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Ribeirão é destaque no congelamento de embriões

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A forma como mulheres e casais planejam a maternidade no Brasil tem passado por uma transformação silenciosa, impulsionada pelo avanço da medicina reprodutiva e pelo acesso a mais informação. Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), plataforma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que reúne informações sobre reprodução humana assistida no país, mostram que o Brasil acumulou 689.063 embriões congelados entre 2020 e 2025.

Ribeirão Preto ocupa uma posição que chama a atenção em nível nacional. A cidade concentra 113.477 embriões criopreservados no período, o equivalente a um em cada seis embriões congelados no país. O volume representa 16,5% do total nacional, 24,1% de todo o estoque da Região Sudeste e 31,1% do material armazenado no estado de São Paulo, o maior mercado brasileiro de reprodução assistida.

O crescimento acompanha uma tendência que se intensificou na última década. Em 2015, o país registrava 67.359 embriões congelados. Hoje, o número se aproxima de 700 mil, um aumento de mais de dez vezes em dez anos. A Região Sudeste lidera o ranking nacional, com 469.450 embriões armazenados, o equivalente a 68,1% do total brasileiro. Apenas o estado de São Paulo concentra 364.065.

Para a ginecologista especialista em reprodução humana Rebecca Pontelo, do Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto (CEFERP), os números refletem uma realidade já observada no cotidiano das clínicas. Segundo ela, a cidade se consolidou como um dos principais polos de medicina especializada do país. “A presença de centros de pesquisa e de várias clínicas de reprodução assistida atrai pacientes de diferentes regiões. Muitas pessoas realizam os tratamentos aqui e os embriões permanecem armazenados nas clínicas da cidade”, explica.

Além do papel regional da cidade, a especialista destaca uma mudança no perfil das pacientes. Se antes o congelamento era mais frequentemente indicado por razões médicas, hoje a busca tem relação crescente com planejamento de vida. “Há alguns anos, o congelamento era muito associado a situações como tratamentos oncológicos ou cirurgias que poderiam comprometer a fertilidade. Hoje vemos um aumento da preservação da fertilidade social, com mulheres entre 30 e 35 anos que querem preservar a possibilidade de maternidade enquanto investem na carreira ou aguardam o momento certo para formar uma família”, afirma.

De acordo com a médica, o congelamento de óvulos e embriões não interrompe o relógio biológico, mas amplia as possibilidades futuras. “Ele preserva o potencial reprodutivo daquele momento da vida. Não é garantia de gravidez, mas pode aumentar as chances dependendo de fatores como idade no momento do congelamento, número de óvulos ou embriões armazenados e condições de saúde quando a mulher decide utilizá-los”, explica.

Mudança de comportamento

Para a especialista em reprodução, Rebecca Pontelo, Ribeirão Preto se consolidou como um dos principais polos de medicina especializada do país | Reprodução

Os dados mais recentes também indicam mudança no comportamento feminino em relação à preservação da fertilidade. Entre 2024 e 2025, o congelamento de óvulos cresceu em todas as faixas etárias.

Entre mulheres com menos de 35 anos, houve aumento de 26% no número de ciclos e acréscimo de 13.066 óvulos congelados. Entre aquelas com 35 anos ou mais, o crescimento foi de 23%. O avanço proporcionalmente maior entre as mais jovens sugere aumento da conscientização sobre a importância de antecipar a decisão.

Do ponto de vista biológico, a idade continua sendo o principal fator relacionado à fertilidade feminina. “Quanto mais jovem é a mulher no momento do congelamento, maior tende a ser a qualidade dos óvulos e menores são as chances de alterações cromossômicas”, explica Rebecca. Apesar disso, a médica ressalta que mulheres em idades mais avançadas também podem recorrer ao procedimento. “Em reprodução humana, muitas vezes dizemos que, quando o assunto é preservação da fertilidade, hoje tende a ser melhor que amanhã. O importante é avaliar cada caso individualmente”.

Destino dos embriões

A engenheira Nélia de Paula optou pelo congelamento durante um momento de reflexão sobre o futuro e a maternidade | Reprodução

O crescimento no número de embriões congelados também levanta discussões sobre o destino do material quando o casal já concluiu seu projeto reprodutivo. Entre as possibilidades estão a manutenção do armazenamento, a doação para outros casais, a destinação para pesquisas científicas ou o descarte, sempre de acordo com a legislação e com a autorização dos pacientes. “A doação de embriões, por exemplo, pode ajudar outros casais que enfrentam dificuldades para engravidar e representa uma alternativa importante dentro da reprodução assistida”, explica a médica.

