André Luiz da Silva *
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O ano de 1914 costuma ser lembrado mundialmente pelo início da Primeira Guerra Mundial. No Brasil, porém, ele também marcou o nascimento de duas figuras que ajudariam a revelar contradições profundas da sociedade brasileira: Carolina Maria de Jesus e Abdias do Nascimento.
Pouco mais de 100 quilômetros separavam seus lugares de origem. Carolina nasceu em Sacramento, Minas Gerais; Abdias em Franca, interior de São Paulo. Não há registro seguro de que tenham se encontrado pessoalmente, mas suas trajetórias acabaram se cruzando simbolicamente na luta contra o racismo e na valorização da cultura negra no país.
Os dois vieram ao mundo apenas 26 anos após a abolição da escravidão, em um Brasil que ainda não havia pensado em criar políticas efetivas de inclusão para a população negra. Como milhares de brasileiros do interior naquele período de urbanização acelerada, também migraram em busca de oportunidades. Carolina seguiu para São Paulo; Abdias consolidaria sua formação intelectual e política no Rio de Janeiro.
Apesar dessa coincidência histórica, as condições sociais de ambos eram bastante distintas. Carolina enfrentou uma pobreza extrema, vivendo na favela e sobrevivendo como catadora de papel, ferro e objetos descartados. Abdias também veio de origem popular, mas teve acesso maior à educação formal e à militância política, experiências que influenciariam profundamente sua trajetória intelectual.
Ainda assim, foi na cultura que os dois deixaram marcas duradouras. Carolina transformou cadernos encontrados durante suas coletas em registros poderosos da vida nas periferias urbanas. Escritora, poetisa e compositora, denunciou a fome, a desigualdade e o abandono social. Já Abdias tornou-se escritor, poeta, ator, dramaturgo, artista plástico e um dos mais importantes pensadores do movimento negro brasileiro. Foi o criador do Teatro Experimental do Negro, iniciativa que buscava valorizar a cultura afro-brasileira e abrir espaço para artistas negros no teatro e na sociedade.
A luta de Abdias também alcançou o campo político. Exilado durante a ditadura militar, retornou ao Brasil e atuou como deputado federal e senador, defendendo políticas de igualdade racial. Foi um dos pioneiros na formulação de propostas de ações afirmativas, como cotas raciais e a inclusão da história da África e da cultura afro-brasileira nos currículos escolares. Também defendeu o reconhecimento nacional do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro em homenagem a Zumbi dos Palmares.
Com contundência, Abdias afirmava que o racismo brasileiro não era sutil, mas muitas vezes disfarçado pela negação social. Carolina, com a mesma lucidez, denunciava: “Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é a dor e a aflição do pobre.” E deixava um chamado ainda atual: “Quando o homem decidir reformar a sua consciência, o mundo tomará outro roteiro.”
Carolina morreu aos 62 anos, após experimentar o reconhecimento literário e também o desprezo de setores elitizados que menosprezaram sua obra. Abdias viveu até os 97 anos e deixou um legado intelectual, artístico e político que ajudou a moldar o debate contemporâneo sobre igualdade racial no Brasil.
Hoje, ainda que tardiamente, suas trajetórias ganham espaço nas escolas, nos vestibulares, na literatura e nas artes. Conhecer suas histórias é fundamental para compreender melhor o país e para fortalecer a consciência crítica necessária à construção de um Brasil mais justo e plural.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

