Antonio Carlos A. Gama*
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Octávio Mello Alvarenga (Mitos & Valores, Instituto Nacional do Livro / Ministério da Educação e Cultura, Rio, 1946), tem um pequeno ensaio sobre a água na poesia de Manuel Bandeira.
Observa o ensaísta que Heráclito de Éfeso talvez não pretendesse fazer mais que uma bela imagem, ao dizer que é impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Daí por diante, porém, a imagem ganhou mundo, e acrescenta Octávio de Mello Alvarenga, é a mesma que corre pelo fundo da Velha Chácara, de Bandeira:
“Ouço uma voz que esqueci:
é a voz deste mesmo riacho.”
Diz ainda que um espectro apenas estatístico de suas “Poesias Completas” apresentaria o resultado seguinte: em 216 poemas, 34 referências diretas à água – seja do mar, da chuva, do rio ou do pranto. Um exame mais do que estatístico verificaria a importância dessas referências, apresentando um dos termos da equação bandeiriana.
E distingue as três maneiras pelas quais Bandeira usava simbolicamente a água: pelo pranto; como ideia de mutação; como ideia de perda e sacrifício.
Mas a água, pensamos nós, é uma constante em Manuel Bandeira com outras significações: como lembrança do seu Recife, das enchentes, do torvelinho em que rodava o boi morto.
“Capiberibe, Capibaribe.
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
E foi o meu primeiro alumbramento.”
“Cheia! As cheias!
Barro boi morto árvores destroços
redomoinho sumiu.”
Ou então:
“Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.”
“Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela d ‘alva
Rainha do mar.”
E ainda:
“Quero banhar-me nas águas límpidas
Quero banhar-me nas águas puras
Sou a mais baixa das criaturas
Me sinto sórdido.”
E ele sente que o rio é eterno:
“Prendei o rio
Maltratai o rio
Trucidai o rio
A água não morre
A água que é feita
De gotas inermes
Que um dia serão
Maiores que o rio
Grandes como o oceano
Fortes como os gelos
Os gelos polares
Que tudo arrebentam.”
Ou então contenta-se em ver a piscina:
“Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja trepida
A água da carranca.”
E se o córrego ainda é o mesmo, ainda são os mesmos aquela árvore, a casa, o jardim:
“Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
– Mim daqueles tempos!
O poeta, na verdade, queria ser como o rio que deflui:
“Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.”
O que vemos é que, em Bandeira, as águas significam a perpétua passagem da vida, o torvelinho que arrasta tudo, mas também a purificação, o deslumbramento, a promessa da felicidade.
Ribeiro Couto, grande amigo de Bandeira, desde os tempos da Rua do Curvelo, em Santa Teresa, quando foram vizinhos (A trinca do Curvelo : Os afetos de Manuel Bandeira / Elvia Ribeiro. / I ed. / São Paulo : Todavia, 2026.) é outro poeta em que a água, a água da chuva, a água dos brejos e dos riachos desliza pelos seus versos.
Dois tísicos (Ribeiro Couto curou-se, Bandeira tornou-se tísico profissional), mas cada um com um sentido diferente da vida: Bandeira (a vida inteira que poderia ter sido e que não foi), lavando os pecados nas águas, querendo ser feliz nas ondas do mar, e Ribeiro Couto afogado numa melancolia ultramarina.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

