Rodrigo Gasparini Franco *
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As duas maiores comunidades italianas fora da Itália – concentradas sobretudo na Argentina e no Brasil – decidiram dar um passo inédito em direção à coordenação política conjunta para defender os direitos dos milhões de ítalo-descendentes espalhados pela América do Sul. A articulação ocorre no âmbito da União Sul-Americana dos Emigrantes Italianos (USEI), partido de centro-direita presidido por Eugenio Sangregorio, que historicamente atua na circunscrição exterior do Parlamento italiano. A iniciativa sinaliza uma tentativa de transformar peso demográfico em influência política efetiva, em um momento considerado decisivo para o futuro da cidadania italiana no exterior.
A nova configuração ganha força com a entrada de nomes que ampliam o alcance e a visibilidade do movimento. O empresário e apresentador de televisão Marcelo de Carvalho Fragali assume a vice-presidência, trazendo consigo capital midiático e capacidade de mobilização, enquanto o ex-deputado e empresário Luis Roberto Lorenzato, com passagem pela Lega de Matteo Salvini, ficará responsável pela coordenação-geral de campanha. A composição indica uma estratégia que combina comunicação, experiência política e articulação internacional, mirando não apenas a representação simbólica, mas a conquista concreta de espaço institucional.
O movimento surge em resposta a uma crescente percepção de fragilidade na defesa dos interesses dos italianos no exterior, especialmente diante de propostas legislativas vistas como restritivas. Entre elas, o chamado “Decreto Tajani” tem sido alvo de críticas por parte de setores da diáspora, que o consideram um risco ao reconhecimento e à manutenção de direitos ligados à cidadania. Nesse contexto, a articulação dentro da USEI se apresenta como uma reação organizada, buscando consolidar uma frente de resistência capaz de influenciar o debate político em Roma.
Do ponto de vista estratégico, a USEI ocupa uma posição peculiar no sistema político italiano. Embora não seja uma grande força nacional, sua atuação na circunscrição exterior lhe permite eleger representantes que frequentemente integram o chamado “grupo misto” no Parlamento, tornando-se peças relevantes em votações equilibradas. Essa condição confere ao partido uma margem de negociação que pode ser decisiva, especialmente em temas que envolvem diretamente os italianos residentes fora do país. Ao fortalecer sua base sul-americana, a legenda busca ampliar esse poder de barganha e se consolidar como interlocutora legítima da diáspora.
A união entre Brasil e Argentina, nesse cenário, representa mais do que uma aliança circunstancial. Trata-se de uma tentativa de construir uma agenda comum para comunidades que compartilham desafios semelhantes, como a burocracia consular, a demora nos processos de cidadania e a necessidade de maior reconhecimento político. Ao atuar de forma coordenada, essas comunidades aumentam sua capacidade de pressão e reduzem a fragmentação que historicamente limitou sua influência.
A aposta da USEI é que, ao centralizar essa articulação, o partido possa se tornar a principal porta-voz dos ítalo-descendentes no cenário político italiano. Isso implica não apenas disputar eleições, mas também ocupar espaços de debate, dialogar com outras forças políticas e influenciar a formulação de políticas públicas voltadas à diáspora. A presença de lideranças com diferentes perfis – empresarial, político e midiático – sugere uma estratégia de ampliação de alcance, tanto dentro quanto fora da Itália.
Em um momento em que a relação entre o Estado italiano e suas comunidades no exterior passa por redefinições, a iniciativa pode marcar uma inflexão importante. Se bem-sucedida, a coordenação liderada pela USEI poderá transformar a diáspora sul-americana em um ator político mais coeso e relevante, capaz de defender seus direitos com maior eficácia e de ocupar, de forma mais consistente, o espaço que lhe cabe dentro da democracia italiana.
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)
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