Luiz Paulo Tupynambá *
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Ameaçado pelo Islã que se alastrava pelo norte da África, pelo oriente asiático e mesmo pela Península Ibérica, chegando aos muros do Império Romano do Oriente, onde reinava o Cristianismo por nós conhecido como Ortodoxo. O que restava da Roma latina, a sede do antigo e todo-poderoso Império Romano, não passava de uma miríade de pequenas cidades-estado, em guerra permanente uma com as outras. A lei quase não existia e bandos de guerreiros armados cruzavam a Europa saqueando o que encontravam pela frente.
Juntar esses bandos para participar das Cruzadas foi a maneira encontrada pela Igreja Romana para organizar esses cavaleiros facínoras, criando incursões organizadas para libertar a Terra Sagrada, Jerusalém, do jugo dos infiéis maometanos. Ali começou o ódio cristão pelos habitantes da região, tidos pela Igreja como demônios, assim descritos até hoje nas igrejas pentecostais.
Os adeptos de Maomé, os que deviam seguir o Corão e obedecer à Sharia, tinham a obrigação de derrotar os infiéis que não acreditavam no Deus único de sua fé, Alá. Os ensinamentos de Maomé utilizam trechos da Bíblia Cristã, do Talmude judeu e de seu próprio pensamento. Mas também estabelece, estritamente, a maneira de um muçulmano se conduzir na vida. Divulgar o Islã e a palavra de Maomé é uma obrigação de todo muçulmano. Assim como é obrigação de padres católicos e missionários evangélicos, divulgar a fé cristã.
Mas falta uma peça nesse tabuleiro, o judaísmo. Ou religião hebraica. Bem mais antiga, gerou o Cristianismo e deu base a grande parte dos ensinamentos do Corão. E por uma dessas coincidências que nem tanto são coincidências, as três religiões têm seus locais mais sagrados na mesma região: a antiga Palestina, ou melhor, a cidade de Jerusalém. Ali estava o Templo de Salomão, ali Cristo foi julgado pelos sacerdotes judeus e entregue para os romanos para a execução e sacrifício na Cruz. E foi ali, onde hoje é a principal mesquita muçulmana, a Qubbat al-Sakhra, onde um anjo revelou para Maomé os ensinamentos de Alá.
Depois de mais de 1.800 anos de diáspora, em 14 de maio de 1948, moderno estado de Israel voltou para a Terra Prometida, chamada de Canaã, em uma aliança estabelecida por Deus (Yaveh) com o patriarca Abraão. Muito antes do surgimento de qualquer uma das outras religiões. Isso é a base do Sionismo, que não aceita nenhum outro povo ali.
A divisão entre sunitas e xiitas surgiu logo após a morte de Maomé, no ano de 632. Xiitas, acreditavam que seu sucessor deveria ser seu genro e primo, Ali ibn Abi Tali. Porém, os adeptos de uma escolha consensual venceram a disputa e o sogro de Maomé, Abu Bakr, se tornou o primeiro califa sunita. De lá para cá, várias guerras civis foram travadas entre os dois grupos. Os xiitas acabaram por se estabelecer na região do antigo Império Persa, onde hoje é o Irã, mas têm xiitas espalhados por todo o Oriente Médio, principalmente no Iraque e no Líbano.
Mas onde entram os cristãos nessa história? Existe uma corrente cada vez mais forte nos EUA, de que o termo “Terra Prometida” pode ser expandido para outras áreas do mundo, não conhecidas na época pelos primeiros judeus. Essa terra estendida, é claro, é a América, toda ela, do Alasca à Patagônia. E é mais do que um direito, é um dever, que os verdadeiros cristãos originais dividam os frutos de toda essa terra. E quem são os cristãos originais?
Eles, é claro, os pentecostais estadunidenses, defensores da liberdade e do santo anarquismo liberal. Gente como JD Vance, vice-presidente dos EUA, Peter Thiel, dono da Palantir, Steve Bannon, picareta profissional, e o louco de pedra Peter Hegseth, secretário de Guerra dos EUA. Gente que vai à igreja no domingo de manhã, come um hambúrguer feito na churrasqueira, assiste à NFL e logo de manhã, acorda para autorizar uns bombardeios que matarão umas dezenas de crianças e mulheres. Viva as guerras justificadas por Deus, não é mesmo? Semana que vem continuarei.
* Jornalista e fotógrafo de rua

