Tribuna Ribeirão
Artigos

Quem tem medo do “Robô Mau”?

Conceição Lima *

O futuro do trabalho chegou. Alguma estranheza? De fato, nenhuma… Cada revolução industrial da humanidade sempre apresentou inovações polêmicas.  A quarta (e mais recente) delas é a Inteligência Artificial. E, com ela, os robôs estão cada vez mais espertos em realizar inúmeras tarefas, na maioria das vezes sem nenhuma intervenção humana.

Daí a existência de manchetes alarmistas e projeções catastróficas de que milhões de pessoas perderiam seus empregos da noite para o dia. Além de que até a própria raça humana correria o risco de ser extinta por algoritmos infalíveis e robôs implacáveis.

No que diz respeito à mão de obra humana, efetivamente a automação pode gerar desemprego e desigualdades. As profissões caracterizadas por tarefas manuais e mecânicas serão as primeiras a serem atingidas, mas o tsunami também alcançará os demais postos de trabalhos.

Portanto, a ansiedade é compreensível, visto que o avanço tecnológico sempre teve seu preço social. Na prática, a realidade é muito menos sombria.Empregos de alta complexidade (saúde, energia, biotecnologia), não apenas resistiram à IA, como também aumentaram sua demanda por mão de obra adaptada ao novo contexto digital.

Já os setores mais tradicionais (construção civil, indústria automotiva, manufatura), ainda enfrentam desafios: a IA exige requalificação profissional e transformação de processos.

Eis, então, que já podemos falar numa resiliência notável do mercado de trabalho frente à automação. Atividades mecânicas e repetitivas serão realmente delegadas às máquinas; mas o trabalho humano vem se reposicionando no campo da criatividade, do relacionamento interpessoal, da análise crítica e da resolução de problemas complexos.

Essa tão apregoada dicotomia entre homens e máquinas é falsa. Os empregos não desaparecem, eles evoluem. E a IA, ao invés de ser o carrasco do trabalho humano, assume o papel de coadjuvante.

Como parte de um ciclo natural de evolução, ela substitui tarefas, não empregos.E, evidentemente, ela não trabalha para si mesma; age em função de nós, para nós. Portanto, ela não deve ser vista como um substituto, mas como um multiplicador da capacidade humana.

Aliás, os países que lideram a adoção da IA não estão desempregando suas populações. Pelo contrário, o desemprego nesses países mostra uma tendência de estabilidade e/oude queda.Na verdade, isso pode ser muito bem o início de uma nova era de realização profissional.

Muito ainda está por vir nesse futuro que, consequentemente, passa a requerer mão de obra especializada em tecnologias de ponta. O que se precisa garantir é que o trabalhador esteja apto a uma possível realocação nos novos cargos. Por outro lado, ouso da IA,de modo algum,implica a diminuição dos direitos trabalhistas: as tecnologias devem ser aplicadas não somente a favor das empresas, mas dos trabalhadores também. O papel dos líderes públicos e privados é investir em educação, fomentar a inovação e garantir que a transição tecnológica seja inclusiva.

O Brasil não está imune a essa revolução. Ele aparece no ranking mundial como o 30º país mais avançado em IA. O setor industrial segue como o mais afetado, mas a área tecnológica mostra forte expansão. As empresas que adotam soluções de IAtêm crescido em competitividade e aberto novas oportunidades de trabalho.

Um relatório publicado recentemente (“Quemganha, quem perde e quem fica para depois”) oferece um diagnóstico inédito e bem fundamentado sobre como as mudanças tecnológicas estão impactando a empregabilidade, a produtividade e as desigualdades em nosso país. 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2 milhões correm risco de automação completa de seus empregos, dentre os 37 milhões de trabalhadores brasileiros que poderão ser impactados de alguma forma pela IA. Por outro lado, menos de 30% dos brasileiros possuem habilidades digitais básicas.

Por aí se vê a quantas andamos nesse quesito! Essa lacuna só poderá ser superada com políticas públicas robustas de requalificação, inclusão digital e formação contínua.

Em síntese, os robôs não são o lobo mau da história. Ou melhor, não são maus por natureza. O verdadeiro risco estáé nas intenções e falhasdos humanos que os programam e definem seus objetivos.  Isso, aliás, é uma preocupação bem antiga.

Quem não se lembra das jurássicas Três Leis da Robótica, criadas pelo escritor IsaacAsimov? Elas já previam, nos idos de 1942, a necessidade de garantir um conjunto de regras que regulassem o comportamento dos robôs, não somente prevenindo riscos aos humanos, como também explorando dilemas éticos pertinentes. Só que, na prática, a questão é bem mais complexa e ambígua do que sonha a nossa vã filosofia.

O temor do “robô mau”serve é para mascarar questões mais urgentes e reais, como (repetimos) a responsabilidade humana no desenvolvimento e uso da tecnologia. Em vez de temer os robôs, devemos nos preocupar é com quem os cria e com aqueles que os usam…

* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

VEJA TAMBÉM

A vertigem da República

Redacao 5

Filhos de pelos

Redacao 5

Animal

Redacao 5

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com