Galeno Amorim *
Ler não é nenhum luxo, nem prática elitista circunscrita a uns poucos do andar de cima com tempo para ócio — como certos setores da vida nacional preconizaram ao defender a volta da tributação sobre livros no Brasil. Longe disso, o livro é a ferramenta mais potente para promover desenvolvimento humano e as transformações que se almejam na sociedade.
Nos mais de 30 anos como ativista da causa do livro e da leitura, tenho visto histórias pessoais de impacto em ambientes improváveis, cujos protagonistas pareciam predestinados a não dar certo. Seja em presídios, medidas socioeducativas, abrigos de idosos ou entre jovens de comunidades periféricas, onde livros geralmente custam a chegar.
Na verdade, os livros vão além do propalado entretenimento e lazer cultural de qualidade que propiciam — o que, por si só, já vale a pena. E transcendem sua função de armazenar e transmitir o conhecimento acumulado pela humanidade entre gerações, levando-os a serem tidos como a maior invenção do milênio passado, período efervescente de grandes descobertas.
O fato é que quando uma pessoa — seja criança, jovem ou adulto de qualquer faixa etária — cria intimidade com a leitura, algo mais profundo acontece. Convertida em leitora, enxerga mais longe, adquire novas perspectivas para o dia a dia, argumenta com mais segurança e se torna capaz de imaginar novos caminhos para si e para os outros — o que se soma à melhoria da autoestima e ao alargamento da visão de mundo, acendendo possibilidades onde antes só havia o nada.
Não é exagero afirmar que ler dá poder! Não um poder sobre o outro, mas o de compreender melhor, fazer escolhas e, sobretudo, sonhar e agir. Muitos desses novos leitores vão passar, na definição do educador Paulo Freire, do estágio de ler palavras e significados para fazer uma melhor leitura do mundo.
É o que se vê nas reuniões semanais dos clubes de leitura para falar dos livros que leram. Nos mais de 1.000 clubes criados desde 2008 pelo Observatório do Livro, a média é de oito livros lidos por ano — mais que o dobro do índice nacional (pesquisa Retratos da Leitura no Brasil).
E por que esses clubes dão tão certo e viram tendência além do modismo? Além de oferecer acesso gratuito às obras – sejam impressos, ebooks ou audiolivros, possibilitam o convívio social e as trocas culturais e operam sob um lema: “ninguém larga da mão de ninguém”. Há um apoio mútuo entre os membros e uns dão força aos outros para que ninguém desista diante da menor dificuldade. Com isso, estão formando leitores que leem por prazer e fazem disso um hábito.
Faz, portanto, todo sentido o nome escolhido para a nova série de clubes de leitura voltados para jovens de comunidades iniciado em abril, mês consagrado ao livro, em Ribeirão Preto: “Ler é Poder!” Uma realização conjunta do Observatório e do Ministério da Cultura, as novas unidades funcionarão também em Batatais, Jaboticabal, São Carlos e São Bernardo do Campo.
* Escritor e jornalista, é CEO da Fundação Observatório do Livro e da Leitura. Ex-secretário de Cultura de Ribeirão Preto e criador da Feira do Livro, foi presidente da Biblioteca Nacional e responsável pela criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL).

