Maurílio Biagi filho, empresário
Fernanda Dabori, jornalista e empresária
O Brasil que dá certo existe e ele suporta o outro Brasil, com suas mazelas, ineficiências e todos os outros problemas que estamos cansados de acompanhar pelos noticiários. Esse Brasil que dá certo, sobe ao pódio, conquista títulos, assina design autoral e transforma ciência em esperança. Está no ouro de Lucas Pinheiro, na consistência vencedora de Rayssa Leal, na identidade criada por Oskar Metsavaht para os uniformes olímpicos e na pesquisa de Tatiana Sampaio em busca de novos caminhos para tratar a paraplegia.
Mas há outro Brasil que também dá certo todos os dias e que ainda não ocupa o mesmo espaço simbólico: o agronegócio. Somos um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Alimentamos quase dois bilhões de pessoas, desenvolvemos tecnologia tropical de ponta e ampliamos produtividade com menor expansão proporcional de área nas últimas décadas. Ainda assim, o agro raramente é associado a superação, inovação ou propósito coletivo. Com frequência, é reduzido a caricaturas que ignoram a complexidade de um setor que envolve ciência, sustentabilidade, tecnologia, crédito, logística e inserção global.
Recebi recentemente de minha conterrânea Fernanda Dabori, jornalista, relações públicas e CEO da Advice Comunicação Corporativa o White Paper “O Agro Brasileiro entre a Vitrine e o Tribunal Público”, produzido por ela, que assina esse artigo comigo. O documento identifica um paradoxo comunicacional extremamente interessante. Na Agrishow, o agro aparece como vitrine tecnológica, com tom positivo e celebratório. Na COP30, surge como ator sob pressão política e ambiental, muitas vezes sob abordagem crítica. O contraste é estrutural.
Evidências do levantamento – Comparação de Narrativas
| Aspecto | Agrishow | Cop30 |
| Enquadramento | Econômico | tecnológico | Político-ambiental |
| Tom predominante | Positivo | celebratório | Misto a crítico |
| Papel do agro | Motor da inovação | Ator sob pressão |
| Sustentabilidade | Atributo tecnológico | Exigência regulatória |
| Energia / Etanol | Protagonista | Praticamente ausente |
| Profundidade do debate | Operacional | Sistêmica |
Diferenças por tipo de mídia
| Tipos de veículo | Agrishow | Cop30 |
| Tier 1 | Econômia, inovação e negócios | Clima governança e pressão internacional |
| Especializados em agro | Cobertura positiva | Discurso defensivo |
| Socioambientais | ESG | Baixa cobertura | Crítica intensa |
| Energia / Etanol | Etanol em destaque | Foco em combustíveis fósseis |
Alcance simbólico e reputacional
| Evento | Alcance | Tipo de visibilidade |
| Agrishow | Alto no setor | Técnica econômica |
| Cop 30 | Global e transversal | Politica, reputacional e social |
Um exemplo emblemático é o etanol. O Brasil lidera uma das mais relevantes soluções de descarbonização. Estudos da Datagro indicam que um carro movido a etanol no Brasil pode emitir menos ao longo do ciclo de vida do que um elétrico abastecido por matriz energética europeia mais poluente. Ainda assim, no debate climático internacional, a mobilidade elétrica dominou a narrativa. O etanol perdeu espaço simbólico. Incrível que todos os carros da COP eram chineses montados na Bahia e movidos a eletricidade.
A COP30 deixou um aprendizado claro: ativos técnicos não se convertem automaticamente em legitimidade global. Seu alcance é transversal, político e reputacional, muito além do ambiente técnico da Agrishow. É ali que a percepção internacional se consolida.
Vivemos uma nova ordem mundial marcada por incertezas, tensões geopolíticas e reconfiguração de cadeias produtivas. Segurança alimentar e transição energética deixaram de ser pautas setoriais e tornaram-se estratégicas. Países que conseguem alinhar produção, sustentabilidade e narrativa ocupam posição privilegiada nesse novo tabuleiro global.
O Brasil reúne ativos concretos: matriz energética relativamente limpa, liderança em biocombustíveis, tecnologia aplicada ao campo e capacidade de alimentar parte relevante do planeta. Ainda assim, essa força não se traduz, de forma consistente, na percepção construída pela mídia internacional e por parte da opinião pública. Ora o setor é reconhecido como potência econômica, ora é enquadrado exclusivamente pela lente da pressão ambiental.
Parte desse problema é externo. Mas parte também é responsabilidade do próprio agro. Nos últimos anos, o setor foi progressivamente politizado e é preciso reconhecer que os próprios produtores, lideranças e entidades contribuíram para isso ao não ocupar de forma estratégica e consistente os espaços de diálogo público. Muitas vezes falando apenas para dentro da própria bolha, entre aqueles que já concordam com ele.
Comunicação, porém, não é eco. É ponte. Sem presença constante no debate público, sem capacidade de dialogar com a sociedade urbana, com a academia, com organizações sociais e com formadores de opinião, o agro deixa um vazio. E, em política e reputação, vazios nunca ficam desocupados.
Um episódio recente ilustra esse desafio. No início de 2026, o terminal da Cargill em Santarém, no Pará, foi ocupado por grupos indígenas em protesto contra um decreto federal que previa estudos para concessões hidroviárias na Amazônia. Mais do que o conflito em si, chamou atenção a ausência de uma reação articulada do setor no debate público. Um parceiro importantíssimo e sério ficou à deriva. Mesmo existindo argumentos técnicos relevantes, como o fato de que o transporte hidroviário emite menos carbono, consome menos combustível e é amplamente utilizado por grandes economias, eles pouco chegaram à sociedade.
Nada disso elimina a necessidade de diálogo permanente com comunidades locais e povos originários. Mas quando a narrativa técnica não ocupa espaço, o debate tende a ser conduzido apenas no campo político e emocional. E o governo se aproveitou disso.
O agronegócio brasileiro precisa aprender com esse episódio. Não se trata de confronto, nem de retórica inflamada. Trata-se de presença. Defender argumentos técnicos com serenidade, ocupar espaços de diálogo, construir pontes com a sociedade e participar de forma estratégica dos debates que moldam percepção pública. Sempre com firmeza, mas sem violência e sem soberba.
Fortalecer a reputação do setor, portanto, deveria ser agenda nacional. O Brasil que dá certo não está apenas no pódio; está no campo, na ciência aplicada ao solo, na energia renovável e na capacidade de produzir em larga escala sob pressão climática. Mas, no mundo contemporâneo, produzir bem já não é suficiente. É preciso também explicar, dialogar e influenciar.
Quando o agro brasileiro ganha reputação, o Brasil ganha influência. E, em um mundo que busca segurança alimentar e energética, quando o Brasil ganha influência, todos ganham.

