Aqueles foram também tempos conturbados em Ribeirão por ação das gan­gues e da polícia, que ceifou a vida de centenas de adolescen­tes e jovens, grande parte deles pobres e negros da periferia. Esta história ainda não foi contada.

Por parte dos órgãos gestores superiores, percebi que não havia nenhuma política específica para tratar daquela reali­dade em particular. É como se todas as escolas fossem iguais em suas dificuldades e desafios. Ou que tudo se resolvia pelo pedagógico. O gestor que se virasse! A percepção era de aban­dono e isolamento. Percebi, então, que os problemas somente poderiam ser enfrentados com a união e o compromisso de todos(as). Não seria uma obra do gestor local. Daí, o primeiro esforço seria pela criação de uma rede de confiança e cumpli­cidade solidária. Foi uma batalha de cinco anos.

Continuamos na próxima semana.