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Assédio

Reprodução / Keira Burton

A percepção de que o espaço urbano ainda não é plenamente seguro para as mulheres ganha nova confirmação em números recentes. Pesquisa realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec revela que sete em cada dez mulheres afirmam já ter sofrido assédio moral ou sexual em algum momento da vida. O levantamento, realizado em dez grandes capitais brasileiras com 3,5 mil entrevistados, mostra que o problema permanece estrutural: 71% das mulheres disseram ter enfrentado algum tipo de assédio em espaços que deveriam ser de convivência cotidiana — ruas, transporte público, trabalho ou até o ambiente doméstico.

Os dados revelam também onde a violência se manifesta com mais frequência. Ruas, praças e outros espaços públicos aparecem no topo das ocorrências, citados por 54% das mulheres, seguidos pelo transporte público, mencionado por 50%. O ambiente de trabalho surge em terceiro lugar, com 36%. Esse retrato reforça uma contradição histórica das cidades brasileiras: enquanto o espaço urbano deveria garantir circulação, convivência e cidadania, para muitas mulheres ele se transforma em território de vigilância constante. Horários, trajetos e comportamentos passam a ser calculados para evitar riscos.

O cenário dialoga com estatísticas nacionais. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a violência contra mulheres permanece elevada, com milhares de registros de agressão e feminicídio a cada ano. O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que a maioria das agressões ocorre em contextos cotidianos e muitas vezes fora do alcance imediato da proteção institucional. Ao mesmo tempo, pesquisas do IBGE mostram que as mulheres continuam assumindo a maior parte das tarefas domésticas, o que amplia a sobrecarga e limita sua autonomia no espaço público.

A pesquisa também expõe um dilema recorrente nas políticas de enfrentamento da violência de gênero. Embora 55% dos entrevistados defendam aumento de penas para agressores, especialistas e instituições públicas alertam que a resposta penal, isoladamente, não resolve o problema. O Brasil já possui legislações robustas, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, consideradas referências internacionais. Ainda assim, a persistência dos índices de violência indica falhas na prevenção, na investigação e na rede de apoio às vítimas.

O retrato final é inquietante. Mesmo com avanços legais e maior visibilidade do tema, a insegurança continua moldando a experiência urbana feminina. Políticas de segurança pública, urbanismo, mobilidade e educação precisam dialogar de forma integrada para transformar cidades em espaços verdadeiramente inclusivos. Enquanto mulheres precisarem calcular rotas, horários e comportamentos para circular nas ruas, a promessa de igualdade continuará incompleta — e a cidade, longe de pertencer a todos.

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