Elson de Paula *
“O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
O mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer.”
(Juízo Final, de Nelson Cavaquinho e Elcio Soares)
O título deste artigo também poderia ser, “o incauto e o inconsequente”, ou talvez, “o sucedâneo e o detentor”, ou ainda, “os cruéis”.
Já sabemos o quanto a homofobia e a transfobia geram em sofrimentos em todo o Brasil, todos os dias, a todo instante.
Nosso país registra, em média, uma morte violenta de pessoa trans ou travesti a cada 3 dias, mantendo-se na liderança mundial nesse tipo de assassinato pelo 18º ano consecutivo. Em 2025, foram contabilizados pelo menos 80 assassinatos segundo o Dossiê da ANTRA (Associação Nacional dos Travestis e Transsexuais do Brasil).
Precisamos disso?
Este título mundial deveria envergonhar-nos, pois o Brasil é considerado um país majoritariamente cristão, com cerca de 84% a 90% da população professando a fé cristã (católica ou evangélica), e sendo cristão na maioria, mas considerando essa denominação em número de assassinatos de pessoas trans ou travestis, podemos dizer que somos o país que mais desobedece a Lei Maior do Cristianismo citada no Novo Testamento, a que Jesus proferiu segundo os apóstolos Mateus 22:39 (capítulo e versículo) e Marcos 12:31(capítulo e versículo), que quando questionado pelos Fariseus sobre qual o maior mandamento de Deus, responde:
“Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao Próximo como a ti mesmo!”
É sabido também, conforme conta a história cristã, que Jesus durante sua missão na Terra, se cercou de todo tipo de pessoas, fossem prostitutas, homossexuais, assassinos, ladrões, enfermos da mente e do corpo, e com eles preferia conviver, mais que pela presença da casta sociedade da época, muito parecida com a dos “homens de bem” que se apresenta hoje.
Religiões à parte, mas sem deixar de considerar o que Ele aqui pregou, pensemos se estamos agindo corretamente policiando, julgando e condenando tudo o que vem a construir um Brasil melhor, que permita a convivência harmoniosa, pacífica e civilizada entre héteros, homos e trans.
Ideologias à parte também, pensemos se está correto quando um influencer entra numa escola pública para questionar sobre o uso do banheiro feminino ou masculino por uma criança trans, e após, um legislador municipal adentra o mesmo espaço, filmando, gravando e julgando ações pedagógicas e manifestações das próprias crianças, desconstruindo um ambiente inclusivo e de harmonia.
O que mais faltou nesse momento, com certeza, foi o exercício do maior mandamento de Jesus: “amar ao Próximo como a si mesmo”.
Em 2012, como membro do Conselho de Pais da escola infantil que minha filha era matriculada, participei de 3 reuniões extraordinárias com o objetivo de discutir com os outros conselheiros (pais, um representante da PM, profissionais da escola) o caso de um menino de 5 anos que usava roupas femininas e frequentava o banheiro para meninas da unidade, com o conhecimento e o consentimento dos seus pais.
Nestas reuniões muito se falou, muito se julgou e pouco se decidiu, e em nenhum momento os pais do menino foram ouvidos.
Em particular, eu conversei com eles, e contaram-me que seu filho ao longo dos seus primeiros anos de vida apresentou-se assim, dando preferência para bonecas, brinquedos de menina, roupas femininas, e que já o haviam levado em vários psicólogos, psicopedagogos e outros profissionais, até o momento que sem nenhuma resposta, entenderam que deveriam aceitá-lo e respeitá-lo como ele se sentia e queria ser, uma menina.
Essa é uma situação que muitos pais e mães já viveram, e muitos ainda viverão, e seus filhos não deixaram ou deixarão de ser quem são, humanos, humanas, pessoas como nós, com os mesmos direitos segundo nossa Constituição Federativa de 1988.
Portanto, não sejamos cruéis, respeitemo-las, pois elas, as crianças trans, existem!
Pensemos nisso!
* Jornalista, representante técnico do Movimento Nacional de Luta na Defesa da População em Situação de Rua( MNLDPSR) cofundador do Fórum de Defesa da População em Situação de Rua de Ribeirão Preto e vice-presidente do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS)