Em meio ao debate sobre autonomia feminina no Dia Internacional da Mulher, os números revelam uma mudança silenciosa no planejamento da maternidade. Com o avanço das técnicas de reprodução assistida, a decisão sobre quando ter filhos passa a integrar cada vez mais o projeto de vida das mulheres, e não apenas o ritmo imposto pelo tempo biológico.

 

Ribeirão ampliou acesso à reprodução assistida

Embora a maior parte dos tratamentos de reprodução assistida no Brasil esteja concentrada em clínicas privadas, alguns serviços públicos oferecem atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ribeirão Preto abriga um desses centros, ligado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP).

O serviço realiza acompanhamento de casais com dificuldades para engravidar e procedimentos de reprodução assistida, incluindo fertilização in vitro e criopreservação de embriões. Atualmente, o banco do hospital mantém cerca de 2 mil embriões congelados, provenientes de tratamentos realizados na própria instituição.

A existência de um serviço público desse tipo é considerada estratégica no país, já que o custo dos procedimentos ainda representa uma barreira importante para grande parte da população. O acesso pelo SUS permite que casais que não teriam condições de arcar com o tratamento possam recorrer às técnicas de reprodução assistida.

No Brasil, poucas instituições públicas oferecem esse tipo de atendimento de forma estruturada. Por isso, a presença do serviço em Ribeirão Preto reforça o papel da cidade como um dos polos nacionais de reprodução humana, reunindo tanto centros privados quanto atendimento pelo sistema público de saúde.

Planejamento pessoal fez engenheira optar pelo congelamento

A engenheira Nélia Alves de Paula, de 40 anos, decidiu congelar os óvulos aos 37, após o término de um relacionamento. Segundo ela, a decisão surgiu durante um momento de reflexão sobre o futuro. “Sempre fui muito dedicada à minha carreira. Quando olhei para minha vida naquele momento, percebi que tinha realizado muitos sonhos profissionais, mas a maternidade, que sempre foi um desejo meu, ainda não tinha acontecido”, conta.

Para Nélia, o congelamento representou uma forma de planejamento, e não de adiamento da maternidade. “Eu entendi que não precisava tomar uma decisão apressada por causa do relógio biológico. O congelamento me trouxe a segurança de preservar essa possibilidade enquanto eu continuava construindo minha vida”, afirma.

O processo também trouxe novas descobertas. Durante os exames realizados antes do procedimento, ela recebeu o diagnóstico de baixa reserva ovariana, condição que reduz a quantidade de óvulos disponíveis no ovário. “Isso reforçou para mim o quanto aquela decisão foi importante naquele momento. Foi uma forma de cuidar de um sonho e diminuir a pressão do tempo”, diz.

Atualmente, Nélia está em um relacionamento e planeja ter filhos. Para ela, a criopreservação trouxe tranquilidade para viver outras áreas da vida sem a sensação constante de urgência. “O congelamento de óvulos me permitiu seguir minha vida com mais serenidade. Foi uma decisão de cuidado comigo mesma e com o meu futuro”, afirma.

SP sanciona lei que garante aleitamento em creches

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sancionou a lei que garante o direito à amamentação e ao aleitamento materno nas creches no estado de São Paulo. A medida também estabelece diretrizes para que o Governo do Estado apoie os municípios na criação e implementação de ações de incentivo à prática nas unidades de educação infantil. A sanção foi feita no dia 17 de março.

A nova legislação assegura que bebês atendidos em creches públicas e privadas possam continuar recebendo leite materno mesmo após o ingresso na unidade educacional. O objetivo é evitar que a entrada da criança na creche se torne uma barreira para a continuidade do aleitamento.

Entre as medidas previstas, as creches deverão adotar ações para apoiar mães e cuidadores, como a criação de lactários e salas de apoio à amamentação, a disponibilização de estrutura para extração e armazenamento adequado do leite humano e a capacitação de profissionais sobre os benefícios do aleitamento materno e o manejo do leite.

A lei também incentiva a realização de campanhas, rodas de conversa e atividades educativas voltadas a mães, pais e cuidadores, além de orientar sobre a doação de leite humano aos bancos de leite. As unidades deverão informar, no momento da matrícula, sobre a importância da continuidade do aleitamento e garantir o acesso de mães e responsáveis para a amamentação dos bebês.

O texto prevê ainda que o Governo do Estado de São Paulo elabore materiais técnicos e promova ações de apoio aos municípios para fortalecer a implementação da política, incluindo a criação de programas para construção de lactários e salas de apoio à amamentação nas creches. A nova lei já está em vigor.

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