Antonio Carlos A. Gama *
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A coisa continua brava, tanto quanto o coisa.
Esta questão de dar o nome certo, a palavra exata, para uma ideia, para uma sensação, para o que não sabemos perfeitamente o que é, para algo indefinível, imaginado ou abstrato, está em aberto e nos remete para muitas reflexões.
De algum modo, tudo está nos dicionários, e há vocábulos para cada coisa, de acordo com o conhecimento mais ou menos amplo que temos da vida e do mundo. Há ainda dicionários especializados, e dicionários de ideias afins, a que podemos recorrer.
Cada profissão, cada ofício têm o seu vocabulário próprio. Mas surgem, dia a dia, novas invenções, novos aparelhos, novas descobertas às quais se devem dar o nome adequado e significativo.
Não é pequena a lista de palavras estrangeiras que foram ajeitadas para o português, como, por exemplo, “chauffeur” para “chofer”, “football” para “futebol”, pois “ludopédio”não pegou. O que pegaram foi “escanteio”, para “corner”, “penalidade máxima” ou simplesmente “pênalti” para “pennalty”, “gol” para “gool”.
Também “whisky” virou aqui “uísque”. Nomes de iguarias igualmente se adaptaram à nossa língua, embora haja uma mistura entre “filé-mignon”, e a “pizza” resista. “Complot” virou complô, entre nós, quando temos pura e simplesmente conspiração.
Alguns de nossos poetas, Machado de Assis entre eles, escreveram poemas em francês. Mesmo depois da revolução modernista, Manuel Bandeira compunha alguns dos seus poemas em francês.
Com o predomínio quase hegemônico dos Estados Unidos da América do Norte, depois da Segunda Guerra Mundial, a coisa virou para o inglês.
Também é sabido que, quando do domínio dos árabes sobre a península ibérica, muitas palavras do seu idioma enxertaram-se no idioma português, que é latino. Quase todas começadas com “al”: almofada, alambique, alcaide, almoxarife, alfândega, álgebra, algaravia etc. etc.
O mal que fazem à nossa língua escrevinhadores que não a conhecem, nem se preocupam em estudá-la, pode tornar-se irreversível, porque tais modismo originados da ignorância contaminam outras pessoas.
No Brasil, a colocação dos pronomes é diversa da que se faz, rigorosamente, em Portugal. Suavizamos a língua, enquanto ela permanece mais áspera e talvez mais vigorosa, em Portugal. Nem por isso deixamos de nos entender lá e cá.
O padrão de nossa linguagem foi dado por Machado de Assis, que primava pela correção, pode ser pela influência que sobre ele exerceram os seus amigos portugueses da sua mocidade. Mas dele para cá muita água correu debaixo da ponte, e convém seguir a correnteza, filtrando as impurezas.
A língua é um organismo vivo, eis um preceito do Marquês de Maricá. Nem tudo, porém, no marquês, é caixa de rapé.
Entre os modernos, ou nossos contemporâneos, Rubem Braga escrevia com notável fluência. São muitos os modelos, embora não devamos imitá-los, e sim, aprender com eles.
Tudo se pode dizer e escrever, desde que se tenha talento criador. E o que dizer. O adorável Adoniran Barbosa criou com seus sambas uma linguagem única, mescla de italiano macarrônico com o linguajar caipira e paulistano.
A coisa e o coisa precisam refletir sobre isso. Principalmente as gerações que já foram acoimadas de “gerações sem palavras” e que agora engolem letras e sinais gráficos nos seus textos e diálogos nas redes sociais.
* Promotor de Justiça, aposentado, professor de Direito, advogado e escritor

