José Aparecido Da Silva*
Crônica dedicada ao amigo Luiz Carlos Briza, catedrático em Jornalismo Esportivo,
cuja maneira inteligente de ver o futebol nos enriquece diariamente
Ao longo da última semana, meu amigo de infância na antiga Cidades das Rosas, Jaboticabal, Luiz Carlos Briza um dos grandes nomes do jornalismo esportivo da nossa cidade e região, comentou em sua coluna a minha preocupação com a ciência e a métrica do futebol. Argumentou ele muito bem que, considerando a dinâmica das 4 linhas e a grande quantidade de variáveis envolvidas numa partida de 90 minutos. Seria quase impossível edificar uma ciência do futebol. Sim, ele tem razão. Mas, desde a nossa infância quando jogarmos, usávamos uma bola de meia (lembram-se), os tempos mudaram substancialmente e as ferramentas tecnológicas, conhecimentos da neurociência do futebol, neurociência cognitiva da tomada de decisão, neurociência do comportamento motor, bem como, a introdução da Inteligência Artificial fora e dentro do campo, têm, em parte, mudado as diversas facetas do futebol. Imediatamente, também, me lembrei do filme: o homem que que mudou o jogo (Moneyball), com Brad Pitt a estrela principal. Futebol é cognição, emoção, motivação e paixão. Não duvidem. Entretanto, uma análise de um jogo qualquer que seja ele, nacional ou internacional envolve considerar várias dimensões dos jogadores de ambos os times: habilidades cognitivas, afetivas, comportamentais, e suas características de personalidade. Ademais, temos as dimensões do tamanho do público, do campo de futebol, da inteligência dos técnicos e muitas outras. Em resumo, o futebol é dinâmico, envolve percepção e ação, eu diria nos tempos em que estudava percepção do espaço. Mas, Briza tem razão, futebol importa-nos muito porque somos humanos inteligentes. Vamos à algumas breves análises. Talvez, aqui os meus desassossegos com a métrica do futebol.
Times de futebol são únicos no sentido de que o estágio final da produção (a partida entre dois times) é algo observado, característica esta que apresenta oportunidades para que se estude o comportamento dos atores envolvidos numa partida. Um destes comportamentos, que gera interesse científico, é o dos árbitros de futebol. Juízes, tendo a tarefa de implementar regras do futebol, é por meio delas que asseguram a obediência dos jogadores em campo. Em jogos europeus, um árbitro faz, em média, 137 intervenções observáveis numa partida, incluindo tiro-livre e pênaltis (aqui com atribuição de decidir se uma falta merece uma advertência, na forma de cartão amarelo ou vermelho), escanteios, laterais e interrupções do jogo por contusão grave. Desde que várias destas tomadas de decisão são orientadas por julgamento subjetivo, os árbitros de futebol são, frequentemente, acusados de serem inconsistentes e enviesados nas mesmas. Evidências destas inconsistências e vieses têm sido obtidas em várias ligas domésticas europeias. Nos campeonatos espanhol, alemão e italiano têm sido encontradas a tendência dos juízes em adicionar mais tempo ao final das partidas quando o time da casa está perdendo por um gol, quando comparado ao time da casa que está ganhando. Por quê? Uma fonte potencial de viés do árbitro é a pressão social (influência da torcida). Pesquisas também revelaram que as condições arquitetônicas do campo de futebol desempenham papel-chave no viés do juiz, ou seja: tamanho absoluto (quantidade de pessoas) e tamanho relativo da torcida (quantidade de pessoas em relação à capacidade total do estádio), bem como, a proximidade dos torcedores às margens do campo (a presença de pista de atletismo)
Recente estudo revelou que a torcida, arquitetura do estádio e a nacionalidade dos juízes e dos times de futebol afetam os julgamentos subjetivos dos árbitros. Parece que o tamanho relativo da torcida importa mais que o tamanho absoluto: tanto o time da casa, quanto o time visitante, são mais prováveis de incorrer em sanções disciplinares quanto mais próximo estiver o estádio de sua capacidade total. A presença de pista de atletismo tem o efeito de aumentar sanções disciplinares dadas ao time da casa. Em relação aos efeitos da nacionalidade, dados revelaram que árbitros de grandes associações (Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha) são menos predispostos à favoritismo explícito comparados a outras associações de pequenas ligas. Isto é, tendem a conceder poucas sanções disciplinares ao time da casa. As sanções disciplinares também são influenciadas pelo tipo e fase em que a competição está. Concluindo, pressão social da torcida influi em partidas de futebol, e, em contextos internacionais, nacionalidade também influi na tomada de decisão dos árbitros.
Professor Titular Sênior – USP-RP*




