José Eugenio Kaça *
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A mácula da segregação social no Brasil é histórica. E essa segregação se manifesta de maneira límpida na educação básica pública.Para manter a segregação,a educação básica pública foi dividida em três etapas, sendo a primeira, que era o primário com acesso aparentemente para todos, no entento, as fases seguintes, o ginasial e o secundário havia uma rigorosa seleção, era o primeiro vestibular, e como a porta era estreita, somente alguns poucos oriundos da classe pobres conseguiam adentrar neste mundo, para os pobres conseguir terminar o primário já era uma vitória.
Estas duas fases, o ginasial e o secundário eram públicas e com qualidade, pois atendia prioritariamente as classes mais abastadas, com isso tinham grande prestígio. O analfabetismo da população pobre era uma mácula da nossa sociedade, e como nunca tivemos um projeto de Nação sério, até hoje carregamos este estigma.
Os governantes brasileiros, poucas vezes na história tiveram iniciativa própria para desenvolver o País, combatendo a desigualdade e promovendo o bem estar da população, e as poucas vezes que isso aconteceu, a turma do “tá ruim” trabalhou para acabar com qualquer possibilidade de sucesso.
Quando por acordos financeiros com o Tio Sam, os governantes brasileiros foram obrigados a colocar os pobres na educação básica, o sonho da escola pública de qualidade evaporou. Como a classe média não queria ver seus filhos convivendo no mesmo ambiente com os filhos dos pobres,abandonaram a escola pública, e com a ajuda do poder público, que tanto combatem, criaram as redes privadas, e aos poucos a escola pública foi sendo sucateada.
O abandono proposital, criou um ambiente propício para que aos poucos a violência que era silenciosa, e fazia parte da estrutura pedagógica contaminasse o ambiente, principalmente das escolas das periferias empobrecidas. Uma violência que seria resolvida com uma pedagogia humanizada, onde o ouvir é mais importante do que ordens impostas de cima pra baixo, entretanto, a chaga hereditária do regime escravocrata falou mais alto.
E políticas de segregação começaram a aparecer no horizonte, pois os filhos das classes empobrecidas precisavam de disciplina, para continuar o velho costume de baixar a cabeça e dizer sim senhor, e não senhor. A criação das escolas militarizadas foi uma ideia para matar a criatividade da meninada das periferias pobres, colocando no ambiente escolar polícias despreparados, violentos e muitos analfabetos funcionais, e a meninada tão criativa fica exposta a essa violência psicológica, e muitas vezes física – tudo em nome dos “bons costumes”.
As escolas privadas básicas, que para muitos são exemplos de qualidade no ensino, pois preparam os alunos para comandar o País e terem carreiras internacionais, infelizmente não preparam o ser humano, humanizado. A violência que aconteciam nos trotes da Faculdade de Medicina de São Paulo (FMUSP) tem um histórico documentado de agressões, abusos sexuais, racismo, homofobia, estupro e até morte.
Abusos que só foram denunciados em 2014/2015, quando o Ministério Público entrou em ação. Na época dos trotes mais violentos a quase totalidade dos alunos eram oriundos das classes média alta. Os trotes foram proibidos pela justiça, pois a direção da Faculdade, mesmo sabendo destas violências nunca tomou nenhuma providência.
O crescimento dos crimes digitais estão se proliferando entre adolescentes, principalmente os crimes sexuais. E os filhos das classes mais abastadas, que estudam em escolas famosas são os maiores praticantes destes crimes. Essa meninada tem uma vida confortável e luxuosa, mas a convivência familiar não existe, e a falta de afeto e de se sentir importante abre o caminho para o crime.
O ambiente de retrocesso nas relações humanas, principalmente a desvalorização das mulheres, cria um sentimento de poder nestes adolescentes de classe média alta, que contam com a impunidade para cometer seus crimes – afinal não se vê filho das classes abastadas em instituições para menores infratores.
A Juíza da infâcia, Vanessa Cavalieri, em depoimento na CPI do Crime Organizado, falou que os crimes mais violentos contra as mulheres e pessoas vulneráveis são cometidos pelos adolescentes das classes abastadas, e que a misoginia que a extrema direita carrega contaminou estes jovens, que não tem o menor apresso pelas mulheres. A raiz da violência cruel contra outro ser humano, não está nas favelas!
* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

